quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A EXPERIÊNCIA

Nos tempos de outrora certamente fui um notório pistoleiro e assassino. Atirava primeiro para perguntar depois. Porque hoje as pessoas de imediato me encantam ou irritam e muito mais me irritam que encantam. Claro que existiram aquelas que me encantaram de imediato e depois me irritaram eternamente. E outras que mesmo tendo recrudescido o encantamento inicial, aí sim, pacientemente, entabulamos um namoro até a paixão se restabelecer. Mas o fato é que meu encantamento e minha irritação inicial dificilmente erraram e erram.
Mas com o passar dos anos, após tantos relacionamentos amorosos ou somente sexuais, filhos, netos, trabalhos, desempregos, mortes, festas, músicas, amizades, inimizades, poesias, alegrias, decepções, idas, vindas e paradas, a sabedoria da velhice está se aproximando e então percebi que não precisava ser como eu era:
bastava atirar e nem perguntar depois!
Fábio Roberto

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Do Livro das Letras - SEM MOTIVO (2008) (canção perdida)

Madrugada assiste o meu cansaço
Vislumbro qual destino em um bocejo
Pergunto a mim mesmo o que desejo
Viver ou adormecer feito um bagaço
Cítrico de suco já espremido
Crítico de sangue já exaurido
Artístico de um palco escarnecido
Artrítico de um corpo envelhecido
Escolho não saber mais quando vivo
Procuro nem saber se adormeço
E fico assim parado sem motivo
Olhando pro infinito até que esqueço

Fábio Roberto

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

DO livro das Letras - Aqui Jaz

AQUI JAZ – Fábio Roberto

Marcha fúnebre criada para os mortos vivos, aqueles seres que foram devorados pela insalubridade dos seus destinos e permanecem perambulando, trabalhando, comendo, respirando e existindo sem presente ou futuro. Apreciava apresentar a canção em momentos festivos e alegres dos eventos, transtornando as mentes, amarelando os risos, deixando o clima sombrio, lúgubre e silencioso. Alguns mortos vivos despertaram e abriram os olhos momentaneamente nessas ocasiões, para depois voltarem ao sepulcro de seus próprios corpos.

AQUI JAZ (musicada em1980)
Um céu escuro,
Raivoso,
Colérico.
Flores mortas pelo caminho
Tétrico,
Tenebroso.
O som está mudo.
Não há choro
Neste funeral resignado.
Nem as moscas se aproximam
Do cadáver de um vivo.


Fábio Roberto


segunda-feira, 31 de julho de 2017

FOTOGRAMA

E naquele momento em que eu estava morrendo não passou um filme na minha cabeça. Nem um curta, nem um longa, nem uma série, ou musical, comédia, drama, aventura. Nem Fim foi escrito nos letreiros frente aos meus olhos. Nada vi. Simplesmente morri no filme tão lindo que nem existiu. Era um romance...

Fábio Roberto

RESUMO

Para mim a vida se resume em música e poesia. Alegrias e tristezas, esperanças e decepções, problemas, soluções. Meus filhos, pais, netas, cães, amigos, a mulher amada. Todos viraram música e poesia. Quem não gosta de mim ou de quem desgosto? Viraram música e poesia. Renascimento? Poesia. Morte? Música. Como é maravilhoso poder entender e resumir algo tão intenso, simples, confuso, apaixonante, denso, suave, sonhável, realístico, etéreo e palpável como a existência passageira e eterna em música e poesia.

Fábio Roberto

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Do Livro dos Destinos - DESTINOS

O poeta escreve o que vive, o que gostaria de viver, o que sente, o
que sentirá, o que vê ou irá ver, o que passou, o que sabe e o que
nunca saberá.

O destino do poeta é buscar as palavras mais bonitas, perfeitas e
simples para reproduzir a emoção de viver e amar.

Hoje, especialmente hoje, só neste instante, neste milésimo de
segundo e nunca mais talvez, não tenho vida para escrever, não
gostaria de viver nada, nada sinto ou sentirei, nada vejo ou verei,
nada passei, nada sei e nada soube.

Um poeta assim é um poeta sem palavras e ironicamente um
poeta sem palavras nem mais poeta é para poder reproduzir a
emoção de viver e amar.

Então encerro agora todos os destinos com o meu, o meu destino
de ser sem destino. E como não tenho destino algum, nem palavras,
calo minha voz e fecho os meus olhos.

Vou me deixar conduzir para onde o vento leva as folhas que
caem das árvores. Irei junto como uma folha de papel em branco.

Quando outro vento qualquer, por um capricho do destino, me
trouxer de volta, serei poeta de novo e trarei palavras vivas em
minha folha de papel.

