sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

A DOR DO ALÍVIO

 Uma das mais disseminadas teorias Fabiais é “A Dor do Alívio”, sensação que surge entre o susto do medo e a alegria do alívio ao escapar de uma perigosa situação, seja ela real ou imaginária. Durante esse processo que pode durar vários segundos, acontece a Dor do Alívio, que precede o alívio propriamente dito, com a força e o poder de um raio penetrando a terra. É uma inexplicável e inevitável sensibilidade que nos percorre desde a alma se distribuindo pelo corpo. Inicia comumente nas unhas dos dedões dos pés, alcançando até os fios dos cabelos que ficam eriçados, bem como todos os pelos do esqueleto vestido de carne. Essa dor sem linimento provoca terrível frio na barriga, arrepio da pele, os olhos esbugalhados de pavor que então lacrimejam cataratas, sudorese acentuada, atividade cardíaca acelerada, paralisação de movimentos, interrupção do raciocínio, contração dos ossos como se eles estivessem sendo esmagados em uma prensa, o sangue alternando temperaturas entre a mais gélida de um iceberg até a mais fervente de um centro de vulcão em erupção, tudo isso culminando com respiração ofegante até o sufocamento. O ser que sofre a Dor do Alívio tem a mesma angústia de um moribundo antes dele dar o último suspiro. Em casos extremos essa dor causa involuntárias diarréias em algumas pessoas mais covardes. Outras acabam se urinando como se fossem bebês. A maioria chora copiosamente de forma descontrolada por muito tempo. E invariavelmente, na iminência de ocorrer o pleno alívio, a pessoa percebe que superou o tormento ou ele nem era tão danoso assim. Mas o desenvolvimento inexorável da Dor do Alíviojá aconteceu.

 

Segundo Lacan “o homem sofre por não compreender o medo, entrando em estado de pânico que se transforma em neurose e esta em histeria, fazendo o corpo adoecer, mesmo que na realidade esteja saudável.” Para esse estudioso,“na neurose obsessiva não se controla mais os pensamentos, os objetos adquirem significações diversas e geram medo.” Para Freud “a angústia vive latente em relação à consciência. Esse sentimento estaria vinculado a uma descarga manifestada através do distúrbio de uma ou mais funções corporais.” E como tudo, para Freud, “o mecanismo presente nas neuroses está associado a uma deflexão da excitação sexual somática da esfera psíquica e ao emprego anormal dessa excitação. A neurose seria então produto de todos os fatores que impedem a excitação sexual somática de ser psiquicamente elaborada.” É necessário transar muito e sempre, eu concluo e tento fazer a minha parte com afinco.

 

Estudando esses autores podemos entender o medo que os homens têm da famosa brochada, algo que jamais confessam que lhes ocorreu, nem mesmo aos melhores amigos. No meu caso, felizmente e de verdade, nunca tive tal problema, tendo-o ao contrário, mas totalmente controlado. Brochada nunca fez parte da minha lista de medos, mas abstinência sexual sim e constantemente me preocupa. Segue abaixo, sem temor ou qualquer pudor, a minha lista de medos em ordem de importância aleatória:

 

- Não conseguir fazer sexo devido à eventual idade provecta (desejo de morrer antes do fato) ou desprezo de todas as mulheres do mundo (sintoma de timidez aguda)

- Cortar cabelo (paúra de que eles nunca mais cresçam e de ficar careca de forma natural ou por doença).

- Dentista/dor de dente (recomendo leitura do meu conto “Anti-dentistas”).

-  Cebola, alho, pimenta e outros condimentos utilizados de forma indiscriminada nos alimentos como tempero (terror ligado ao meu paladar apurado e bom gosto incomparável).

- Calor insuportável (clima de deserto do Saara, sertão nordestino ou Cuiabá me causam pânico).

- Perder a inspiração (pavor de nunca mais escrever uma linha poética ou melódica, totalmente ligado ao medo de não mais ter Musas).

- Invasão de pernilongos e assemelhados (leia o capítulo “Aventura em Trindade” constante na segunda parte da Fabiografia).

- Ter que ficar quieto e parado em um lugar sem poder andar pra lá e pra cá, não poder quando sentado ficar balançando as pernas, nem meditar em movimento ou em caminhadas a esmo (síndrome da petrificação).

- Não poder mais beber (horror associado ao possível desaparecimento ou proibição do álcool no mundo, principalmente cervejas).

- Ter medo (ligado ao fato de me considerar um super-herói desde a infância).

 Fábio Roberto



terça-feira, 3 de janeiro de 2023

A FACE

 

Chegou o novo ano, onde tudo mudou pra igual a antes,

mesmo a esperança de que tudo mude pra melhor depois,

e no caso de não existir mudança, haverá uma face com esperança.

