quinta-feira, 22 de setembro de 2011

SÉRIE POEMAS

ADVERSOS

Escreve numa porta de banheiro
O poeta, versos pra sua amada
Sim, pois o poeta é por inteiro
Mesmo com seu riso na privada

Escreve o poeta em cemitério
Versos tão festivos pra sua amada
Ele não teria o rosto sério
Mesmo se a paixão fosse enterrada

Escreve o poeta em uma cova
Sim, são versos pra sua amada
Cabelos do esqueleto ele escova
Feliz, mesmo já sendo alma penada

Escreve pra sua amada até no inferno
Versos com a palavra amaldiçoada
Pra alguns soa romântico e pós-moderno
Mas os nenhuns recebem como bofetada

Segue o poeta rindo ao paraíso
Vendo o amor em face bela e iluminada
Tantos versos feitos de improviso
Só importavam mesmo a sua amada!

Fábio Roberto

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

SÉRIE POEMAS

CELEIRO
Pouco de mim resta-me inteiro.
Colo-me aos pedaços de minhas sobras.
Sem gabaritos, linhas, elos, dobras,
reconstruo-me com esmero de engenheiro.

Em cada parte no revés do chão jazia,
mas fui-me recolhendo da poeira.
Faxinei-me até toda a sujeira
da frustração, sobrar-se íntima e vazia.

Nada mais existo além de vida.
Meus olhos os que fitam-me primeiro,
diamantes garimpados na jazida,

aprovam-me no espelho do meu rosto.
Minh’alma recupera-me em seu posto.
Retorno-me discreto ao meu celeiro.

                       Fábio Roberto

terça-feira, 20 de setembro de 2011

SÉRIE POEMAS

MIJO E PAIXÃO

Houve o tempo de belo regozijo
Quando então aproveitamos o ensejo
De executarmos um humilde mijo
Reconfortante, denso e benfazejo

Ah, o mijo quente que nos abandona
Deixando o frio veículo em mãos
Um pênis murcho que perdeu a dona
Do liquido filtrado pelos rins irmãos

Mas existe festa onde houver bexiga
Aliviada de excretos eliminados
Tal qual uma criança com lombriga

De estômago e olhos saciados
Privada ungida pela urina amiga
Descarga de uréteres apaixonados

                    Fábio Roberto

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

SÉRIE MÚSICAS


METADE


SE NÃO POSSO ESTAR NUM LUGAR,
PELA MÚSICA EU ESTOU LÁ
PELA VONTADE DE ESTAR,
PELA SAUDADE.

SE NÃO POSSO FICAR NO LUGAR
PELA MÚSICA EU FICO LÁ.
PELA REALIDADE DE ESTAR
PELA METADE.

 Fábio Roberto
   (Musicado em 1981)

                                 

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

SÉRIE POEMAS


C asa


e eu pensando em nós dois numa casa

e eu pensando em nós dois

numa casa

pensando

nós dois

casa

nós

nó

2                                                        asas

nó

nós

casa

nós dois

pensando

numa casa

e nós pensando em nós dois

e nós pensando em nós dois numa casa

                                                 Fábio Roberto

sábado, 16 de julho de 2011

SÉRIE POEMAS

AMAR

Eu penso que amar é para fracos
que se despedaçam em cacos.
Gente que precisa de muleta
pro coração
não ficar jogado na sarjeta
da emoção.
Gente que se vê sem par
e logo corre pro bar
para afogar mágoas,
onde garrafas viram táboas
de náufragos num mar
de solidão.
Abandonam até o lar
na imensidão
de uma tristeza tão dolorida,
maior do que cabe na vida.

É por isso que sou forte
e não amo. Amor é morte.
Vou ao bar beber sem agonia.
Não importa se estou só,
pois mais dia menos dia
todos viraremos pó.
Resistirei, então, eterna e bravamente
a este sentimento
vagabundo, podre e insolente
que me ataca neste momento,
tirando dos meu olhos a cor:

a vontade de amar-te desesperadamente,
como se condenado fosse ao amor.
O que me mataria certamente,
como um inseto mata uma flor.

Devorando-a inteira e lentamente.

Fábio Roberto

quarta-feira, 13 de julho de 2011

SÉRIE MÚSICAS

CÉU E INFERNO

O amor quando céu o amor busca ser.
O amor busca o seu prazer,
Viver.

Mas o amor, quando não, quando nem mais talvez,
É o inferno de não ser mais,
Morrer.

