sábado, 6 de julho de 2019

SORRISO


O meu sorriso sempre é puro desafio.
Um fio desencapado que provoca choque.
O escroque disfarçado em roupa de um santo.

Um tanto gigantesco que resulta em nada.
É espada afiada que provoca luta.
A puta de esquina que te cobra caro.
O faro apurado que ofende o perfume.
O lume de esperança que simplesmente apaga.
E afaga o desejo de morrer lá fora.
E agora, sem demora, assim bem de repente.
Aquilo que se sente ao ver na paisagem.
A imagem do espelho partindo meu sorriso.

Fábio Roberto


quinta-feira, 13 de junho de 2019

DESTINOS VII

Se não existir pelo menos um olhar para admirar a paisagem,
tanto faz que seja bela ou disforme.
Será uma paisagem, apenas, uma paisagem qualquer
ou nem mesmo paisagem.
Assim como a minha vida sem você.
Tanto faz que seja lúgubre ou venturosa,
rotineira ou súbita.
Não importa a longevidade.
Será uma vida, apenas, uma vida qualquer
ou nem mesmo vida.
Saudade.
Fábio Roberto
Do Livro dos Destinos


quarta-feira, 5 de junho de 2019

BUMERANGUE

Eu não falo de morte, se o teu amor eu canto.
Eu me visto de lorde, eu me faço de santo.
Acabo voando sem norte e a dor é um manto,
Se o teu desprezo me morde. Na solidão eu decanto.

Eu não falo de sangue, se o teu amor existe.
Sou herói de bangue-bangue, eu jamais fico triste.
Mas o sorriso é exangue naquele segundo que hesites,
Se a paixão bumerangue sempre volta e desiste.

Sim, eu falo de vida se o teu amor for eterno.
A minha alegria atrevida, o sentimento que esterno.
Mas a palavra duvida e todas as rimas eu hiberno,
Pra não acabar o poema representando o inferno.

Fábio Roberto

quarta-feira, 15 de maio de 2019

A MORTE

Chega uma idade provecta em que nada mais cura, nada cola, nada conserta, nada melhora. Seja o dente dolorido, a costela trincada, o músculo rompido, o pulmão comprometido que não para de tossir a poluição da vida. Os olhos vão se apagando das paisagens e a disfunção erétil acaba superando o desejo, cedo ou tarde, apesar de lunetas ou comprimidos. O coração partido está partido pra sempre, não há mais retorno, pois a amada de alguma forma morreu. A alma vai se deslocando pouco a pouco no corpo que habita e não se ajusta mais, causando desconforto até se desligar dele totalmente.
Só o cérebro, mesmo o mais demenciado pela senilidade, permanece perfeito. Porque se é lúcido passeia pelo tempo através das memórias, apreciando o sabor da saudade e das alegrias vividas e se aborrecendo com as dores da experiência. Se já foi acometido pelo esquecimento, também viaja pelo eterno, e mais livre ainda, sem medos, aproveitando a confusão mental para criar ou reescrever a sua história conforme queira.
A morte acontece quando nem a história se lembra de nós.
Fábio Roberto

quinta-feira, 11 de abril de 2019

BEIJO DA MADRUGADA

Por que tu me beijaste eu não sei.
Será por que tu me notaste triste?
Será por que o meu coração ouviste
descompassado, amargo, fora da lei?
Não sustentei olhar teus olhos refulgentes,
sorrindo pro meu rosto de indigente.
Só admirei os teus bailados deslumbrantes,
a desfilar-me paixão louca e vibrante.
Por que tu me beijaste, madrugada,
se cedo tu fugias pro teu dono
e o dia preparava outra cilada?
Restou-me a luz pungente do abandono,
minha poesia estéril ou calada,
se a lua adormeceu eterno sono.
Fábio Roberto

quarta-feira, 10 de abril de 2019

O INVÁLIDO


O meu joelho de súbito torceu
contra mim, o safado, infelizmente.
Ficou roxo, inchou, muito doeu,
mas era menos do que uma dor de dente...
Ignorei, dei-lhe uma baita de um gelo.
Ele gostou, fingindo-me estar bem.
O choque arrepiou o meu cabelo,
quando levantei e caí como um neném.
Como esta sede alcançaria a geladeira?
E a ansiedade sem andar de lá pra cá?
Eu me arrastei, sem rodinhas na cadeira,
Só uma cerveja poderia me “salvá”.
Bebi de um gole, pra ficar amortecido,
grudado ao chão parecendo lagartixa.
Fui muito macho, dei um pulo emputecido,
voltei ao chão e gemi feito uma bicha.
Eu me acalmei ao acender uma fumaça
atrás da outra, só restava mais um maço.
Tem horas que realmente a vida embaça,
feito o ibope quando só apresenta traço.
Depois de horas de meditação profunda,
iluminei-me, descobri que a dor não existe.
Ainda bem que foi joelho e não a bunda,
senão a estória ficaria bem mais triste.
Fábio Roberto

