segunda-feira, 9 de outubro de 2017

INSÔNIA

Uma parte lutava pra dormir,
a outra insistia em pensar.
Fazendo uma parte se coçar,
a outra adorava oprimir.
Uma parte começou a deprimir,
outra não deixou de lhe espicaçar.
Essa parte só deixou de ameaçar,
quando a outra irritada fez bramir.
E assim noite adentro a esgrimir,
uma parte viu o tempo passar.
Desejando mais um pouco troçar,
a outra ficou a se consumir.
Breu confuso lhes restava exprimir.
Não puderam ou souberam conversar.
Duas vozes: a insônia a engessar
a idéia que nasceu só pra sumir.


Fábio Roberto


sábado, 7 de outubro de 2017

CLAVE DE FÁbio

a sonoridade das minhas unhas rasga o teu corpo inteiro.
a minha boca e dentes estalam na carne do teu pescoço.
a melodia é esta, de selvagem leão, e é o que compor eu posso. 
é este meu desespero que te ofereço, linda, como fiel parceiro.
o meu coração irá parar de percutir nesta pauta partida,
pois em alguma noite eu me permitirei esta sábia decisão.
por enquanto, escute-me paixão, olhos, calor e tesão.
dentro de você eu canto o melhor canto da minha vida.
Fábio Roberto

SAL

Mas quem é esse que tanto falo em romance?
Esse não sou eu, então que eu pare antes que me canse.
Eu sou um poeta maldito que as palavras no papel vomita,
feito comida deteriorada e fria de suja marmita.

A minha poesia é para ser lambida pelos cães sem donos,
aqueles que bebem as águas apodrecidas nas sarjetas,
uivando para receber réstias de luar, como gorjetas
clamadas pelos miseráveis que habitaram tronos.

O que escrevo é uma ferida purulenta que nunca cicatriza.
É um sentimento que invade. Não se doma. Não se exorciza.
Corrói por ser lava que desce fumegante a encosta,
queimando a alma numa dor tão forte e poderosa que se gosta.

Estas são as declarações de amor deste visionário insano.
O sabor da minha boca pode ser amargo, estranho, obsceno.
Nunca será doce, tampouco suave. Eu não existo ameno.
Sou o tempero mergulhado sob as ondas do oceano.

Fábio Roberto


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

SOM DA NOITE ESCURA

Noite escura acendo os meus faróis.
Não encontro estrelas, luas ou heróis.
Sem poesia resta este silêncio estranho.
Mundo esvaziado, lúgubre, tacanho.
Noite escura apago os meus faróis.
Universos regem os ritmos dos sóis.
Vaga-lumes mortos ainda brilham.
Já não voam e as naturezas maravilham.
Noite escura e nem a morte dói.
Uma melodia invade e corrói.
Nunca mais a esqueço, som de violoncelo.
Era fim da noite, um solo denso e belo.

(imagem: depositphoto)

POESIA SOBRE O FEDOR DO MUNDO

O mundo é uma merda!
Sim, ele é. Não discuta
Madrasta a vida te herda
Mergulha-te em insana labuta
A paisagem aos teus olhos é lerda
Parece que só solidão te escuta

O mundo é um zero à esquerda
Uma ausência, um vazio, uma perda
Uma fome tamanha e injusta
Uma realidade que assusta
Um frio que atravessa as cerdas
O amargo sabor que degustas

Sendo merda o que o mundo te é
Certamente já sujaste teu pé
Mas seja Santo, Maria ou José
Acredite, acredite em tua fé
Pra exalar em tão podres narizes
Um perfume que inebrie as crises

Um perfume superior ao fedor
Dessa merda, da tristeza e da dor


Fábio Roberto
foto Daniel Souza Lima

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

SINGELO POEMINHA DE QUINTA FEIRA

Meus dois olhos espelhados,
Um fecha às vezes, sorrateiro. 
É o olho de um afogado:
Vê o mundo belo, mas traiçoeiro.

O outro olho, sempre aberto,
Só te admira, enxerga mais nada.
Não importa o mundo vasto e incerto,
Se eu puder olhar só a minha amada.