 

Tanto faz se permanecer mudo o tempo da mudança,

pois a dança irá fluir e instigar a andança

até de quem cansou da esperança, da mudança e da dança.

 

Eu não mudo, fico mudo e mudo a mudança,

porque pra mim não sei se há esperança

ou só uma dança de gestos confrontando o espaço

 

e o tempo, do fim ou do começo da andança

ao futuro, a um novo ano e à mudança

na face da esperança, para o sorriso que lhe alcança

 

e descansa.

Fábio Roberto (03/01/23)


 

domingo, 11 de dezembro de 2022

VINTE DIAS EM UM

 Escrevo estas palavras porque o ano acabou.

Sim, eu sei que ainda é dia onze,

mas se eu disse que minha ansiedade me precede,

o que era doce, salgado, azedo, amargo ou sem sabor,

tudo acabou.

 

Não, não estou fazendo drama, é apenas a vida sendo a vida

e eu sendo o de sempre, pois se o coração bate canções

e a cabeça passeia em poemas distraída do mundo,

saboreando momentos que ainda nem conhecemos,

é porque temos que viver Vinte Dias Em Um,

Somos Um, Somos Um e tantos existem em nós,

até estes muitos nós.

 

Não é fácil sermos intensos nessa medida,

mas quem mandou deixarmos os olhares se encontrarem

de um jeito que torna o tempo sem sentido,

a menos que possamos colar corpos, almas e sonhos,

respirando desejos escandalosos,

indecentes para quem não sabe como é bom,

o néctar que fluímos, exalamos e compartilhamos

com o sangue fervendo paixão que não dorme,

não amaina, não tem pausa nem descanso jamais?

 

Ouça, os fogos espocaram no céu,

as champanhes transbordaram dos copos,

os brindes sinceros ou falsos foram feitos

e os normais já confraternizaram suas esperanças.

Este ano finalmente acabou e agora você pode voltar

para mais Vinte Dias em Um,

Sermos Um.

 

Fábio Roberto

11/12/22



domingo, 6 de novembro de 2022

FABIOGRAFIA PARTE 9 - CAPÍTULO 115 - O ATROPELADO

Era meio da década de setenta e eu estudava no Arquidiocesano, aquele colégio de padres diabólicos e irmãos maristas que de irmãos não tinham nada, só se fossem manos de Satã. Em uma manhã ensolarada eu saí da escola e fui atravessar a Avenida Jabaquara. Olhei para o lado do fluxo de veículos e estava livre. Distraidamente não olhei para o outro sentido, mesmo porque nada deveria vir por ali. Mas veio. Subitamente fui surpreendido por um táxi Volkswagen que dava ré para alcançar um passageiro e parou exatamente em cima dos meus dois pés. Aqueles pés preciosos de tantas aventuras perambulatórias pelo mundo e famosos por centenas de gols, passes milimétricos, dribles desconcertantes e jogadas mirabolantes realizadas nos campos e quadras de futebol do Brasil para deleite das minhas fãs e ódio das torcidas dos adversários. Por sorte o possante acabou atingindo apenas as pontinhas dos calçados onde havia pouca folga, mas suficiente para me prender colado ao carro de olhos esbugalhados e com a expressão assustada na face, achando que não estava sentindo dor porque meus pés teriam sido desprendidos do corpo. Foram alguns segundos de pânico. Tentei sair dali puxando-me com força, mas realmente não conseguia. E não pensei em tirar os tênis porque achava que em breve estaria me esvaindo em sangue. O incauto motorista, sobressaltado, se quedou paralisado me olhando grudado no automóvel. Eu gritando e tentando empurrar o fuska com cara de terrorista e ele sem entender o motivo. Felizmente os colegas mandaram o chofer movimentar o veículo pra frente, liberando os membros que eu julgava desunidos de mim. Olhei para baixo e não vi o sangue esperado. Apertei e senti os dedos intactos. Os amigos começaram a gargalhar enquanto eu, fidalgamente, fingi que nada houvera acontecido. Atravessei o logradouro aparentando calma, apesar de totalmente encharcado de suor. O automóvel que tentou olvidar esse crime abriu a porta para o passageiro e partiu como se nem tivesse provocado uma quase tragédia. Creio que o “barbeiro” do volante tenha passado a ser mais cauteloso daquele dia em diante. Da minha parte passei a atravessar as ruas olhando para todos os lados, para cima e para baixo, independente do fluxo de pessoas, animais, veículos ou aeronaves.


sábado, 5 de novembro de 2022

INSONE

 

Se adormeço uma noite tranquilo,

Tenho o descanso de um justo.

Mas não durmo, lembrando daquilo:

que este mundo é vil e vetusto.