Destinos...



Fábio Roberto



Do Livro dos Destinos - LÁTEX

A vida é um elástico.

Você pode com ele prender cabelos ou grana, por exemplo.
Pode utilizá-lo como arma que atinja alvos para machucar ou feito
catapulta que faça um aviãozinho de papel voar sonhos de
crianças.

De repente vira uma pulseira se o pintarmos bem colorido.
Ou é apenas um elástico insípido numa caixinha cheia de elásticos,
depositada numa escrivaninha qualquer.

Mas essencialmente continua totalmente flexível.

Parece com os nossos sentimentos em relação ao cotidiano.
Êxtase. Desespero. Alegria exacerbada. Depressão profunda.
Decepção. Esperança.

Tristeza é ser estático. O futuro é dinâmico sempre e pra sempre.
O agora já está passando.

Respirar é tempo imprevisível. Melhor que seja assim.
A vida ser um elástico.

Fábio Roberto

Do Livro dos Destinos - LONGEVIDADE

Se não existir pelo menos um olhar para admirar a paisagem,
tanto faz que seja bela ou disforme.
Será uma paisagem, apenas, uma paisagem qualquer ou nem
mesmo paisagem.

Assim como a minha vida sem você.
Tanto faz que seja lúgubre ou venturosa,
rotineira ou súbita.
Não importa a longevidade.
Será uma vida, apenas, uma vida qualquer
ou nem mesmo vida.

Saudade.


Fábio Roberto

Do Livro dos Destinos - VIDAS

Gatos devoram ratos. Se os gatos têm sete vidas e cada vez
aparecem mais ratos do que gatos é óbvio que os ratos têm catorze
vidas.

Nesse caso, se perguntarem para um condenado à morte por
crimes hediondos se ele é um homem ou um rato, certamente ele

preferirá dizer que é um rato.

Do Livro dos Destinos - IMAGINAÇÃO

Voar era só para os pássaros até o homem
dar asas à imaginação.
Se os pássaros derem imaginação às asas,
os homens os alcançarão?
Fábio Roberto

Do Livro dos Destinos - Árvore

Uma árvore seca, sem folhas, é sombra da sombra que fazia.

Mas a sombra da árvore não é a árvore, não existe sem ela, não tem raízes.

Uma árvore seca continuará sendo uma árvore até morrer, como um homem velho, árvore seca, sombra da sombra, terá sempre a raiz fincada em sua estória de homem.


Fábio Roberto

Do Livro dos Destinos - Bola

Uma bola é assassina para a vidraça.
Para o menino a bola é brincadeira.

Se a brincadeira do menino for chutar a bola na vidraça,
o menino será assassino também.

À vidraça restará esperar a morte e renascer vidro blindado.


Fábio Roberto

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Do Livro dos Destinos - FUSÃO

Um mar, através das suas ondas, viaja pelo planeta até as areias de uma praia. As ondas são a alma desse mar e as areias a alma dessa praia.

As ondas às vezes chegam violentas e cobrem as areias da praia num intenso beijo, ondas, beijo, ondas, beijo, ondas...

As areias, quando isso acontece, calmamente passam a ser o chão do mar e desaparecem para as visões superficiais, mas estão lá, mesmo submersas.

A praia, o mar e suas almas se entendem, se completam, se confundem, para se fundirem num só.

Poucos homens, mulheres e suas almas se compreendem, se respeitam, se amam e se fundem feitos a praia e o mar.



Fábio Roberto 

Do Livro dos Destinos - CATAVENTO

Um catavento sem vento nenhum não tem qualquer sentido.
Um homem sem nenhum amor tem uma vida sem sentido.

Uma leve brisa movimenta o catavento e então ele passa a ter vida e sentido. Um homem ao conhecer o amor sorri e passa a ter uma vida com algum sentido.

Um catavento gira em plenitude quando venta forte. Um homem vive em plenitude quando ama intensamente.

O catavento, quando venta um tornado, voa e gira com ele, mistura-se ao vento e deixa-se levar ao céu. O homem, quando vive uma paixão, descobre porque vive, vive a essência da vida, torna-se a própria vida.


Pena que um homem sem amor e paixão possa com um simples assopro fazer girar o catavento...


Fábio Roberto

terça-feira, 25 de julho de 2017

Do Livro dos Destinos - Pedra

Uma pedra não tem vida, não tem coração.
E corações de pedra, então, também não têm
vida.
Quem atira a primeira pedra não tem nem
coração de pedra, porque atira a pedra e o
coração juntos.
E sem pedra, coração e vida nunca entenderá
o destino ser apenas uma metáfora.

Fábio Roberto