domingo, 5 de julho de 2015

Canção de Cecília e Alice

Crescer
Todo dia crescer
Nascendo
O que ainda vamos ser
O sol
Nos iluminará
A noite
Nos aconchegará

Abraça-nos com um sorriso
o amanhã
Faremos cada adulto
Aprender
Crescendo dia a dia
Como nós
Adultos nada sabem
De nascer

Crescer
Todo dia crescer
Nós duas,
Nossa mãe, nosso pai
Amor,
A poesia do lar
A paz,
Repousando no ar

Faremos gente grande
Compreender
Que o mundo é bem mais simples,
Basta ver
Que os velhos também passam
A depender
De mãos e de cuidados
Pra viver.     
         

Fábio Roberto


segunda-feira, 18 de maio de 2015

24 HORAS

Sempre considerei injusta a divisão dia/noite tão equilibrada. O dia tem o sol nascendo com seu calor e aconchego, a natureza parindo em cada flor que desabrocha, pássaros cantando, a maioria dos trabalhadores se empilhando no transporte público ou seguindo roboticamente solitários em seus automóveis. O padeiro que vai assar os nossos pães, a mãe que leva o filho ao aprendizado escolar, os cães procurando ossos por ofício, os amantes que deixam um motel, o bandido que se esconde em sombras, carroceiros catando nosso lixo, beijos que encontram lábios já de saudade ou lábios que se selam formalmente num até depois. Quando? Quanto?

Mas a noite tem tudo isso e os bêbados vagando, as prostitutas sem prostíbulos ou esquinas fazendo sexo com quem procura amor, o apito do guarda noturno em si bemol, pessoas uivando suas melancolias, bebês chorando serenatas, canções sendo compostas por gênios que nunca terão aplausos, a lua num céu que só poetas enxergam, estrelas que já passaram por ali, corujas procurando ninhos no cimento e passos muito mais consistentes porque o escuro é mistério, medo, dúvida e certeza.

A mulher que eu amo é dia, mas é muito mais noite. É tudo e além. É sempre um querer sem medidas, um relógio que eu queria atrasar para ter um pouco mais de alegria e adiantar para ser eterno prazer.

É injusta a divisão dia/noite tão equilibrada, porque a noite é agora e esperança, o dia é amanhã e realidade.

A gente sonha muito melhor na noite que nunca acaba.


Fábio Roberto

sábado, 16 de maio de 2015

OS OLHOS DA LUA (RAISSA)

Pequena criatura
Os olhos da lua te mostram o caminho
De outra missão
Corrente de água começa outro mar

A vida não esquece
Se em alguém permanece raiz e saudade
Morrer não é morte
Saudade é transporte

Agora tua festa de rabo-sorriso
É de estrela em estrela, passeio bonito
Coleira de nuvens
Tão grande o teu novo lar

Pequena criança ouviu o assobio
O chamado, o pedido desse outro amigo
Pois guarde esse dono (o dono do mundo)
Tal como comigo precisa tua brincadeira

Raízes de um coração
Não batem, só brilham
Não batem, só brilham

Não bate, só brilha


Fábio Roberto




sábado, 9 de maio de 2015

AMAR

Eu penso que amar é para fracos
que se despedaçam em cacos.
Gente que precisa de muleta
pro coração
não ficar jogado na sarjeta
da emoção.
Gente que se vê sem par
e logo corre pro bar
para afogar mágoas,
onde garrafas viram taboas
de náufragos num mar
de solidão.
Abandonam até o lar
na imensidão
de uma tristeza tão dolorida,
maior do que cabe na vida.

É por isso que sou forte
e não amo. Amor é morte.
Vou ao bar beber sem agonia.
Não importa se estou só,
pois mais dia menos dia
todos viraremos pó.
Resistirei, então, eterna e bravamente
a este sentimento
vagabundo, podre e insolente
que me ataca neste momento,
tirando dos meus olhos a cor:
a vontade de amar-te desesperadamente,
como se condenado fosse ao amor.
O que me mataria certamente,
como um inseto mata uma flor.

Devorando-a inteira e lentamente.

fÁBIO rOBERTO(2008) 

quinta-feira, 30 de abril de 2015

TEU TEMPO

Pra que correr se és o tempo e tão menina
e para ti o dia chega como brisa,
acarinhando teus cabelos na esquina
da vida, cena que a paisagem frisa

em nossos olhos ansiosos e anciãos.
A nós o tempo já não mais espera.
Já passou, escorregando pelas mãos.
Morrer tranquilo e feliz, ai quem me dera...


