quinta-feira, 3 de novembro de 2022

COMUM

 

Estou cansado de fazer poemas,

Eles já não mudam as pessoas.

Nem quero buscar uma rima,

A linguagem será comum, coloquial.

Os meus sentimentos se dispersaram,

Tanto quanto o pensamento embaralhou.

Tudo porque eu não entendo mais nada,

E o que eu vejo na mesa ao lado

É a transparência da solidão.

O meu violão ficou distante e calado,

Nem mesmo uma corda se arrebentou,

Deixando o ambiente sem canto ou barulho.

E eu nunca quis mudar as pessoas, só o mundo

E os poemas que agora não vou mais escrever,

Por mais que a vontade insista.

Posso até ganhar um sorriso, um beijo,

Uma louca e tarada noite de sexo

Com perversões que só eu pra imaginar

E continuarei inerte, impassível,

Sem escrever, ditar ou me existir em palavras,

Como um bêbado que devorou o alfabeto,

Vomitou todas as letras num bueiro

E se esqueceu de dizer o quanto queria

E amava desesperadamente aquela Musa,

Antes de ficar cansado de fazer poemas.

Só que agora não sei se ainda dá tempo,

Se é tarde ou muito cedo para enviar um whatsapp,

Com apenas mais um poema. Só este, porque cansei.

 

Fábio Roberto

quarta-feira, 13 de abril de 2022

FRAGMENTO


Há momentos em que a melancolia aflora

e a fauna que habita a minha selva ruge,

se a natureza é bela, mas definha, embolora

e a necessidade de salvar a vida urge,

 

quando a minha lágrima interrompe o riso,

do palhaço que esconde a alma atormentada

e deixo-me de ser velha criança, paraliso.

O tempo é a mente lúcida fragmentada.

 

Ah... minha tristeza é quase sem motivo

ou é por tanta coisa que ainda aguento,

passando em cada dor um beijo como unguento?

 

E nasce outro poema cru, subjetivo.

Transborda uma paixão carente de adjetivo,

por ser o meu temor, encanto e alento.

 

Fábio Roberto



sábado, 2 de abril de 2022

LA PUERTA


Hoje bati meu recorde de distração. Perambulava pelo novo lar de lá pra cá e vice-verso, como faço desde os primórdios do andar, para cansar a pressa do tempo e sossegar a impaciência, ensimesmado, sorumbático e imerso em pensamentos caóticos, difusos, criativos ou poéticos que a minha cabeça desenvolvia, quando estas pernas, outrora famosas na prática futebolística até se transformarem em meros apoios de violão, se dirigiram ao meu quarto. Ao me aproximar do ambiente onde pouco durmo, mas espaço no qual processo as mais intensas e variadas atividades, algumas até me fazem suar, houve um súbito e sonoro tóóóóóiiiim...
Foi o som expressado por uma bela batida deste histórico corpinho en la puerta cerrada para mis ojos, expressão que me ocorreu na mente silenciada de imediato para uma canção que deu vontade de compor com letra em espanhol, sei lá por qual motivo.
Ouvi risos e uma voz perguntou-me se eu pensara ser apenas espírito, mas não. Sou ossos e ossos que doem não por ofício, apenas por sacrifício, como disse num antigo poema musicado.
É fato. É comprovado. É científico. Ainda não atravesso las puertas!
Fábio Roberto



sábado, 26 de março de 2022

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

MORENA

 

Não me procure, morena, esta é a noite sem lua.

Nem tente ouvir o meu canto.

É só o vento assoviando ao varrer as ruas vazias.

As palavras dos poemas viveram os seus momentos,

Agora resta apagarem como o fim de uma vela

E que a escuridão abrace tudo em volta.

 

Não me espere, morena, esta é a noite sem lua.

A paisagem à frente não vale o sonho.

Se cair uma lágrima é tempestade

E deve haver um tempo melhor por aí.

Corra pra longe da armadilha que te apresento.

Sabemos que ser feliz assim é impossível.

                                             

Não me siga, morena, são sem rumo os meus passos.

A paixão nunca morre, mas será que isso é bom?

Eu não quero que sofras, deixe isso em mim.

Não se lembre do beijo que nunca acabou

E do arrepio em seu corpo, que nunca passou.

Não me olhe nos olhos, deixe a noite sem lua, morena.

 

Fábio Roberto



quarta-feira, 29 de setembro de 2021

QUASE

 ... e foi assim que acordei naquele dia decidido a nunca mais amar, eu deletaria os poemas inspirados pelas musas que me invadiram pra depois desaparecerem subitamente, restando-me um coração devastado e apagaria as canções que eternizavam essas paixões poderosas e instigantes de outrora, que seriam levadas pelo vento a lugar nenhum, como um eco que fora se desfazendo no ar até sumir, tempestade que se tornaria brisa deixando silêncio, sombra, uma solidão de náufrago sem nem mar, céu ou sentimento e assim acordei e tinha decidido fazer isso, nunca mais amar, prostrando-me no frio congelante e miserável que a minha alma percebia, e eu flutuava no vácuo desta mente desprovida de memória, saudade, alegria ou dor, e exatamente nessa hora, quando eu já era absoluta ausência, inverso de qualquer futuro, sem localização, história, espaço, referência ou medo, apenas os olhos insistiam em permanecer levemente abertos, lutando ainda contra o cansaço ao qual eu me entregara há mais tempo do que a minha idade e eu pedia para que os meus olhos se fechassem e me deixassem morrer a esperança, afinal eu decidira nunca mais amar, sofrendo para alcançar essa firmeza ao ponto sem volta, sem possibilidade de revisão, pois não era mais ensaio, era estar nas luzes do palco, era o momento em que a derradeira declamação atinge o clímax da poesia e o último canto soa retumbante aquela nota que define a beleza da música, portanto o segundo em que é impossível retroceder, pois impusera-se o definitivo, mas uma fresta de olhar ficou brilhando, brilhando, mesmo sem paisagem pra admirar ou lágrima pra derramar, na verdade permaneceu quase sorrindo, talvez, indiferente a qual motivo fosse e não seria ironia eu acordar e decidir nunca mais amar e você, justo nesse instante, se deitar ao meu lado?

Fábio Roberto