Fábio Roberto

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

O TEMPO DE UM SORRISO


E justo quando a conjunção de todos os astros houve em noite bendita,
a minha alma de poeta estava distante, covarde, melancólica e aflita.
A palidez da pele era de cadáver, o espelho mostrava uma face espectro.
Mas se eu fosse tanta coisa ruim assim, eu mesmo me diria: - vai de retro...
Olhando bem no fundo da retina, eu sabia que ainda me existia.
Ousei um desafio aos deuses. Sem resposta, alucinado eu insistia
até que as musas não me trouxeram palavras, me apresentaram a vida
de poeta na essência da poesia, de paixão eterna, mas em momentos combalida.
Descansei nos braços de uma melodia viva, ritmada, indomável, instigante.
Uma rima absurda, irreal, num verso nunca menos que per-verso e delirante.
Escrevi uma pauta sem compassos compostos, só para experimentar a normalidade.
Respirando com faro dodecafônico, só me restou o aroma agressivo da saudade.
Caminho de poeta traz alegria poderosa e deslumbrante, contagia, mas é fugaz.
Onde todos perceberão a guerra das vozes, ele ouvirá o silêncio austero da paz.
Não há como ele dividir, não pode, não deve compartilhar com o amor sua agonia.
Uma existência tão profícua, só dura luz e calor do sol que nasce e morre todo dia.
Fábio Roberto

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Do Livro das Letras OUTRA VIDA Leandro Henrique/Fábio Roberto

Mediunidade? Misticismo? Sintonia? Coincidência? Destino? Eu em casa construindo versos decassílabos. Leandro vindo pra casa com uma melodia com métrica semelhante na cabeça, marcando compassos e andamentos. Quando ele chega me encontra descabelado, frente ao copo de cerveja, cara de louco, dizendo ter acabado uma poesia. Leandro pega a letra, o violão, sai e volta em minutos. Canta a música cuja letra se fundiu perfeitamente à melodia imaginada por ele antes de chegar.

OUTRA VIDA (2005)
Tenho estradas nas linhas das mãos
Rios já secaram em minhas veias
Hoje tenho o tempo que quiser
Mesmo o tempo rude que se foi
Pois se no passado tanto fiz
Penso que o futuro tanto faz
Quase que desejo a solidão
Destes versos que procuram paz
Olhos pouco a pouco anoitecendo
Procissão cravada na garganta
Canto e cantarei a esperança
Mesmo se desfeita em espuma
Nunca navegar um mar tranqüilo
Quando a dor é face escondida
Ouço a prece dos desenganados
Olhos que amanheçam outra vida


(Imagem best wallpaper)

terça-feira, 26 de setembro de 2017

OBRA


Quero neste solene instante
dar um fim na minha obra
e sob a luz deste rompante
desfazê-la sem nem sobra.

Quero minhas palavras todas
devoradas pelas traças,
curtir o devaneio destas bodas,
saborear o gosto das desgraças.

Quero emudecer notas criadas,
apagar da pauta as novenas,
melodias que foram sangradas
pelo filantropo e mecenas

de artes e almas. Desespero
com a faca no peito e nas costas.
O sêmen plantado com esmero,
vingando contra quaisquer apostas.

Meus olhos de jovem cansaram.
O meu corpo de velho reclama.
As minhas histórias se deitaram
com o futuro numa cama.

Fábio Roberto

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

EXERCÍCIO DA GUERRA

Rajadas de metralhadoras são expelidas por consideradas bocas santas. As más línguas, com seus ditados impopulares, espalham a notícia. O Alfabeto traído, encurralado no beco escuro da ignorância, foi assassinado sem dó nem piedade. A escrita e a fala não mais existem. O analfa matador de aluguel grunhe um som ininteligível de vitória. Ao mesmo tempo, perto dali, nasce a Mímica.

Fábio Roberto

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

COMPOSITOR E POETA ABRE VAGA PARA MUSA

SALÁRIO: poesias e canções.

BENEFÍCIOS: amizade; aventura; emoções intensas; mergulho nos sentimentos contidos na profundeza da alma; infindáveis palhaçadas, debates filosóficos e papos artísticos; participação nos eventos da Casa do Sarau; carteirinha da Turma Braba; book mensal com as obras provocadas no período.

BENEFÍCIO ADICIONAL: acervo com mais de 400 canções e incontáveis poemas.

HORÁRIO: a combinar desde que sempre.

EXIGÊNCIAS: ser mulher inspiradora em todos os sentidos.

DIFERENCIAIS: serão considerados por olhos, coração e mente de poeta.

DURAÇÃO DO CONTRATO: enquanto houver encantamento.