Fábio Roberto

segunda-feira, 30 de março de 2015

O OLHAR

Quem irá entender as minhas palavras sem que passe pela cabeça que eu sou uma atitude vaga e penso sempre antes do momento existir?

Não tenho tempo para explicar o tempo do meu desgaste.

Não sou um bom amigo para beber cervejas sem falar bobagens próprias ou filosofar sobre uma frase de Thoreau.

Não sou um bom amante se não devorar a alma de quem amo e me entregar às mãos dessa amada como se ela fosse Deus.

Plantei filhos e para eles não transmiti mentiras sociais, para que pudessem colher da arte o alimento supremo na realização plena de suas vidas.

Eu sou um descasamento, sou certamente um errante. Um materializador de sonhos. Um destruidor de sonhos. Um pesadelo que fez sorrir.

Não sou um compositor de jingles, mas poderia colocar uma pimenta no seu doce de coco e vendê-lo como pipoca.

Tenho medo de dor de dente, tenho medo de dor no dedo, tenho medo de cebola.

Não tenho medo da morte, mas não a aceito agora, sem antes encontrar com o meu destino cara a cara com a faca na boca, a caneta na mão e um papel em branco para mostrar a ele que a poesia não precisa assistir ao por do sol ou a uma luta.
Ou será que um cego não pode ser poeta?

Mas não seria a morte encontrar-se finalmente com o destino?

Eu sei de tudo o que vivi ontem.
O meu ontem foi muito mais do que todas as vidas de muita gente.

Nossa, como sou arrogante!
E agora estou calmo demais.

O futuro está nos meus olhos.
O futuro está nos teus olhos.

Resta saber para onde iremos olhar.


Fábio Roberto


domingo, 29 de março de 2015

EXEMPLO

Eu sou um exemplo de homem.
Um de uma intensa mulher e só.
Os outros vulgarmente as comem,
maltratam suas peles sem dó.
Usam, abusam e somem.
Quando nasce o dia o amor vira pó.

De homem sou um modelo nobre e raro.
Um que sempre ampara a sua dama.
Os outros não deixam nada claro.
Só as querem levar para uma cama.
Dizimam-lhes o prazer como acaro.
Corações nem no eletrocardiograma.

Já eu sou incomparável como amante.
Satisfaço plenamente a minha Deusa.
Os outros querem os dotes de Bacante,
servem-nas como vinho e adorno à mesa.
Depois, em gesto ingrato e ultrajante,
oferecem-lhes a solidão como surpresa.

Eu e apenas eu sou desigual.
A minha mulher é um sorriso eternamente.
As outras, sem paixão tão surreal,
no rosto uma tristeza transparente,
no corpo uma doença terminal
e a dor de uma alma evanescente.


Fábio Roberto

domingo, 8 de março de 2015

Dia da Mulher

Uma mulher é realmente importante pra você quando ela não faz falta. Faz pênalti!

Faroberto

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

EXERCÍCIO DA GUERRA

Rajadas de metralhadoras são expelidas por consideradas bocas santas. As más línguas, com seus ditados impopulares, espalham a notícia. O Alfabeto traído, encurralado no beco escuro da ignorância, foi assassinado sem dó nem piedade. A escrita e a fala não mais existem. O analfa matador de aluguel grunhe um som ininteligível de vitória. Ao mesmo tempo, perto dali, nasce a Mímica.

Fábio Roberto


terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

BEIJO

Vou guardar pra sempre na memória da minha alma até os momentos que não vivi ou viverei com você.

Não cabe em mim o tamanho de um sorriso.
Tenho boca curta, dentes cansados, língua silenciosa, garganta espremida.

Queria expressar ao mundo o sentimento explosivo de compartilhar um amor tão calmo e selvagem.
Queria gritar nossos sons, declamar nossas palavras derramadas do copo caído.
Beberia cada gota espalhada no chão pisado e sujo.
Deitaria no sereno, recebendo-o em meu corpo seco como se fosse o último gole do teu beijo.

O vento gelado da madrugada não consegue apagar o meu fogo, consumir a minha fome ou saciar a minha sede.
Os sonhos que são nossos sobrevoam os passos que ando.
A realidade em que acordo é um tempo que ninguém pode entender, nem mesmo eu.

