sábado, 15 de outubro de 2016

EVOLUÇÃO

No fundo do poço existe outro poço e outro fundo do poço onde existe outro poço e outro fundo do poço.
E assim,
Sucessivamente.

Lenta,
Muito
L  e  n  t  a  m  e  n  t  e,
Nessa jornada ao inverso da vida haverá o revés do passo, pois que a vida não tem fim.

E será assim,
Sucessivamente,
Até que não existam poço e fundo do poço onde existam outro poço e outro fundo do poço e outro poço,

Que só restará a opção de subir.


Fábio Roberto

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

SEDE

Pode a palavra apagar
Pode o canto emudecer
Mesmo se o dia dormir
Sem que haja anoitecer

Pode parar de brilhar
Uma estrela a morrer
Um rio não mais navegar
E a saudade esquecer

Nossa história

Eu lembro como se fosse agora
Cravei as mãos nas tuas costas
Deixando dor/prazer marcados
No corpo que era a minha cama

Gemidos congelaram as horas
Os gritos excitaram as velas
O fogo mordendo os lençóis
Deu Sede que bebi teus lábios

Fábio Roberto
Escrito e musicado em 2011




terça-feira, 23 de agosto de 2016

TUMBA

Cansado desta poesia maldita que dilacera as palavras,
o coração e transcende à alma.
Não há como criar novas canções.
Os temas se repetiram, repetiram, repetiram
na constante perversa de uma vida e sua incógnita.
Pois, sim, existe vida após a morte.
Mas não sei o que existe antes.
Seria tudo um pensamento ou um espasmo,
 um flash, o último piscar dos olhos do tempo?

Sem resposta as musas, também cansadas desta poesia maldita
que dilacera as palavras, as canções, o coração e transcende à alma,
recolheram-se ao interior das suas asas que nunca mais abrirão.

E assim resta apenas o silêncio cinza e austero de uma tumba confortável e bela,
onde dormirá eternamente toda e qualquer inspiração.



Fábio Roberto

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Rumos e Rimas:

o poeta vive em agonia. Semelhante a um médium vê a vida, pode amá-la, mas não pode alterar os seus rumos. Depois que a poesia nasce o poeta não pode nem mesmo mudar as suas rimas.


Fábio Roberto 

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Cemitério de Leões

A selva não mais me alimenta.
Nem a carne, nem o espírito.
O rio secou água da lenda.
Caíram árvore, sombra e mito.

Rugido não mais ecoa forte.
A caçada terminou em armadilha
Uma feroz espera pela morte.
A sílaba que faltou na redondilha.

Assim, façam a festa abutre e hiena.
Meus ossos vão voltar à natureza,
como se fossem a dor de uma gangrena
que devorou a alma da tristeza.


Fábio Roberto


sábado, 26 de março de 2016

BILHETE ÚNICO

Certas pessoas não passam pela nossa vida
Certas pessoas passam pela nossa vida
Certas pessoas não passam vida
Certas não pessoas passam
Certas pessoas não passam
Incertas pessoas
Incertas vidas
Certas vidas
Passam



Fábio Roberto

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

PEDINTE

Solitária régua sem compasso,
incapaz de desenhar a curva.
Rio morto aguardando chuva.
A marcha que perdeu o passo.

Palavras numa boca muda.
Estória nunca terminada.
Terra livre, fértil e não lavrada.
Mãos ágeis que o vazio saúda

Coração novo e enferrujado.
A vida ausente de esperança.
Um mundo frio e inabitado

e mesmo assim na esquina dança,
memória de céu estrelado:
carrega o olhar de uma criança.


Fábio Roberto

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Poema de Ano Novo

Ter esperança é lindo
e simultâneo ínfimo
quando o futuro findo
quando desespero íntimo

Ter esperança de novo
roda da vida roda
quando o futuro é corvo
quando o presente é foda

O que se sabe hoje
nunca se soube agora
vomito tudo fora

entranha que me foge
sorriso de outrora
mundo que me enoje



Fábio Roberto

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Pedidos de Natal de...

criança pobre: banquete
baterista: baquetas
tarado: boquete

guloso: muito peru
goleiro: nenhum peru
peru: nenhum natal

humilde: votos de boas festas
padre: votos de castidade
político: votos

pobre: saúde
remediado: trabalho
rico: grana

homem: uma mulher
mulher: um homem
bi: os dois

crianças: presente
saudosos: passado
velhos: futuro


papai noel: renascer super herói da marvel 


Fábio Roberto

domingo, 18 de outubro de 2015

Ciclo Número Dois

Vozes emudecidas
Violões sem cordas
Cordas sem pescoço

O cérebro amortecido após tecido o sonho
Após ter sido o sonho um sonho

Um vazio
Um imenso, profundo e solene vazio
O silêncio escuta o grito
O delírio queima no ar

Copos e corpos inertes
Mortos a respirar
O brilho
Derradeiro suspiro
O futuro da morte:
o início

Fábio Roberto
(Musicada em 1987)

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

TRADIÇÃO

Não chore a cerveja derramada.
Saiba, ela vai pro Santo.
Espírito que espreita em todo canto,
com a boca sedenta escancarada.