quinta-feira, 28 de março de 2019

FUMAÇA

Foi o tempo de fumar um último cigarro,
lentamente retirado do derradeiro maço.
O isqueiro falhou, mas não o teu charme.
Eu vou me dissolvendo, feito de barro.
Eu vou me desbastando, pelo cansaço,
mas teus olhos inda estão a chamar-me.
Você traga profundamente, eu viro fumaça
misturada com o ar e o vento a dissipa.
Meus restos descansam displicentes no cinzeiro.
Meio cigarro queimando o minuto que passa
e a minha boca o teu beijo antecipa.
O beijo que me tornaria vivo e fidalgueiro.
E súbito nos toma mais que doída saudade:
teus olhos pedem pra ficar dizendo adeus
e eu não impeço esta tua decisiva tragada.
Ah... como eu queria ter o tempo da tua idade,
desde sempre e para sempre aos olhos teus.
A solidão jaz no cinzeiro, apagada...

Fábio Roberto

quinta-feira, 14 de março de 2019

ENTARDECER

Um céu incrivelmente lindo nesta cidade. 
Paira sobre pessoas que não o merecem. 
Talvez seja um lindo céu de tempestade.
Quem sabe seja o que meus olhos querem de paisagem.
Pode ser em meus olhos, apenas.
Ou orações que vejo, sinto, ouço: novenas.

Fábio Roberto

quarta-feira, 6 de março de 2019

BADEN CANÇÃO


O teu coração para antes do meu.
Eu fico aqui não. Também já me deu.

Mundo está doente, salve-nos loucura.
Toda essa gente nem poesia cura.

O teu coração penso que ele é o meu.
Calo a canção se ele não bateu.

E no dia a dia, olhos de saudade,
brindes,  melodias, sagrada amizade.

O teu coração para antes do meu.
Eu fico aqui não. Também já me deu.

Tanto faz o plano, vida é utopia.
Tempo nos abrace. Sinto a tua alegria..

O teu coração penso que ele é o meu.
Calo a canção se ele não bateu.


Fábio Roberto
22-2-19


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

TRECHOS


1
Este silêncio profundo antes do dia se preparar pra nascer, revela que a vida está num sono letárgico provocado pelo medo do minuto seguinte. Os pássaros, engaiolados neles mesmos, se recusam a cantar para um tempo triste e sem esperança. Só um bebê ousa gemer baixinho o desespero. A fome é capaz de tudo...
2
Mas a noite estendeu a escuridão além da hora. Por que abrir os olhos para a imensidão do nada? Assim o corpo permanece inerte e sem vontade. O fluxo de pensamentos se depara com o cérebro vazio. O mesmo vácuo que impera nele é o do mundo lá de fora...
3
Insatisfeito o coração diminui perigosamente o seu ritmo até finalmente cessar qualquer movimento. A solidão e a frieza da morte rondam a cena. O apito estridente de aparelhos rompe o marasmo, deixando o ar pesado e tenso enquanto ocorre o parto do espírito. Agora sim o medo atinge o nível máximo e faz arregalar os olhos que tentam antecipar o que virá...
4
É assustador saber o que virá, mas muito mais devastador não saber. A imaginação, com insuportável pavor, faz suar em bicas. Os olhos lacrimejantes perscrutam os pontos mais distantes da paisagem. A espera é angustiante. A ansiedade vai corroendo a alma, que se sente queimar no fogo do inferno de todas as culpas e incertezas...
5
O silêncio é cada vez mais opressivo. A ausência de pensamentos fluindo provoca uma dor aguda e permanente. E nada, absolutamente nada se move além dos olhos que se movimentam freneticamente de um lado para o outro. Gotas de suor caem do rosto encharcando o chão empoeirado...
6
Que lugar será este? Quando ele será? Tudo se resumirá nessa dor constante e na dúvida de existir ou não? Ah esse sofrimento de não haver pensamento fluindo e lembrar-se da lua, da lua brilhando no céu, da lua brilhando no céu de um universo tão vasto e ao mesmo tempo tão pequeno, pois os olhos com suas visões curtas só alcançam a linha do horizonte. De que adianta ter asas e nem conseguir rastejar? Resta a ansiedade tenebrosa da eterna espera pelo que virá.