Não sei quando vou sentir a dor de não te ver no espelho dos olhos,
mas vou guardar pra sempre na memória da minha alma o que vivi com você.



Fábio Roberto

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

OUTRO DIA


CHOVE LÁ FORA, É NOITE.
PESSOAS ESTÃO TRISTES,
OUTRAS FELIZES.
UMAS NASCEM,
OUTRAS MORREM,
OUTRAS NADA.

CHOVE LÁ FORA,
COMO É BOM.
ÁGUA, LÁGRIMA,
ESTRELA E SORRISO
SE MISTURAM,
BRILHAM TÃO IGUAIS,
INOCENTES.

E A LUA NÃO SENTE A DOR
DAQUELE QUE NÃO PARTIU.
A LUA NEM SENTE A DOR TERMINAR.

NÃO TEM CULPA DO DIA NASCER
OUTRA VEZ.



 Fábio Roberto
(Poema musicado em 1992)

terça-feira, 25 de novembro de 2014

FIEL

Sou mais fiel do que o alcoólatra a pinga e muito mais do que o cão ao dono.
Do que o mar a praia, do que as estrelas ao céu, do que a mata a chuva, do que os chinelos aos pés, de tudo isso sou extremamente mais fiel.
Nem se compara a minha fidelidade com a do lençol a cama, da tomada ao plug, da gasolina ao carro, do travesseiro a cabeça.
As fidelidades do sangue a veia, da saliva a boca, do rato ao queijo, da lavra ao vulcão também não chegam perto.
Eu sou fiel além do que um filho ao pai, do que o dinheiro a carteira, do que um rio ao leito, do que a notícia ao jornal, do que os óculos aos olhos.
E mais ainda do que a folha a árvore, a terra ao chão, a vingança ao ódio, a lágrima a tristeza, a palavra ao poeta, a fome ao seio, a vontade a ação, o fogo ao carvão, a bunda ao sofá, a fé a certeza, o fanático ao time, a esperança ao futuro, o covarde ao medo, o amor ao coração, a voz a garganta,  a honestidade ao princípio, o trigo ao pão, a lua a noite, o poeta a madrugada, o anel ao dedo, a paisagem ao retrato, o frio ao inverno, os dentes ao riso, a vida a morte, o telhado a casa e, finalmente, absurdamente mais fiel do que a crase ao a.

Para que eu não seja fiel é preciso que o vento traia ao ar, a paixão ao sentimento, o etcétera ao incompleto, as reticências ao eterno.

E do que o alcoólatra a pinga, o cão ao dono...



Fábio Roberto

sábado, 19 de julho de 2014

AQUI

O que será de nós


nesta terra devastada
natureza morta, pedra dura
alma triste, fria, escura
visão turva, aleijada
trovador sem voz?

O que será de nós agora

sem futuro ou esperança
bicho errante, carcaça
ruína, poeira, desgraça
valsa que ninguém dança
dor que a mente devora?

O que será de nós agora que chegamos

superando prece e morte
vida, destino e tempo
carregados pelo vento
à procura de melhor sorte
utopias, sorrisos, reclamos?

O que será de nós agora que chegamos aqui?



Fábio Roberto

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O Motor

Movimenta-se lento o êmbolo
Visão turva, a imagem embola
Pele carcomida que se esfola
Fraco, cansado, trêmulo

O sangue entope a máquina
Resultando em um coágulo
Paralisando o veículo
Prostrado sobre uma isnáquia

Deslizar é passado
Foram-se cilindros e anéis
Desligaram-se painéis

Nada a ser lubrificado
Não pode ser ressuscitado
Que rezem por ele os fiéis

Fábio Roberto
Para a IV Mostra Artística Temática da Turma Braba

Tema “Êmbolo”

O Feto

Não sei por que aconteceu isso comigo. De repente uma corrida desenfreada de espermatozoides onde eu tive que bater em um, em outro, em milhões, sem imaginar que acertar o alvo era apenas uma grande sacanagem. Então sem que eu esperasse estava germinando dentro de um corpo desconhecido, estranho e descuidado. A dona desse corpo não se preocupava comigo. Não me alimentava direito, se intoxicava com drogas baratas e ainda ficava sacolejando em bailes funks. Ouvir dez vezes “levanta a bundinha”e “abre as perninhas”, feto algum merece né mermão? E eu, espremido naquela barriga cada vez mais gorda e ao mesmo tempo apertada, tinha que disputar espaço com gases fétidos porque a dona do corpo só comia merda. Eu rezava para ela soltar um peido para eu me espalhar um pouco mais naquele espaço nauseabundo. Durava apenas segundos, pois logo tudo se contraía novamente. O cordão umbilical que me irrigava só trazia veneno e sofrimento.