RISCOS: paixão; sexo; descobrir sua loucura; virar criadora de arte; sonhar muito e não se adaptar mais à realidade; querer fugir do mundo; ter a melancolia como parceira até no momento mais feliz; ter a alegria como companheira até em um funeral; ter a vida escrita e sonorizada; não poder esquecer jamais o que passou de bom e ruim; beber a vida e desejar a morte.

INTERESSADAS: enviar contato inbox para agendamento de sarau-entrevista.


Fábio Roberto


quarta-feira, 20 de setembro de 2017

SEDE

Pode a palavra apagar
Pode o canto emudecer
Mesmo se o dia dormir
Sem que haja anoitecer
Pode parar de brilhar
Uma estrela a morrer
Um rio não mais navegar
E a saudade esquecer
Nossa história
Eu lembro como se fosse agora
Cravei as mãos nas tuas costas
Deixando dor/prazer marcados
No corpo que era a minha cama
Gemidos congelaram as horas
Os gritos excitaram as velas
O fogo mordendo os lençóis
Deu Sede que bebi teus lábios


Fábio Roberto
Escrito e musicado em 2011

terça-feira, 19 de setembro de 2017

VOO

O vento na cara fecha os olhos.
O cabelo embaralha mais do que meus pensamentos.
Abro os braços...

e subitamente vôo.

Sabia que eu não era daqui.
Sentia que eu podia voar.
Como é bom este vento, isto sim é respirar.
Abro os olhos e admiro a paisagem.
É impressionante. O espaço é imenso,
mas não me sinto sozinho.
Desço vagarosamente e tranquilo.
O horizonte lá em cima é infinito
e agora tenho certeza que é possível um homem voar.



Fábio Roberto


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Do Livro das Letras NÁUFRAGO – Leandro Henrique/Fábio Roberto

O poema foi criado e enviado para Leandro, que ficou um tempo germinando a música. Certa noite, em inspiração alucinada, o compositor já ia pela metade da canção, quando foi interrompido de súbito por invasores festivos ao seu ambiente. Por insistência de Márcia Salomon que queria incluí-la no CD Minha Tribo por plena identificação, a melodia foi muito depois resgatada por mim em simbiose criativa com o parceiro, simbiose esta retratada no final da gravação pelas vozes da sereia e do náufrago em canto rasgado e emocionante.

NÁUFRAGO (2010)
Vem logo, meu poeta vagabundo
O teu é um coração de marinheiro
Navega tolas paixões pelo mundo
Mulher nenhuma o terá por inteiro

Mas põe dentro de mim um teu pedaço
Mais que a lembrança desse corpo ardente
Que ao meu encaixas com estardalhaço
Como um navio que atracou de repente

Vem logo, feito um náufrago carente
Com sede desse amor de tantos anos
Dou de beber, sou serva obediente
Aos teus caprichos, mesmo os desumanos

Só quero meu poeta leviano,
Quando estiver vazio meu travesseiro
Sentir pulsar em meu ventre cigano
Nosso menino malandro e arruaceiro

Deixe o presente, este nosso rebento,
Pois sei que para mim não voltas
Só sabes viver ao sabor do vento
E mergulhando nas ondas mais revoltas

Márcia Salomon: voz - cd Minha Tribo
Leandro Henrique: música e Fábio Roberto: música e letra
Leandro Henrique: violão e voz
Mario Aydar : violoncello
Edu Gomes: produção


Link: https://www.youtube.com/watch?v=EL8BVWYacnU

Foto: Ricardo Junior




AGORA

Antes do final da noite eu quero te abraçar
Apertado e demoradamente,
Excitado, sentimentalmente,
Mas nem um pouco fraternal.
Antes do final da noite eu quero te dar um beijo
Apaixonado, inteiramente
Carinhoso e indecente,
Como aquele que se quis e ainda não se deu.
Antes dessa noite terminar
Quero dizer te amo,
Adeus e bom dia.
Quero te olhar profundamente
Como saudade que se fora...
Antes que eu me acabe com essa noite,
Seja a madrugada
Eterna ou repentina,
Irei te amar nesse momento para sempre
E desfrutar a poesia que seria.
Fábio Roberto
(Foto Pedro Dalbuquerque)