E não olha pra trás, pois tem medo da dor.
Ou tem medo até de não sentir a dor
E de não esquecer
Tal amor que, finito,
Durou só o tempo de ser
Tão bonito...
  
   Fábio Roberto
(musicado em 2007)

terça-feira, 5 de julho de 2011

SÉRIE POEMAS

OLHA MARILI

Olha menina, eu bem te queria
Fazer  uma presa da fotografia
Paisagem rebelde, se esconde,  se mexe,
Fugindo da cena,  das luzes do flash

Mas  não te entendo,  inteira beleza
Refletes no espelho, a  vida em pureza
Saiba menina,  o sonho te espera
Para a primavera vestir teu olhar

Meiga e selvagem, humilde e ousada
Pulsando energia sã, delicada
Arde menina, eu te vejo nua
Como fosses lua beijando a maré

Não tens moldura, retrato fugindo
Deixando alegria, brilhando, se abrindo
E vais declamando poemas assim
Como fosses rio que nunca tem fim

Sobrevoando palavras, menina,
O tempo é um dia que não terminou
Foge menina, teu sonho te espera
Não há uma quimera onde se perder

Anda Menina, pois eu só teria
A minha poesia pra te oferecer
Corra Menina, da minha agonia
Da fotografia que quer te prender...

Fábio Roberto - para Marili Gabriel

SÉRIE TEXTOS

CARTA DE DESPEDIDA

Decidi virar um ermitão. Amanhã irei embora para longe, sem passado. Não tenho grana para deixar. Rasguei todos os meu documentos, cartões de todos os tipos. O violão também fica. Que o pegue quem quiser. As minhas pastas de músicas, os cadernos de poesias, contos e palavras soltas ficarão na gaveta, junto com cds, fotos, filmes e todas as lembranças de quem não sou mais. Os computadores e seus arquivos não me sobram importância. Os bancos que busquem os carros, pois para onde vou só chego com meus pés. Estou muito aliviado em me transformar finalmente num ser arredio e solitário. Prefiro estar a margem desta sociedade cansativa e rotineira. Que bom deixar o cabelo crescer até os ombros, nunca mais colocar um sapato. Não precisar falar bom dia, boa noite, boa tarde, como vai, e aí, tudo bem, quanto tempo, te amo, te quebro, que raiva, que alegria, que merda, que delicia, me liga, quanto custa, quanto falta, que horas são... Que maravilhoso será o silêncio da minha mente ausente de sonhos, desejos, vontades, frustrações, arrependimentos, orgulhos, realizações. Mais nenhuma oração será preciso, darei descanso eterno a Deus. Uma existência sem celular, tv, rádio, notícias, emails, pessoas, bondade ou maldade. A minha boca não sentirá mais os sabores amargos das bebidas que fizeram tão mais doce a realidade que terminou. Deixarei livre todas as pessoas que amo, porque amar de verdade talvez seja assim. Amar e partir. Amanhã, quando subirem as cortinas dos meus olhos, seguirei esse destino derradeiro. Será impossível me seguir porque estarei escalando uma montanha que só eu vejo. E lá na minha caverna, bem no topo, admirando o horizonte do mundo a luz de uma fogueira aconchegante e sentindo o abraço da escura noite, aquela maldita e única lágrima secará em meu rosto. Vou fechar os olhos respirando o cheiro de mato trazido pelo vento e sorrir. Vou voltar a sorrir por estar novamente tão perto e tão longe da vida.

Fábio Roberto

segunda-feira, 4 de julho de 2011

SÉRIE TEXTOS

VIDA

Era uma vez um poeta. Por ser poeta era um sonhador. Por ser sonhador, dele a vida escarnecia, abusava, chegava a judiar. Nem era um tão brilhante poeta, mas vivia tão como poeta que rimava seus passos. Via imagens em preto em branco e as descrevia coloridas, porque as coloridas ficavam lindas romanceadas em preto e branco. Sonorizava batidas de coração com melodias ora suaves ora agressivas. Quando abria os olhos podia ser visto até a primeira geração de suas existências pregressas. Ninguém entendia, nem ele, a confusão de tantas certezas e a resposta habitava em sua alma e nas cicatrizes do seu corpo. Transparente e etéreo que era, o amor o atravessava. Não conseguia reter o amor. Procurava o amor como o olfato ao aroma, ou carbono e água a luz. Mas o resultado da sua fotossíntese era sempre solidão. Assumindo a marginalidade da sua poesia maldita, desistiu de amar. Entretanto, insistentemente continuou a preencher linhas e linhas, palavrando de sentimentos e emoções os passageiros personagens do seu filme. Um dia esse poeta incansável cansou de ser poeta, despertou de todos os sonhos, acendeu a realidade, embaralhou suas rimas, silenciou o coração e desconfundiu-se apagando todas as linhas preenchidas, relendo apenas as cicatrizes d’alma e corpo. Finalmente a luz transformara carbono e água em oxigênio e o olfato encontrara o aroma desse último alento. O poeta sorriu antes do apagar derradeiro de olhos, porque a vida não teria mais a quem desamar e ninguém, absolutamente ninguém havia amado a vida assim intensa, profunda, verdadeira e poeticamente como ele.