Subitamente discussão, briga, barulho. Quem é o pai sua filha da puta, vagabunda, safada? - perguntou uma voz grave e violenta. Vai se ferrar seu corno, banana, trouxa - respondeu a voz esganiçada do corpo que eu habitava. Uma pancada forte me fez sacolejar dentro daquele receptáculo desprotegido e em seguida mais porradas, bordoadas, chutes. Facadas.
Fiquei tonto e cego quando uma hemorragia interna no corpo da besta que aconteceria minha mãe quase me afogou. Sirene de polícia, gritos, tiros. Sirene de ambulância, maca, correria. Uma agulha enorme com anestesia desfaleceu a anta anti-maternal, mas não me fez efeito algum. Apesar da intensa dor a minha alma machucada estava totalmente consciente. A ponto de eu ouvir gente falando... “vamos ter que abortar”. Demorou um tempo para eu saber que era a mim que se referiam. Descobri mesmo, assim que alguns instrumentos me dilaceraram rompendo carne e espírito, cortando finalmente os tênues laços que me ligavam a este mundo podre.

Que sorte. Pra mim, nascer seria um equívoco.

Fábio Roberto

Para a IV Mostra Artística Temática da Turma Braba
Tema: Equívoco


sexta-feira, 6 de setembro de 2013

O Poeta Da Solidão

O poeta é uma multidão num só.
Janela não existe pra quem viu
o amor sem resposta virar pó,
como o mais lindo dia que existiu.

O poeta é multidão e solitário.
Cachorro que o dono morreu.
Garrafas vazias no armário.
Memórias do que nem aconteceu.

O poeta é um caminho sem retorno.
Multidão o habita, intensos sentimentos.
Criança que ainda nem saiu do forno.
Futuro enrugado e seus tormentos.

O poeta é multidão e mais queria.
Não lhe basta esse destino infinito.
Só a paixão da mulher que o amaria,
lendo um poema só na alma escrito.

Fábio Roberto

Insônia

Uma parte lutava pra dormir,
a outra insistia em pensar.
Fazendo uma parte se coçar,
a outra adorava oprimir.

Uma parte começou a deprimir,
outra não deixou de lhe espicaçar.
Essa parte só deixou de ameaçar,
quando a outra irritada fez bramir.

E assim noite adentro a esgrimir,
uma parte viu o tempo passar.
Desejando mais um pouco troçar,
a outra ficou a se consumir.

Breu confuso lhes restava exprimir.
Não puderam ou souberam conversar.
Duas vozes: a insônia a engessar
a ideia que nasceu só pra sumir.


Fábio Roberto

Circo

Um palhaço abandona o picadeiro,
cansado de sorrir pra sua desgraça.
Não mais vão lhe dizer “que isso passa”.
Uma festa onde não há mais brigadeiro.

Enterrem os seus sonhos, os aplausos.
Quem sabe em solo árido paz renasça.
Quem sabe se assim tristeza faça
a sua mente esquecer todos os causos.

Devorada a solidão pelo silêncio,
que a maquiagem borra em um frêmito.  
Lágrimas afogam a ponte pênsil

dos olhos. Só se escuta o gêmito.
O canto do universo soa tênsil,
quando a mão acena adeus em gesto rítmico.


Fábio Roberto

Tsunami

Quem é que tem o sono se o mundo gira
E gira sem parar até em hora imprópria?
Até o corpo acorda, se levanta e pira
Após a digestão inefável de mais uma obra

Quem é que tem o sono se a vida espreita
E espreita curiosa pela hora próxima?
Até se você dorme de pijama e a peita
Após excrementar o sonho que oxida

Quem é que tem o sono se a morte ronda
E ronda serelepe a hora em que aproxima?
E se aproxima e foge e morre como onda
Após que o tsunami afogue a obra-prima


Fábio Roberto

Eldorado

A rede balança o pensamento
oscilante de um lado pra outro lado.
Mas o mesmo e intacto sentimento
permanece em nós um eldorado.