Coitado, o paraíso não tem cerva.
Bebe-se só néctar dos deuses,
ao som de líricas berceuses
e ele preferindo uma erva...

Por que foi ser honesto, sem pecado?
Agora, bar em bar caminha errante,
sóbrio, consciente, inconsolável.

Passo sem futuro, flutuante.
Prazer eternamente insaciável,
olho de zumbi, arregalado.


Fábio Roberto

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Sorriso

Viver é doloroso
Por isso o poeta sofre
Nasceu audacioso
Sua sorte jaz num cofre

Viver é doloroso
Por isso o poeta canta
Faz-se de corajoso
E das tumbas se levanta

Viver é doloroso
Por isso o poeta escreve
Um texto pecaminoso
Até isso ele se atreve

Viver é doloroso
Por isso o poeta ama
Cada dia milagroso
Ao lado da sua Dama

Viver é doloroso
Por isso o poeta cansa
E num gesto majestoso
Despede-se numa dança

Mas ele vai sorrindo
Quase inda esperançoso
Por isso o poeta findo
Viver é doloroso



Fábio Roberto

domingo, 5 de julho de 2015

Canção de Cecília e Alice

Crescer
Todo dia crescer
Nascendo
O que ainda vamos ser
O sol
Nos iluminará
A noite
Nos aconchegará

Abraça-nos com um sorriso
o amanhã
Faremos cada adulto
Aprender
Crescendo dia a dia
Como nós
Adultos nada sabem
De nascer

Crescer
Todo dia crescer
Nós duas,
Nossa mãe, nosso pai
Amor,
A poesia do lar
A paz,
Repousando no ar

Faremos gente grande
Compreender
Que o mundo é bem mais simples,
Basta ver
Que os velhos também passam
A depender
De mãos e de cuidados
Pra viver.     
         

Fábio Roberto


segunda-feira, 18 de maio de 2015

24 HORAS

Sempre considerei injusta a divisão dia/noite tão equilibrada. O dia tem o sol nascendo com seu calor e aconchego, a natureza parindo em cada flor que desabrocha, pássaros cantando, a maioria dos trabalhadores se empilhando no transporte público ou seguindo roboticamente solitários em seus automóveis. O padeiro que vai assar os nossos pães, a mãe que leva o filho ao aprendizado escolar, os cães procurando ossos por ofício, os amantes que deixam um motel, o bandido que se esconde em sombras, carroceiros catando nosso lixo, beijos que encontram lábios já de saudade ou lábios que se selam formalmente num até depois. Quando? Quanto?

Mas a noite tem tudo isso e os bêbados vagando, as prostitutas sem prostíbulos ou esquinas fazendo sexo com quem procura amor, o apito do guarda noturno em si bemol, pessoas uivando suas melancolias, bebês chorando serenatas, canções sendo compostas por gênios que nunca terão aplausos, a lua num céu que só poetas enxergam, estrelas que já passaram por ali, corujas procurando ninhos no cimento e passos muito mais consistentes porque o escuro é mistério, medo, dúvida e certeza.

A mulher que eu amo é dia, mas é muito mais noite. É tudo e além. É sempre um querer sem medidas, um relógio que eu queria atrasar para ter um pouco mais de alegria e adiantar para ser eterno prazer.

É injusta a divisão dia/noite tão equilibrada, porque a noite é agora e esperança, o dia é amanhã e realidade.

A gente sonha muito melhor na noite que nunca acaba.