TSUNAMI

Quem é que tem o sono se o mundo gira
E gira sem parar até em hora imprópria?
Até o corpo acorda, se levanta e pira
Após a digestão inefável de mais uma obra
Quem é que tem o sono se a vida espreita
E espreita curiosa pela hora próxima?
Até se você dorme de pijama e a peita
Após excrementar o sonho que oxida
Quem é que tem o sono se a morte ronda
E ronda serelepe a hora em que aproxima?
E se aproxima e foge e morre como onda
Após que o tsunami afogue a obra-prima
Fábio Roberto
(Foto de Clarck Little)

QUINTA

Às vezes dá vontade de deixar a alma hibernando para viajar com outra consciência pelos planos mais diversos. A alegria e o desespero estão se alternando numa simbiose poderosa que por momentos nem mais se diferenciam. E não adianta temer o futuro. Também não adianta desejá-lo. Parece que não há o que fazer com tanto por fazer.
Mergulho a consciência numa taça de vinho tinto e assobio sonhos.
Viver é tão solitário e completo quanto a Quinta Sinfonia de Tchaikovsky’s.
Fábio Roberto

sábado, 16 de setembro de 2017

Do Livro das Letras ÁGUA DE DOR

A decepção com a realidade e a constatação da amargura são aqui retratadas pelo desencontro dos olhos e do olhar, o encontro da paisagem e da dor, a perda do olhar pela paisagem e o universo dos olhos angustiados por serem a dor do olhar.

ÁGUA DE DOR (Musicada em 1983)
De onde vem?
De onde vem a dor?
De onde vem?
De onde vem o olhar?
De onde vem a dor
De olhar a paisagem
Que nunca mais verá
De onde vem o olhar?

No universo de um ato de dor
Os olhos perderam o olhar,
Que nunca mais terá a paisagem,
Que a paisagem nunca mais terá,
Mas verá os olhos sentirem a dor
De ser a dor do olhar.


Fábio Roberto

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

BOMBA

Neste mundo traiçoeiro e triste, ser feliz é uma tragédia.
Os dentes escarnecidos e sarcásticos das almas banguelas retratam o que é rastejar em âmbito inferior.
Nós, otimistas e sonhadores de existências pautadas pela sensibilidade artística, acreditamos em outras vidas, alegrias, desastres, universos, dimensões, atitudes, suicídios, nascimentos, decepções...
Ou seja, sabemos que apesar das maldades em que nos envolvem e das dificuldades pelas quais passamos, um único momento verdadeiro e absoluto de amor e paixão nos motivará a ir em frente.
Toda poesia cabe numa lágrima. Cabe também em um sorriso. Não cantamos uma coisa ou outra. Somos inteiros.
E faremos essa gente podre se torturar e sangrar quando, mesmo com o coração dolorido ou o corpo machucado, soltarmos a gargalhada sincera e retumbante que ecoará em suas mentes como se fosse a contagem regressiva de uma bomba prestes a explodir.

Fábio Roberto


DECLARAÇÃO DE DESAMOR

Não te amo.
Nem chego a te odiar.
Não sinto nada.
Desprezo totalmente a sua existência.
Aliás, você existe?
Sonhar com você seria pesadelo.
Se eu visse você passar na rua,
que imagem desagradável e fácil de esquecer.
Se eu pensasse em você teria calafrios,
ficaria completamente louco de raiva.
Sinto náuseas só de cogitar respirar o seu cheiro de gente ruim.
Imagine um abraço teu.
É mais quente o abraço de um cadáver.
Porque quem sentir calor com teu abraço,
estará no inferno queimando
e ouvindo eternamente a pior das piores músicas de letras imbecis,
tipo levanta a bundinha, abaixa a bundinha...
Por isso faço esta definitiva declaração de desamor.
Que é tua. Somente tua. Como somente teu é o meu desamor.
Entenda este sentimento intenso, exacerbado, desmedido,
mas absolutamente desprovido de qualquer paixão.
Como nunca teve vida, este sentimento não aconteceu.
Não poderá ter sido um aborto porque nem concebido foi.
É simplesmente muito além do que o maior e mais profundo vazio.

Fábio Roberto

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Do Livro das Letras TENHO FOME

TENHO FOME – Fábio Roberto 
Inicialmente nascido de uma brincadeira poética, o poema se transformou, alcançando melodia, tornando-se uma das canções mais sensuais e ousadas que já fiz, com seus versos diretos, crus, sem metáforas ou eufemismos.  

Esta música reflete o meu jeito leonino de amar: quente, delicado, agressivo, protetor, divertido, sexual, santo, pervertido, apaixonado... 