Fábio Roberto
 

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

O Bicho

tanto faz qual o passo
o caminho é árduo.
o sorriso não é espelho dos meus olhos nem os olhos refletem a minha dor. mas se descanso, ardo.
as vozes estimulam ora a ir ora a voltar.
e quando chego, tardo.
o que enfrento é improviso. sendo constante, não mais me surpreende.
então eu me carrego, fardo.
lanço sentimentos em escritos e sons.
nesse momento, sou um dardo.
até que a inspiração recusa-me a benção.
filho bastardo.
faço-me incômoda luz de consciência. o dia sempre escurece.
misturo-me nas sombras, pardo.
na beira do perigo preparo o salto.
o impulso de viver retardo.
antes de decidir mostro as garras e as presas ao predador.
fuga ou batalha. leopardo.

Fábio Roberto




quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

UM ÚNICO OLHAR

Tão distante de qualquer distância
Foi talvez aqui
O olhar procurou os olhos
Tão distante de qualquer presença
Foi talvez encontro
Tão distante de qualquer palavra
Foi talvez mensagem
Tão distante de qualquer certeza
Foi talvez resposta
Tão distante de qualquer metade
Foi talvez inteiro
Tão distante de qualquer espaço
Foi talvez paisagem
Tão distante de qualquer qualquer
Foi talvez sorriso
O olhar procurou os olhos
Tão distante de qualquer momento
Foi talvez agora
Talvez meu olhar e talvez teus olhos

Fábio Roberto

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

FIM

Este é o primeiro do ano
Tem jeito de ser antigo
Se pedir eu o declamo
Até mesmo empertigo
A roupa do esqueleto
Com voz firme e empostada
Canto tema obsoleto
E a palavra desgastada
O anacronismo do verso
Ou atemporalidade
O diletante universo
Que mora numa verdade
Tudo pra dizer que ainda
Te amo como amava ontem
A paixão já na berlinda
Os olhos que se aprontem
Pra despejarem o sorriso
Quando então lacrimejarem
Na paisagem que friso
Estórias que terminarem.

Fábio Roberto


sábado, 5 de janeiro de 2019

SORRISO

Que sorriso é esse?
Tem cara de lua
e jeito de sol.
A voz de uma deusa.
Olhar de oceano.
Infinito lugar.
É mais que sorriso
de mãe, de mulher,
de avó, de artista.
Transcende o tempo.
É o abraço apertado
de um reencontro
com alguém que se ama.
É o sorriso que nasce
antes do sentimento,
porque sempre existiu.
Pelo fato de ser
o que sempre será.

Fábio Roberto
para Márcia Salomon


ESCALADA

Cala a boca
Cala a burca
Cala a beca
Cala a barca
Cala a bica
Cala o bolso
Cala o bico
Calabouço
Cala a broca
Cala o breque
Cala a bronca
Cala o beque
Cala o brinco
Cala a bruxa
Cala o branco
Cala a brecha
Cala a bela
Cala a besta
Cala a bola
Cala a bosta
Cala o brusco
Cala a brisa
Cala a busca
Calabresa
Cala o banco
Cala o brother
Cala a banca
Calabar
Cala o beiço
Cala a bossa
Cala à beça
Cala a buça...
Fábio Roberto

SEDIÇÃO

Tenho sede desde cedo
E logo cedo a te beijar
Seduzido eu me excedo
Que me sedo a marejar
Mas a sede nunca cede
Eu me concedo desejar
Outro beijo que ensede
A sede de te versejar
Fábio Roberto


domingo, 9 de dezembro de 2018

A BELEZA

Viver é solitário
Uma festa com estranhos
Pesadelo hereditário
Um desejo tacanho
A fé de um otário
Um sorriso de estanho
É certeira punhalada
Traiçoeira madrasta
Uma casa abandonada
Revelação que devasta
Vacilo numa emboscada
A palavra que afasta
É o total desespero
O mesmo de um aborto
Momento de destempero
Passo sóbrio, mas torto
Uma dor em exagero
A ilusão de um morto
É uma pura heresia
O corpo que feriste
Marasmo, maresia
Saudade que persiste
Na alma e na poesia:
Um canto belo e triste
Fábio Roberto

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

A CANÇÃO TRISTE

Um coração amargurado tem os seus motivos.
A inspiração que fugiu. 
As mãos que se despediram do tempo.
A chuva que molhou o rosto
e se misturou com as lágrimas de uma dor lancinante,
como a de ver uma criança sofrer.
Não recrimine um coração amargurado, nem os seus motivos.
Pode ser mágoa por amor perdido.
A lua que se escondeu dos olhos pra sempre.
O vento que levou um balão para o céu desconhecido.
O sonho de toda uma vida que se dissolveu
subitamente, como castelo de areia na beira do mar.
Nunca duvide dos motivos de um coração amargurado.
E se for um violão velho e quebrado,
sem melodia, palavra ou voz?
Um pressentimento terrível de partida.
Desespero e tristeza maiores do que as de cão abandonado.
Ou simplesmente o alívio que só a morte traz

Fábio Roberto

MUNDO