Fábio Roberto

sábado, 16 de maio de 2015

OS OLHOS DA LUA (RAISSA)

Pequena criatura
Os olhos da lua te mostram o caminho
De outra missão
Corrente de água começa outro mar

A vida não esquece
Se em alguém permanece raiz e saudade
Morrer não é morte
Saudade é transporte

Agora tua festa de rabo-sorriso
É de estrela em estrela, passeio bonito
Coleira de nuvens
Tão grande o teu novo lar

Pequena criança ouviu o assobio
O chamado, o pedido desse outro amigo
Pois guarde esse dono (o dono do mundo)
Tal como comigo precisa tua brincadeira

Raízes de um coração
Não batem, só brilham
Não batem, só brilham

Não bate, só brilha


Fábio Roberto




sábado, 9 de maio de 2015

AMAR

Eu penso que amar é para fracos
que se despedaçam em cacos.
Gente que precisa de muleta
pro coração
não ficar jogado na sarjeta
da emoção.
Gente que se vê sem par
e logo corre pro bar
para afogar mágoas,
onde garrafas viram taboas
de náufragos num mar
de solidão.
Abandonam até o lar
na imensidão
de uma tristeza tão dolorida,
maior do que cabe na vida.

É por isso que sou forte
e não amo. Amor é morte.
Vou ao bar beber sem agonia.
Não importa se estou só,
pois mais dia menos dia
todos viraremos pó.
Resistirei, então, eterna e bravamente
a este sentimento
vagabundo, podre e insolente
que me ataca neste momento,
tirando dos meus olhos a cor:
a vontade de amar-te desesperadamente,
como se condenado fosse ao amor.
O que me mataria certamente,
como um inseto mata uma flor.

Devorando-a inteira e lentamente.

fÁBIO rOBERTO(2008) 

quinta-feira, 30 de abril de 2015

TEU TEMPO

Pra que correr se és o tempo e tão menina
e para ti o dia chega como brisa,
acarinhando teus cabelos na esquina
da vida, cena que a paisagem frisa

em nossos olhos ansiosos e anciãos.
A nós o tempo já não mais espera.
Já passou, escorregando pelas mãos.
Morrer tranquilo e feliz, ai quem me dera...


Fábio Roberto

segunda-feira, 30 de março de 2015

O OLHAR

Quem irá entender as minhas palavras sem que passe pela cabeça que eu sou uma atitude vaga e penso sempre antes do momento existir?

Não tenho tempo para explicar o tempo do meu desgaste.

Não sou um bom amigo para beber cervejas sem falar bobagens próprias ou filosofar sobre uma frase de Thoreau.

Não sou um bom amante se não devorar a alma de quem amo e me entregar às mãos dessa amada como se ela fosse Deus.

Plantei filhos e para eles não transmiti mentiras sociais, para que pudessem colher da arte o alimento supremo na realização plena de suas vidas.

Eu sou um descasamento, sou certamente um errante. Um materializador de sonhos. Um destruidor de sonhos. Um pesadelo que fez sorrir.

Não sou um compositor de jingles, mas poderia colocar uma pimenta no seu doce de coco e vendê-lo como pipoca.

Tenho medo de dor de dente, tenho medo de dor no dedo, tenho medo de cebola.

Não tenho medo da morte, mas não a aceito agora, sem antes encontrar com o meu destino cara a cara com a faca na boca, a caneta na mão e um papel em branco para mostrar a ele que a poesia não precisa assistir ao por do sol ou a uma luta.
Ou será que um cego não pode ser poeta?

Mas não seria a morte encontrar-se finalmente com o destino?

Eu sei de tudo o que vivi ontem.
O meu ontem foi muito mais do que todas as vidas de muita gente.

Nossa, como sou arrogante!
E agora estou calmo demais.

O futuro está nos meus olhos.
O futuro está nos teus olhos.

Resta saber para onde iremos olhar.


Fábio Roberto


domingo, 29 de março de 2015

EXEMPLO

Eu sou um exemplo de homem.
Um de uma intensa mulher e só.
Os outros vulgarmente as comem,
maltratam suas peles sem dó.
Usam, abusam e somem.
Quando nasce o dia o amor vira pó.

De homem sou um modelo nobre e raro.
Um que sempre ampara a sua dama.
Os outros não deixam nada claro.
Só as querem levar para uma cama.
Dizimam-lhes o prazer como acaro.
Corações nem no eletrocardiograma.

Já eu sou incomparável como amante.
Satisfaço plenamente a minha Deusa.
Os outros querem os dotes de Bacante,
servem-nas como vinho e adorno à mesa.
Depois, em gesto ingrato e ultrajante,
oferecem-lhes a solidão como surpresa.

Eu e apenas eu sou desigual.
A minha mulher é um sorriso eternamente.
As outras, sem paixão tão surreal,
no rosto uma tristeza transparente,
no corpo uma doença terminal
e a dor de uma alma evanescente.


Fábio Roberto

domingo, 8 de março de 2015

Dia da Mulher

Uma mulher é realmente importante pra você quando ela não faz falta. Faz pênalti!

Faroberto