TENHO FOME (2008)
Tenho fome daquela comida
Do seu beijo, da sua mordida
Seu abraço, seu cheiro de vida
De sua língua e da doce lambida

Em mim. Uma fome sortida
De sabor, de forma divertida
Uma fome delicada e dolorida
Acesa, quente, colorida

Uma fome prevalecida
Do tesão de ver-te possuída
Uma fome profunda, parida
Da loucura santa e pervertida

Uma fome de te por assim despida
Completamente, mas totalmente protegida
E minha fome te será consumida
Pelo corpo e pela alma digerida.

Márcia Salomon: voz - cd Minha Tribo
Fábio Roberto: composição
Leandro Henrique: violão 
Pedro Ito: bateria
Fábio Roberto e Leandro Henrique: vocais
Edu Gomes: guitarra, violão de aço, baixo e produção


TERGIVERSAR

Tergiversar o verso
Ou
Tergi-versar

Poeta hesitando a palavra
Qual seja ela,
não há esquiva para uma história a ser escrita
Qual seja o motivo,
não há motivo para não versar sobre o papel vida

Tergiversei as mãos sobre os seus ombros,
mas resvalamos uma sílaba em nossas peles
Não houve subterfúgio, desculpa ou escapatória
porque foi assim

Ouve
Escrevemos o som da pele arrepiada
Enquanto as bocas tergiversavam o sentimento,
os olhos musicavam o silencio dizendo tudo

Tergiversar não faz parte da nossa loucura

E assim, in-versos sobre o mundo,
iremos nos amar
como a palavra ama um poeta ama a palavra



Fábio Roberto


sábado, 9 de setembro de 2017

TUMBA

Cansado desta poesia maldita que dilacera as palavras,
o coração e transcende à alma.

Não há como criar novas canções.
Os temas se repetiram, repetiram, repetiram
na constante perversa de uma vida e sua incógnita.

Pois, sim, existe vida após a morte.
Mas não sei o que existe antes.
Seria tudo um pensamento ou um espasmo,
 um flash, o último piscar dos olhos do tempo?

Sem resposta as musas, também cansadas desta poesia maldita
que dilacera as palavras, as canções, o coração e transcende à alma,
recolheram-se ao interior das suas asas que nunca mais abrirão.

E assim resta apenas o silêncio cinza e austero de uma tumba confortável e bela, 
onde dormirá eternamente toda e qualquer inspiração.



Fábio Roberto


sexta-feira, 8 de setembro de 2017

LUGAR

Sem amor qualquer lugar é solitário.
Seja um cemitério,
seja um berçário,
vida é resposta a qualquer mistério.
Amo. E só existe a palavra vida no meu dicionário:
caso com a morte só pra cometer adultério!

Fábio Roberto

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

TRADIÇÃO

Não chore a cerveja derramada.
Saiba, ela vai pro Santo.
Espírito que espreita em todo canto,
com a boca sedenta escancarada.

Coitado, o paraíso não tem cerva.
Bebe-se só néctar dos deuses,
ao som de líricas berceuses
e ele preferindo uma erva...

Por que foi ser honesto, sem pecado?
Agora, bar em bar caminha errante,
sóbrio, consciente, inconsolável.

Passo sem futuro, flutuante.
Prazer eternamente insaciável,
olho de zumbi, arregalado


Fábio Roberto


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

PAPO NA MADRUGADA

Sono: olá.
Eu: você por aqui?
Sono: só uma passadinha.
Eu: fica mais um pouco!
Sono: não dá (e ainda sai bocejando).
E eu, com olhos de zumbi, vejo o sono ir embora...


Fábio Roberto

PANDORA

Hoje o meu poema não é triste,
tampouco minha música alegre.
Mais rápidos que os dedos num tuíte.
Lentos quanto amor que desintegre.

Hoje é assim um quase ou quase nada,
tal como estar de fraque e ser um pária.
Fugaz como o amor que se evada.
Eterno como a voz em uma ária.

Não sei se é hoje o tempo desta história.
Sei lá se estou vivendo este agora,
ou se é um pesadelo da memória.

Pergunto ao céu se fico ou vou embora.
Não sei se é fuga, encontro, paz ou glória,
mas fecho-me na caixa de Pandora.