 

Zumbizando na esquina da mente,

Insone, mesmo assim consentâneo.

Pois se durmo, o sonho é premente:

melhor mundo no contemporâneo.

 

O difícil é entender-se no outro.

Só se vê alma estranha e vazia.

Às tragédias a postura é de neutro.

 

Penso, se a bondade fosse idiossincrasia...

Fecho os olhos, me aquieto, me prostro.

É apenas mentira, ilusão, disfasia.

 

Fábio Roberto

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

COMUM

 

Estou cansado de fazer poemas,

Eles já não mudam as pessoas.

Nem quero buscar uma rima,

A linguagem será comum, coloquial.

Os meus sentimentos se dispersaram,

Tanto quanto o pensamento embaralhou.

Tudo porque eu não entendo mais nada,

E o que eu vejo na mesa ao lado

É a transparência da solidão.

O meu violão ficou distante e calado,

Nem mesmo uma corda se arrebentou,

Deixando o ambiente sem canto ou barulho.

E eu nunca quis mudar as pessoas, só o mundo

E os poemas que agora não vou mais escrever,

Por mais que a vontade insista.

Posso até ganhar um sorriso, um beijo,

Uma louca e tarada noite de sexo

Com perversões que só eu pra imaginar

E continuarei inerte, impassível,

Sem escrever, ditar ou me existir em palavras,

Como um bêbado que devorou o alfabeto,

Vomitou todas as letras num bueiro

E se esqueceu de dizer o quanto queria

E amava desesperadamente aquela Musa,

Antes de ficar cansado de fazer poemas.

Só que agora não sei se ainda dá tempo,

Se é tarde ou muito cedo para enviar um whatsapp,

Com apenas mais um poema. Só este, porque cansei.

 

Fábio Roberto

quarta-feira, 13 de abril de 2022

FRAGMENTO


Há momentos em que a melancolia aflora

e a fauna que habita a minha selva ruge,

se a natureza é bela, mas definha, embolora

e a necessidade de salvar a vida urge,

 

quando a minha lágrima interrompe o riso,

do palhaço que esconde a alma atormentada

e deixo-me de ser velha criança, paraliso.

O tempo é a mente lúcida fragmentada.

 

Ah... minha tristeza é quase sem motivo

ou é por tanta coisa que ainda aguento,

passando em cada dor um beijo como unguento?

 

E nasce outro poema cru, subjetivo.

Transborda uma paixão carente de adjetivo,

por ser o meu temor, encanto e alento.

 

Fábio Roberto



sábado, 2 de abril de 2022

LA PUERTA


Hoje bati meu recorde de distração. Perambulava pelo novo lar de lá pra cá e vice-verso, como faço desde os primórdios do andar, para cansar a pressa do tempo e sossegar a impaciência, ensimesmado, sorumbático e imerso em pensamentos caóticos, difusos, criativos ou poéticos que a minha cabeça desenvolvia, quando estas pernas, outrora famosas na prática futebolística até se transformarem em meros apoios de violão, se dirigiram ao meu quarto. Ao me aproximar do ambiente onde pouco durmo, mas espaço no qual processo as mais intensas e variadas atividades, algumas até me fazem suar, houve um súbito e sonoro tóóóóóiiiim...
Foi o som expressado por uma bela batida deste histórico corpinho en la puerta cerrada para mis ojos, expressão que me ocorreu na mente silenciada de imediato para uma canção que deu vontade de compor com letra em espanhol, sei lá por qual motivo.
Ouvi risos e uma voz perguntou-me se eu pensara ser apenas espírito, mas não. Sou ossos e ossos que doem não por ofício, apenas por sacrifício, como disse num antigo poema musicado.
É fato. É comprovado. É científico. Ainda não atravesso las puertas!
Fábio Roberto



sábado, 26 de março de 2022

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

MORENA

 

Não me procure, morena, esta é a noite sem lua.

Nem tente ouvir o meu canto.

É só o vento assoviando ao varrer as ruas vazias.

As palavras dos poemas viveram os seus momentos,

Agora resta apagarem como o fim de uma vela

E que a escuridão abrace tudo em volta.

 

Não me espere, morena, esta é a noite sem lua.

A paisagem à frente não vale o sonho.

Se cair uma lágrima é tempestade

E deve haver um tempo melhor por aí.

Corra pra longe da armadilha que te apresento.

Sabemos que ser feliz assim é impossível.

                                             

Não me siga, morena, são sem rumo os meus passos.

A paixão nunca morre, mas será que isso é bom?

Eu não quero que sofras, deixe isso em mim.

Não se lembre do beijo que nunca acabou

E do arrepio em seu corpo, que nunca passou.

Não me olhe nos olhos, deixe a noite sem lua, morena.

 

Fábio Roberto