terça-feira, 17 de outubro de 2017

DECISÃO

A partir de agora só vou me apaixonar por mulheres que não cantam não compõe não dançam não escrevem não sapateiam não pintam não atuam não esculpem não desenham não tocam instrumentos musicais não filmam não fotografam não poetizam não façam qualquer tipo de arte.

Estarei blindado a todas as tentações. Podem ser lindas, deliciosas, inspiradoras musas. Posso ficar sozinho, deprimido, abandonado. Mesmo que eu vire um lobo da estepe miserável, faminto, drogado e alcoólatra rondando as cidades e uivando para luas imaginárias, somente vendo estrelas quando refletidas em poças d'água nas sarjetas, fugirei dessas pessoas especiais e desafiadoras.

Até se não conseguir mais escrever uma sílaba com intenção poética ou compor uma nota de me
melodia, não haverá chance de me aproximar intensa, profunda, densa e totalmente dessas mulheres que me atraem feito o cão ao dono, a boca ao copo, o vício ao viciado, a tara ao sexo, o sonho à alma.

Nem se o planeta virar deserto e só existir um lago num oásis imaginário, mergulharei nessas águas refrescantes e balsâmicas. Serei duro, resistente à erosão que esse tipo de amor faria na superfície do meu coração.

E se eu voltar atrás, o que é impossível para um cara firme como eu, esqueçam tudo que eu escrevi agora.Estarei criando uma canção pra Ela.


Fábio Roberto


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

CÉU E INFERNO – Fábio Roberto

Livro Estórias das Músicas

CÉU E INFERNO – Fábio Roberto
(canção a ser gravada)

A canção descreve uma paixão vivida em toda a sua verdade: o céu dos momentos felizes de amor eterno e o inferno da decepção e da ruptura inevitáveis. Uma modesta homenagem ao poeta Vinícius de Morais que sabiamente vaticinou ao amor:  “...que seja eterno enquanto dure.”

CÉU E INFERNO (2007)
O amor quando céu o amor busca ser.
O amor busca o seu prazer,
Viver.

Mas o amor quando não, quando nem mais talvez,
É o inferno de não ser mais,
Morrer.

E não olha pra trás, pois tem medo da dor.
Ou tem medo até de não sentir a dor
E de não esquecer
Tal amor que finito,
Durou só o tempo de ser
Tão bonito...

Fábio Roberto


sábado, 14 de outubro de 2017

DEPOIS

Perambulei pelas planícies da morte,
mas editarei este poema em brusco corte.
O início: movimento sorridente.
Longe de ser boca de um indigente.

A cena vista de cima, horizonte.
Em plano americano, pilares de ponte.
O zoom não disfarça na cara a ruga.
A câmera de olhos fechados, fuga.

A imagem vista de baixo, pernas andando.
Quando sentida por dentro, sangrando.
Imaginada na fonte do etéreo, aroma.
Vivida pela crueza do eterno, coma.

O melhor é ver a filmagem de lado.
Em qualquer sequencia, um ar desesperado.
Passear este filme por tanta imundície,
sem focalizar no fim que ali estava a planície.

A planície. A planície. A planície.


Fábio Roberto

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

COCAR – Fábio Roberto

Livro Estórias das Músicas
COCAR – Fábio Roberto
(a ser gravada)

A primeira vez que fui ao Centro Espírita do Calvário, há quase trinta anos atrás, uma médium descreveu que uma entidade se apresentou como Cacique, dirigiu-se a mim, retirou o cocar da sua cabeça e o colocou na minha.

Nos trabalhos espirituais, os que se mostram como índios visitam para resgate de sofredores os umbrais mais tenebrosos, guerreiros que são. Além disso, vigiam e protegem os centros, seja no plano espiritual ou físico. Talvez aquele Cacique fosse o meu guia. Talvez tenha me passado uma missão. Quem sabe me transmitiu uma mensagem, dizendo o guerreiro que devo ser nesta vida. Ou pode ter sido tudo isso.

Depois desse fato eu persegui o tema por anos até compor Cocar, uma homenagem ao Cacique e também a minha Casa, a Casa do Sarau, a Sagrada Oca, o Lar da Família que constituí nesta vida.

COCAR (2010)
Oca
Longe do oco o seu mundo
Soco em estomago imundo
Olhos dos deuses invoca

Oca
Sagrada toca da tribo
Da natureza o recibo
Força dos ventos convoca

Oca
Deixa essa gente coroca
Cheia de ódio e fofoca
Que em nenhum rio desemboca

Oca não teme desdém
E enfrenta quem rindo a provoca
É apenas inveja de quem
O lar fica numa biboca

O coração desta oca
Pulsa energia do sol
Guia-nos feito farol
Amor e paixão... pororoca



quarta-feira, 11 de outubro de 2017

VIVER E BRINCAR (musicada em1981)

Canção criada antes de ter filhos e netas:

VIVER E BRINCAR (musicada em1981)
Dorme criança
Dorme e sonha
E sorri pras estrelas

Dorme criança
Dorme tranquila
E acorda pra ser sol

Vive criança
Vive e brinca
De viver

Brinca criança brinca
Antes que o tempo te faça crescer
E esquecer
Brinca criança brinca
Faça o tempo pra sempre feliz

Vive criança e brinca
Branda esperança vive
Cresce esperança e vive

Dorme criança e sonha
Dorme esperança
Descansa


Fábio Roberto

Foto: Cecília e Alice em 2010

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

INSÔNIA

Uma parte lutava pra dormir,
a outra insistia em pensar.
Fazendo uma parte se coçar,
a outra adorava oprimir.
Uma parte começou a deprimir,
outra não deixou de lhe espicaçar.
Essa parte só deixou de ameaçar,
quando a outra irritada fez bramir.
E assim noite adentro a esgrimir,
uma parte viu o tempo passar.
Desejando mais um pouco troçar,
a outra ficou a se consumir.
Breu confuso lhes restava exprimir.
Não puderam ou souberam conversar.
Duas vozes: a insônia a engessar
a idéia que nasceu só pra sumir.


Fábio Roberto


sábado, 7 de outubro de 2017

CLAVE DE FÁbio

a sonoridade das minhas unhas rasga o teu corpo inteiro.
a minha boca e dentes estalam na carne do teu pescoço.
a melodia é esta, de selvagem leão, e é o que compor eu posso. 
é este meu desespero que te ofereço, linda, como fiel parceiro.
o meu coração irá parar de percutir nesta pauta partida,
pois em alguma noite eu me permitirei esta sábia decisão.
por enquanto, escute-me paixão, olhos, calor e tesão.
dentro de você eu canto o melhor canto da minha vida.
Fábio Roberto

SAL

Mas quem é esse que tanto falo em romance?
Esse não sou eu, então que eu pare antes que me canse.
Eu sou um poeta maldito que as palavras no papel vomita,
feito comida deteriorada e fria de suja marmita.

A minha poesia é para ser lambida pelos cães sem donos,
aqueles que bebem as águas apodrecidas nas sarjetas,
uivando para receber réstias de luar, como gorjetas
clamadas pelos miseráveis que habitaram tronos.

O que escrevo é uma ferida purulenta que nunca cicatriza.
É um sentimento que invade. Não se doma. Não se exorciza.
Corrói por ser lava que desce fumegante a encosta,
queimando a alma numa dor tão forte e poderosa que se gosta.

Estas são as declarações de amor deste visionário insano.
O sabor da minha boca pode ser amargo, estranho, obsceno.
Nunca será doce, tampouco suave. Eu não existo ameno.
Sou o tempero mergulhado sob as ondas do oceano.

Fábio Roberto