Fábio Roberto


VONTADE

Do Livro das Letras 

VONTADE (musicada em 1981)
Esse sentimento dá vontade
Da vontade de morrer
Esse sentimento da vontade
Dá vontade de explodir
Esse sentimento dá vontade,
Dá vontade de você
Esse sentimento da vontade
Dá vontade de sorrir,
Da vontade de viver
Esse sentimento dá vontade
Da vontade de morrer
Esse sentimento da vontade
Dá vontade de gritar
Esse sentimento dá vontade
Dá vontade de você
Esse sentimento da vontade
Dá vontade de chorar,
Da vontade de viver
Fábio Roberto

ATENÇÃO

.

Não me chame. Estou desconcentrado em outra coisa agora.

Faroberto

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Do Livro das Letras - FEITO UM CIGARRO

A paixão que consome como um vício que dá prazer e ao mesmo tempo suga toda a energia do viciado é contada pela ótica do cigarro tragado por uma mulher. A metáfora do sentimento que arde, corrói, machuca, domina e contamina. E tudo acaba em um beijo que fica gravado na memória da alma, pois o cigarro é jogado ao chão feito a paixão que se apagou.

FEITO UM CIGARRO ( Musicada em 2009)
Você fala, mas sou eu quem arde.
Sou eu que aqui na tua boca queimo
e entre teus dedos vejo como é tarde.
Eu sou um vício, te domino e teimo

em acompanhar-te pela madrugada.
Eu te percorro, feroz sentimento,
mas te esvazio após cada tragada
e contamino até o teu pensamento.

Impregnado em ti o meu odor
e o meu suor, paixão que exalei,
tu me apagas, mas não apagas a dor.

Mesmo jogado ao chão, faço-me rei.
O teu baton, consciente e sonhador,
gravou em mim teus lábios que beijei.

Fábio Roberto


ZUMBIDO

Zumbido é um grito pichado no muro. A inquietude de viver, a solidão sentida neste planeta desconhecido, a procura deste compositor por seu destino e suas paixões. A letra foi feita após perambulações pela madrugada. A música chegou forte, mas veio depois, misturando ritmos nordestinos e rock, num pulsar valorizado e destacado pelo impressionante arranjo criado por Leandro Henrique.
Só um poeta do nível do Lê para traduzir através dos instrumentos esses sentimentos descritos. E também captados pelas lentes sensíveis de Guilherme e Rafael no clipe.

ZUMBIDO (2016)
Na calada da noite
Uma noite calada
Um açoite
Uma espada
Que voa e zumbe
Na encruzilhada

Há o olho que espreita
Há o olho esperto
Há aquele que aceita
Há o outro incerto
Há o olho no escuro
Há o que vê e não vê nada

Na noite calada
Nem o apito
Do guarda

Só um grito
Pichado no muro

Fábio Roberto: composição e voz
Leandro Henrique: produção, arranjo, mixagem e masterização
Instrumentos tocados por Leandro Henrique: violões, guitarras, baixo e bateria
Clipe dirigido por Guilherme Ferraro com fotografia de Rafael Barbosa




COLECIONANDO PARTIDAS

Embevecido com a imagem mitológica de Midas, o rei que transformava em ouro tudo que tocava, eu adaptei o mítico, convertendo-o numa espécie de Midas apenas trágico, cujo toque a tudo e a todos afasta, numa ferina metáfora sobre a inexorável diáspora do ser humano em torno do amor. Um tema recorrente na minha vida e nas minhas canções. 

COLECIONANDO PARTIDAS... (2008)
De quem foi
De quem vai e vem
Quem não vem nem vai
Quem nem sai
Quem diz oi
E quem nem...
Quem que dói?
Quem que quis também?
Quem corrói?
Qual ninguém?
Quem diz tchau
E quem nem...

Colecionando Partidas
Bem Vindas
Bem Idas
Bem Vidas
Partidas
Midas
Da Dor
Colecionador
Coleciona Dor

Márcia Salomon: voz – cd Minha Tribo
Fábio Roberto: composição
Leandro Henrique: violão 6 cordas
Edu Gomes: violão 12 cordas e produção
Olívio Filho: acordeon
Pedro Ito: percussão



terça-feira, 29 de agosto de 2017

MANTRA


Seja no mato ou cidade
O por do sol é lindo
Seja de fato ou saudade
O por do sol é lindo
Seja desacato ou verdade
O por do sol é lindo

Pode o dia amanhecer nublado
Pode estar chovendo no coração
O por do sol é lindo
Feito o amor infindo
E nem a noite deixará calado
O repetido verso desta canção:

O por do sol é lindo.
O por do sol é lindo.
O por do sol é lindo.