Pergunta-se quão forte pode ser
um amor que não precisa jura ou prova.
Basta existir, saber, viver e ter.
Grão genuíno a cada dia se renova.

Delicado como o sopro de uma brisa.
Intenso como chuva benfazeja
que nos rega, limpa, acalma e batiza.

E assim, com a permissão da natureza,
nossa paixão o tempo vasto imortaliza,
admirado do tamanho da proeza.


Fábio Roberto

O Estertor da Poesia

Não sei por que eu teimo e escrevo
Talvez da poesia eu seja escravo
Juntar algumas sílabas me atrevo
Dedicando à lida um desagravo

O sentimento surge, logo cravo
Nem sei de onde vem, só o transcrevo
Se for suave dramatizo e agravo
Se for maldito e bravo só descrevo

Se me acabam as rimas, modifico
Pena que não é assim com a vida
Penso que estou, nem fui nem fico
Alma vagueando numa ermida

Ah palavra, agora eu te hiberno
Presa, ficarás em minha cabeça
Queimaremos juntos neste inferno
Até que a consciência desfaleça


Fábio Roberto

quinta-feira, 4 de abril de 2013

SONATA


Soa o tempo retumbante allegro.
Respira a vida sóis e consequências
do que fui. Sorrio largo e desintegro
o futuro, minhas imprudências...

Soa o tempo vagaroso adágio.
Respira a vida, melancólica.
O vento forte traz outro presságio
A árvore que verga, simbólica.

Esta parte apresenta um minueto.
Dançando as folhas soltas dão o sinal.
Levanta-se, prepara-se o quarteto,

não segue partitura ou libreto.
Como um destino, chega ao final,
a minha sonata em forma de soneto.

Fábio Roberto


segunda-feira, 2 de abril de 2012

SÉRIE POEMAS

Sem Perspectivas

Sem pressa, fardo ou tormento
Poça de cal, sentimento,
Fecha os olhos e entrega a chave
Prisioneira ave

Nu de palavras e medos
Pobre de sóis e segredos
Nem adormeça teu pesadelo
Solidão e gelo

Teus passos não sobram rastro
Um horizonte sem lastro
Siga o destino, vida canalha,
Hora da mortalha

Fábio Roberto

segunda-feira, 19 de março de 2012

SÉRIE MÚSICAS

CALIDOSCÓPIO
HAVIA UMA PROMESSA
ARQUITETANDO O ESPAÇO
REESCREVENDO A PEÇA
ACOMPANHANDO O PASSO
EU O ANDEI SEM PRESSA
REDESENHANDO O TRAÇO
O FIM QUE NÃO COMEÇA
AUMENTA O MEU CANSAÇO
O FRIO ME ATRAVESSA
O NÓ APERTA O LAÇO
QUERIA SAIR DESSA
SENTINDO O SEU ABRAÇO
REESCREVENDO A PEÇA
O NÓ APERTA O LAÇO
O FIM QUE NÃO COMEÇA
REDESENHANDO O TRAÇO
O FRIO ME ATRAVESSA
AUMENTA O MEU CANSAÇO
QUERIA SAIR DESSA
ACOMPANHANDO O PASSO
EU O ANDEI SEM PRESSA
SENTINDO O SEU ABRAÇO
HAVIA UMA PROMESSA
ARQUITETANDO O ESPAÇO
REESCREVENDO A PEÇA
ACOMPANHANDO O PASSO
EU O ANDEI SEM PRESSA
REDESENHANDO O TRAÇO
O FIM QUE NÃO COMEÇA
AUMENTA O MEU CANSAÇO
O FRIO ME ATRAVESSA
O NÓ APERTA O LAÇO
QUERIA SAIR DESSA
SENTINDO O SEU ABRAÇO
REESCREVENDO A PEÇA
O NÓ APERTA O LAÇO
O FIM QUE NÃO COMEÇA
REDESENHANDO O TRAÇO
O FRIO ME ATRAVESSA
AUMENTA O MEU CANSAÇO
QUERIA SAIR DESSA
ACOMPANHANDO O PASSO
EU O ANDEI SEM PRESSA
SENTINDO O SEU ABRAÇO
HAVIA UMA PROMESSA
ARQUITETANDO O ESPAÇO...
(Fábio Roberto - musicada em 2007)
                              

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

SÉRIE MÚSICAS

CHOVEU


Nada Pra dizer. Nada pra Sentir.
E eu não sei onde se esconde a madrugada
quando vem a luz.
Se é no meu coração cansado,
ou se em meu violão calado.