Fábio Roberto

domingo, 26 de junho de 2011

SÉRIE FRASES

Solidão mesmo é ter saudade de ter saudade.

Fábio Roberto

segunda-feira, 20 de junho de 2011

SÉRIE POEMAS

Rotina na Retina

A rotina não persegue a minha retina.
Faça o que eu faça igual todo dia, noite ou madrugada.

Quero a mesma mulher que amo.
O mesmo abraço dessa mulher é cada dia melhor.
Por ser mais forte é sempre diferente.
A paixão é cada vez mais e muito além quanto eu mergulho.

Quero sempre o mesmo bar que desesperadamente bebo.
Quero nele o mesmo copo, mesa, garçom, lugar.
Nada ali se repete em minha mente
A paisagem sempre muda frente aos meus olhos.

Quero os mesmos amigos de sempre,
de mesmo velhos papos que já escutei,
porque os ouço como se fora a primeira vez.
E os papo que ainda não soube serão impressionantes, já sei.

Quero o meu mesmo trabalho seja ele qual seja
e em qual momento e em qual escritório.
A mesma cadeira, o mesmo telefone e batalha.
O mesmo computador de teclado apagado digitando novas conquistas.

Quero o mesmo violão que toco há 40 anos, só trocando cordas.
Quero as minhas mesmas palavras, que as embaralho de outra forma.
Quero as minhas mesmas notas e melodias, que faço outro som.
Eu tenho tanto ainda para criar do mesmo sentimento...

Quero a mesma família em todas as vidas.
O mesmo pai, a mesma mãe, a deles sabedoria.
O mesmo filho, a mesma filha, o mesmo deles orgulho.
A mesma esposa, a mesma estória, começo e fim sempre inesperados.

Mesmo semelhantemente o meu cotidiano é sempre diferente.
Semelhante mente, a minha está repleta de aventuras.
A minha retina está muito louca pra enxergar uma rotina,
pra ter um pouco de paz e um sono pouco, só um pouco tranquilo.

Mas a rotina não persegue a minha retina
Faça o que eu faça igual todo dia, noite ou madrugada...

Fábio Roberto

quarta-feira, 23 de março de 2011

SÉRIE MÚSICAS

A REALIDADE


SOU UM HOMEM , SOU NADA
TEMPORAL QUE DESTRÓI
ORVALHO DA MADRUGADA

SOU PRISÃO E PÁSSARO QUE VOA
CONSCIENTE DO FUTURO
PASSEANDO À TOA

SOU VENTO E O TEMPO PARADO
A PALAVRA QUE CORTA
SILÊNCIO ABENÇOADO

O PARAÍSO, A PORTA DO INFERNO
SEMENTE NA TERRA
A PAZ QUE SOBROU DA GUERRA

ESPERANÇA E TUMULTO
DESESPERO DA CRIANÇA
ÊXTASE DO ADULTO

SOU PERIGO
E O BRAÇO DO AMIGO
A PONTA DA AGULHA,  FAGULHA

MEMÓRIA
OU FIM DA HISTÓRIA
SOU ISSO , SOU AQUILO

SOU, NA VERDADE,
APENAS UMA MENTIRA,
OU A REALIDADE QUE A VERDADE ATIRA

Fábio Roberto - musicado em 1995

domingo, 20 de março de 2011

SÉRIE POEMAS

NA MADRUGADA

neste instante só consigo escrever escrever escrever escrever. o violão me olha. para ele isso é um replay. faz tststststststs............ sorri em solmaior.
tão claro que fecho os olhos. respiro. dou um gole em algo que está no copo.
é forte. parei de fumar há anos, mas dou uma profunda tragada na fumaça que ainda corre dentro de mim. tusso muito.
bate o coração bate... bate...
s u a v e m e n t e.
e pára. silêncio. o violão de novo... tststststststs.... os cães latem indignados. abro os olhos. o coração volta de seu cansaço. bate..... bate..... e vai ritmando. cadencia. bate
l o u c a m e n t e


mas acalma repentinamente porque
o som de uma corda rompendo toma o ambiente.


nem mais tststststs sai do violão.
nem sorriso em solmaior.
nem olhar.
nem claridade.


o silêncio se assusta porque nada escuta. pego o violão e faço....... tstststststs....


e toco assim mesmo.... faltando uma corda.


