quinta-feira, 7 de maio de 2020

VELHICE




Envelhecer é esvaziar-se inteiro.
É o emagrecer da alma.
Raiz desprendida da terra.
O desespero da calma.
Uma saudade que berra.
História em fuga do roteiro.

Envelhecer é o final da vela
E as rugas no rosto sombrio.
A palavra que encerra livros.
É o leito seco de um rio
O ocaso do deus Eros.
A tinta que borrou a tela.

Envelhecer é doença de infância.
Uma dor que não tem cura.
É passar muitas vontades.
A noite quieta e escura.
É perder as vaidades.
A sirene de uma ambulância.

Envelhecer é apagar o farol.
Violão de corda quebrada.
O tremor da mão que acena.
Assistir a morte da amada.
E é saber que valeu a pena
Viver cada nascer do sol.

Fábio Roberto


MULTIDÃO


ROTINA


quarta-feira, 6 de maio de 2020

PASSEIO


POSFÁCIO


















(Dedicado a Flavio Migliaccio e a todos os artistas que fizeram e fazem deste mundo um lugar mais suportável de estar)

sexta-feira, 17 de abril de 2020

FIM DE QUARENTENA

Eu não posso abraçar a tua causa,
Meu abraço agora está proibido.
Guardo desejo e a enorme libido.
Nosso filme em estado de pausa.

Não adianta insistir no convite,
Dançando bela e desnuda na live.
Feche os olhos, garota, just drive,
Em sonho para além do limite.

Mas tua voz sensual no whatsapp
Foi um canto, doce e rouco gemido.
Um poema de amor pervertido,
Que acabou com o meu jogo esse zape.

Que se dane a tal da pandemia,
Pra fantasia já vou mascarado,
Revelando só o olhar de tarado:
 Se eu morrer, morrerei na boemia.


Fábio Roberto


quarta-feira, 1 de abril de 2020

HUMANIDADE

Hoje até o sol é solitário
e reluta em acender os seus raios.
A coragem está guardada no armário.
Só há vida em tubos de ensaios.

Os olhos no microscópio
vêem tanta gente minúscula.
Sentimentos em calidoscópio
refletindo a alma ridícula.
O planeta aproveita e se regenera,
saboreando o prazer da sua cura.
Sofre e morre a rainha, a besta-fera
humanidade. E leva a sua loucura.

Fábio Roberto

ELA

Teus olhos me dão esperança
De um tempo melhor e duradouro.
Eu te convido para uma dança,
Com a alegria sincera de um calouro
Começando outro curso na vida,
Esquecendo no passado a ferida
Que agora não dói, nem importa.
Nossa música é forte e sensível,
Ouvi-la até nas nuvens é possível,
Enquanto o vento vai soprando
Brisa de paixão. Fica o céu nos admirando,
Como se fôssemos estrela e astro
Ou cometas deixando luzes de rastro:
alegria que só o infinito comporta.

Fábio Roberto

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

A MULHER DO BAR

Quem é essa mulher que me diz... quanto tempo!
Sorrindo me estende a mão, com jeito que existe história.
Mas onde teria ido com ela a minha memória?
Será que eu a conheço do bar, da rua, do templo?
Sentou perto querendo prosa, talvez até um meu verso.
Mas não me motiva conversa o aroma que ela exala.
Será que ela fora musa ou dama na minha ala?
Hoje o meu pensamento está turvo, submerso.
Um amigo acompanha a cena e não entende este roteiro.
É que compreendo da vida a sua eterna ambigüidade,
Encontrando no silêncio alento e cumplicidade.
Na hora em que eu canto é com voz de forasteiro.
Não sei quem é a mulher ou quais são seus sentimentos.
Não recordo se eu já toquei meus lábios em sua pele.
Quem sabe num outro dia em seu corpo me encastele
Inteiro, não assim como agora estou: fragmentos.
Fábio Roberto

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

VÍRGULAS

Uma sensação de impotência
mãos vazias
grãos de areia que delas escaparam
deixando tudo áspero

pele
sentimento
paisagem

Queria acelerar os passos
mudar a história
enquadrar o destino

mas não coloquei uma vírgula no texto

Talvez por preferir a vida sem pausas
rupturas nas orações
separações em cada frase escrita
onde cada sentença uma cabeça

Queria sentenças sem dúvidas ou inflexões
que direcionassem ou ajudassem
a interpretação e o canto da minha poesia

Seria como não piscar os olhos
vendo o futuro
vivendo apenas

assim sem retorno parada ou vírgulas

Fábio Roberto


quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

O CORCEL

No Natal não houve presente
Pra miséria de tanta criança.
Confesso, eu tinha esperança
De um Noel menos indolente.

Qual o quê... Continuou canalha
Estimulando só o consumismo.
Jamais pensou em comunismo
Ou no pobre em uma mortalha.
Mas não podemos culpá-lo,
Ele é mera fantasia.
Os homens é que dão azia,
Vivendo sob anestesia.
Mas eu é que não me calo:
Sou o coice de um cavalo,
Com força e descortesia.
E como navalha, que esta poesia
Penetre as mentes até o talo.

Fábio Roberto

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

OVERDOSE

Tenho essa coisa compulsiva, exagerada, passional, dramática
Transbordante, imoderada, desmedida e leonina
É muita fome, é muita sede, é muita raiva e muito tesão
Ou quanta doçura, quase frescura, também fissura e destemperança
Auge do vício, além de amor ou depressão que supera o poço
Melancolia que vira alegria e é insuperável, é insuportável
Ora distância e desprezo ou tão presença que rasgou a alma
O sangue jorra e nem me incomoda, a dor transforma-se em cicatriz
Canto e aviso, mas surpreendo porque não sou o dono do meu tempo
Nem sei o quando, cheguei tão cedo que a ansiedade levou-te embora
Você está certa, ninguém precisa viver esse tanto em cada segundo
Talvez eu morra uma eternidade, mas caso eu acorde estarei sorrindo
Fábio Roberto