Nada pra dizer. Nada pra sentir.
E eu não sei onde se esconde a vida
que eu quero viver.
Se é no meu sonho fracassado,
ou se em meu violão calado.

Nada pra dizer. Nada pra sentir.
E eu não sei onde se esconde esse Deus
quando me vê assim.
Se é no meu corpo machucado,
ou se em meu violão calado.

Nada pra dizer. Nada pra sentir.
E eu não sei pra onde estão olhando
os olhos verdes daquela mulher.
Se para um momento do passado,
ou se ao meu violão calado.

Nada pra dizer. Nada pra sentir.
E eu não sei como me tragar à terra,
feito semente qualquer crescer,
transformar-me no verde dos olhos,
verdes olhos daquela mulher, olhar...

Fábio Roberto
(musicado por Titi Trujillo em 1982)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

SÉRIE TEXTOS

O ANO NOVO


O Ano Novo resolveu não nascer. De soslaio perscrutou o ambiente e resolveu continuar no casulo. Não gostou de nada do que viu. Pensou, que adianta chegar e tudo ser igual ou pior? Para que novamente tantas falsas promessas ou esperanças que seriam frustradas? Que ficasse tudo como estava, o Ano Velho se perpetuando coberto de insensatez, injustiças e maldades. Quem sabe a realidade se tornando tão cruelmente perene, pudesse em algum momento a vida sorver com a língua suas lágrimas.

E assim, decidido e irredutível, o Ano Novo fechou os olhos e adormeceu na manhã do último dia do Ano Velho. Este, ancião em frangalhos e com a alma carcomida pela dor, desesperou-se e gritou implorando descanso aos céus. Os Senhores do Tempo, subitamente surpreendidos pela inusitada ação do Ano Novo, convocaram uma reunião com todos os Anos Antigos, que estavam muito mais antigos, pois desde que o mundo se tornara mundo um se somava ao outro sem recesso, portanto o ano I era o Pai de Todos. O Pai de Todos os anos falou aos Senhores do Tempo que aquilo era inadmissível, um absurdo, uma afronta. Como aquele rebento que nem saíra ainda das entranhas da mãe eternidade se rebelava contra a lógica da existência? Exigiu uma providência enérgica falando em nome de todos os Anos Antigos e principalmente pelo Ano Velho atual, que tremia em espasmos desesperados, numa espécie de Parkinson aflorado pelo medo. Mas o que os Senhores do Tempo poderiam fazer? Não havia como obrigar o Ano Novo acordar se ele não quisesse. A situação foi piorando e ficando catastrófica, pois no planeta os preparativos para as festas da virada do ano prosseguiam despreocupadamente, até que o Ano Velho avisou que exatamente à meia-noite também adormeceria para o horizonte.

E assim aconteceu. Sob os olhos estupefatos dos Senhores do Tempo e defronte aos boquiabertos Anos Antigos, o Ano Velho deitou-se em nuvens ao lado do Ano Novo, apagando-se rapidamente. Silenciosos e num sono profundo, ambos passaram a sonhar o mesmo sonho: um tempo que merecesse ter continuidade. Ninguém ainda percebeu que desde aquele dia o ano não muda, não vai pra frente nem retorna. E os dois ainda estão lá, sonhando. Quem sabe desta vez, quem sabe desta vez o Ano Novo acorde...

(fábio roberto- dez2009)

terça-feira, 22 de novembro de 2011

SÉRIE MÚSICAS


IMAGINAR

Última noite que canto
Onde muito me ouviu
Onde sereno ou intranqüilo
Aprender aprendi

Sonoridade a verdade da minha emoção
Silenciosas paredes, olhares, ações

Se as paredes têm ouvidos
Souberam escutar
Mudas, pois assim quiseram,
Saberão calar

E os sons que nós fizemos
Por elas vão estar
Por tudo o que pudemos viver,
Imaginar,
Dizer,
Imaginar,
Morrer,
Imaginar,

Cantar.


Fábio Roberto
(Musicado por Titi Trujillo em 1985)