Fábio Roberto

segunda-feira, 14 de março de 2011

SÉRIE POEMAS

BRANCO

dos olhos
do tecido
da nuvem
do sal
da parede
da neve
do carro
do leite
do cão
da pele
do acúcar
da flor
da tinta
da tela
da bandeira
da pomba
do lençol
da fumaça
da vela
da areia
do gozo
do urso
da farinha
da luz
do papel.

Branco
me deu
na cabeça.


Fábio Roberto


SÉRIE TEXTOS

AMOR À PRIMEIRA VISTA


Resolvi conhecê-la amanhã.
A minha namorada, uma mulher especial.
E eu vou me apaixonar por ela instantaneamente.
Em minutos escreverei três livros de poemas
a ela dedicados. Irei compor, em menos de meia hora, 
uma centena de músicas inspiradas por essa musa. 
Ela, com seu jeito ora tímido ora maroto, conquistará meu coração
com tanta força que a pedirei em casamento
amanhã mesmo. Com um sorriso resplandecente,
amanhã ela dirá sim. Amanhã nos enlaçaremos
e vamos nos amar tão intensamente que geraremos
nossos filhos, que ainda amanhã crescerão belos
e saudáveis. Nós seremos eternamente companheiros
amanhã. Envelheceremos juntos vivendo esse dia de
forma violentamente verdadeira. O tempo não terá
para nós nenhum sentido. Não nos fará falta, nem
nos sobrará. Só nos importará o dia de amanhã.
Não anos atrás, que nem existiram. Não ontem,
quando não existimos realmente porque nosso amor
não existia. Renasceremos amanhã com o nosso amor.
Sem pressa. Sem passado. Sem futuro. Um amanhã
que nunca acabará e deixará o depois de amanhã
sem ter o que fazer, estático, num perpétuo aguardar
sem nem poder admirar o nosso amor que nunca terá
acontecido ontem ou antes de ontem. Por ter nascido e vivido 
dessa forma impossível, invejada, platônica, onírica, romântica,
perfeita, loucamente apaixonada, utópica, lírica, mágica,
totalmente e somente amanhã.

Fábio Roberto

quinta-feira, 3 de março de 2011

SÉRIE FRASES

EPITÁFIOS:

de Rico: O futuro... adeus, pertences! 
de Sovina: Deus me pague! 
de Ateu: Há...Deus? 
de Pobre: Lápide retirada por inadimplência 
de gay: Já deu o que tinha que dar
de devedor: Devo, não nego, vem aqui me cobrar
de modelo: Meu esqueleto veste um terno Giorgio Armani
de fumante: Estou na área reservada para fumantes
de atleta: Batendo meu recorde sem respirar!
de bombeiro: Cheguei tarde. Só restaram cinzas....
de pescador: Tantas minhocas, mas cadê a vara?
de ansioso: Já foi tarde
de incrédulo: Isto não está acontecendo
de otimista: Passei desta para melhor

FR

SÉRIE FRASES

O carteiro não queria sê-lo.

FR

SÉRIE MÚSICAS

NÓS DE PESCADOR

Eu te dei o meu amor
Pois faça dele o que bem quiser
Não me importa o coração
Que não bata junto ao meu
Emoldure, jogue aos cães
Pode empilhar junto dos demais
Dê um nó de pescador
Pra saudade não soltar
Vou-me embora tarde vou já deu a hora do adeus

Prenda os olhos num varal
Pro sol secar tuas lágrimas
Deixe o vento recolher
Dos teus lábios a paixão
Na ausência de nós dois
A nossa história é de emocionar
Deixe o vento carregar
Pra bem longe todo amor
Vai-te embora cedo esteja deu a hora do adeus

 Música: Fábio Roberto/Letra: Leandro Henrique e Fábio Roberto
Gravada por Márcia Salomon no CD Anjo Malandro de Leandro Henrique
Pode ser ouvida no: http://clubecaiubi.ning.com/profile/FabioRobertoRibeiroSilva 

quarta-feira, 2 de março de 2011

SÉRIE CRÔNICAS

A ESTÓRIA DO CACHIMBO CONTINUA

Mesmo com minha santa ingenuidade fiquei levemente desconfiado. O rebento Leandro chegou bem no momento em que eu acendia o vigésimo quinto free longo da noite e foi logo sugerindo para eu largar o cigarro e fumar o cachimbo da primeira estória. Declinei, as agruras pregressas estavam frescas na minha mente e não houvera ainda a oportunidade de compartilhar o aprendizado com o capitão da nau desbravadora de oceanos desconhecidos. O travesso insistiu. Não havia necessidade de tal experiência, comentou. Disse ele que eu era um típico cachimbeiro, um fumista nato dessa chupeta aspiradora de vapor oriundo de extratos vegetais. Diante de tamanha confiança em mim depositada, assenti. Segui o ritual de colocar o tabaco irlandez no devido compartimento conforme as regras vigentes, peguei o isqueiro, incendiei a borda do aparelho fumador, traguei fortemente e tossi como uma vaca. Se vocês leram o texto anterior não preciso explicar como as vacas tossem e eu tossi muito, porque para fazer a combustão se espalhar pelas folhas solanáceas, há que se puxar com veemência, acarretando a emanação para os pulmões. Notei um leve sorriso de satisfação irônica na face leandrina, mas insisti e obviamente a vergonha e a raiva me enrubesceram. Após as várias insensatas tentativas que realizei, já não mais tossindo como uma vaca, mas em plena convulsão, o maroto pediu-me candidamente para tentar o pito, não sem antes me apelidar de boca de neve. Impressionante. Ele pitou e a fumaça saiu calma e decidida do recipiente, o traquinas puxava e expulsava de si a névoa tabagenta como se fora, ele sim, um destemido marinheiro. Claro que fiquei tentando imitá-lo, mas o máximo que me aproximei da façanha foi igualar-me a um náufrago em bote à deriva. Fumamos, quer dizer, ele fumou e eu tossi por bastante tempo. Após breve colóquio regado a cervas a respeito de mulheres, músicas, mulheres, poemas e mulheres, ainda não satisfeito com a adiantada madrugada, foi proposta pelo espertinho mais uma rodada de cachimbo, pois que sobravam várias cervas na geladeira. Como um leonino não foge a desafios concordei prontamente, para que não fosse julgado um fumeta covarde, um reles incompetente sugador e borrifador de tabacos venenosos. Questionei na hora ao jovem malandro, que naquele momento não tinha nada de anjo, se ele fizera um rápido treino com o mestre cachimbeiro da barba espessa, ar intelectual e cabelos suavemente desgrenhados, o que foi rechaçado sem abalo. Para mostrar a sua sapiência cachimbal, maliciosamente Leandro acendeu a madeira e generosamente ensinou-me, já sem conseguir segurar o risinho fácil, a dar uma assopradinha e puxar com menos violência. Dei a assopradinha, mas o cachimbo praticamente ficou em labaredas, pois leonino é constituído do elemento fogo, única explicação plausível para aquele fato. Quando a gargalhada já irrompia da garganta do jovem gozador, consegui coordenar a assopradinha com a puxadinha, assopradinha e puxadinha e, depois de quase três horas pitando, consegui dar o meu primeiro trago verdadeiro no inocente equipamento fumegante. Aí, o Sábio rapaz foi ensinando mais técnicas ao incrédulo Fábio, comprimindo o tabaco no invólucro, o que não deixava apagar a chama, principalmente com dois defumadores atuando. Ficamos ali bebendo, pitando, proseando sobre mulheres, músicas, mulheres, poemas e mulheres até a última gota de cerva, eu então finalmente embarcado na caravela. Só restando cinzas do tabaco e da conversa, fomos dormir realizados. Leandro sem conseguir disfarçar o sorrisinho nos lábios Sábios, enquanto eu adormeci todos os intranqüilos Fábios, sem imaginar que poucas horas depois, já pela manhã, ao tentar trocar o pneu furado do carro, mesmo após todos os parafusos serem retirados, o maldito pneu permaneceria grudado à roda feito nossas bocas no cachimbo ou semelhante aos nossos lábios nos lábios das amadas. Mistério. Mas essa é uma outra estória, não tem nada a ver com o cachimbo, nem com lábios, tampouco com as amadas. Ou será que tem?

Fábio Roberto