Fábio Roberto


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

ALADO


Qual era o rosto ou a voz que me dizia pra ir, mas eu não fui

ou apenas eu imaginava?


eu não sabia o rosto ou a voz, a ida ou a vida que seria.

e a voz cantava ou cantaria ou cantará me olhando de lado

alado

ou em um passado que nem aconteceria


diga-me se o futuro será assim tão amor

ou outro sonho transtornado, sem rosto ou voz.


diga-me a canção que eu faria.



Fábio Roberto

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

FOTOGRAMAS

AVISO
Este texto-filme contém líricas e cruas cenas de violência física e psicológica!

E naquele momento em que eu estava morrendo não passou um filme na minha cabeça. Nem um curta, nem um longa, nem uma série, ou musical, comédia, drama, aventura. Nem Fim foi escrito nos letreiros frente aos meus olhos. Nada vi. Simplesmente morri no filme tão lindo que nem existiu. Era um romance...

Tudo começou quando eu descia a Paracatu e você vinha com seu jeito desligado no sentido Jabaquara. E eu sempre distraído desta vez me atentei para o seu andar bailarino e sensual. Você foi se aproximando e eu tive certeza de que te conhecia, mas nunca houvera te visto. Até que passamos um pelo outro. Eu te admirei a beleza e fui completamente ignorado.

Quando você já estava a quatro passos além, estanquei os meus. Era estranho, mas eu sabia que tínhamos história. Não conseguia lembrar direito. Na minha cabeça éramos muito mais do que conhecidos. Tínhamos intimidade. Na realidade vivíamos aquela cumplicidade que só o tempo de convivência permite construir e solidificar na vida juntos.

Ao me despertar novamente você já se afastara quase meio quarteirão e eu ali estático, sem reação, desprovido de palavras ou idéias para que você me reconhecesse e percebesse o quanto éramos importantes um para o outro. A minha figura incomum e descabelada não poderia ser esquecida assim tão facilmente como se fora um transeunte qualquer, um mero indigente.

Você prosseguiu impávida, com passos impiedosos alcançando o próximo quarteirão enquanto eu, imóvel, me certifiquei que você era o amor da minha vida. Sim. A nossa paixão arrebatadora fora invejada e cantada pela cidade, versada em rimas ricas pelos poetas mais instigantes. Eu só não entendia o tamanho da sua frieza, como se nada houvera existido entre nós.

Os pensamentos embaralhados em minha mente, o coração despedaçado pelo desprezo que eu recebia após tantas juras de amor que devíamos ter feito um para o outro ao longo dos anos me transtornaram, mas nem assim consegui me mexer. E você já chegava à grande avenida, bem próxima da última esquina. Pensei em gritar o seu nome, mas eu não o sabia.

Antes que virasse a esquina eu tive esperança de que você parasse, me visse ali na calçada feito cão abandonado, olhasse nos meus olhos dando aquele sorriso que era exclusivo meu e flutuasse de braços abertos pra mim, momento em que soaria nas rádios uma sonata de Chopin emocionando o mundo, mas não. Você sumiu entre as pessoas que atravessavam a rua.

Aí o sangue subiu e me deu uma raiva! Quem era você pra me tratar daquele jeito? O que eu tinha feito para merecer aquilo? Havia me dedicado tanto, tínhamos sonhado um futuro tão bonito longe dessa loucura urbana que desvirtua os melhores sentimentos. E nossos filhos, nossa casa? O cérebro a mil, mas os meus pés se movimentaram em slow motion.

Quando cheguei esbaforido e cheio de ódio na Jabaquara você andava aceleradamente rumo ao metrô São Judas. Ah... mas eu te alcançaria. Você não fugiria assim impune e me considerando um lixo, a escória humana, um traste, um verme, um nada. Não sei como foi surgir uma peixeira em minha mão exatamente na hora em que comecei a correr desenfreadamente.

As pessoas me viram correndo de olhos esbugalhados com aquela faca na mão e assustadas gritaram pela polícia. Ninguém imaginava o quanto a gente tinha se amado, a intensidade da paixão que vivêramos. Não podiam entender que eu tinha plena razão pela minha revolta incontrolável. Eu não te conhecia, mas acreditava que tudo aquilo era a mais pura verdade.

Vendo-me ao lado, a expressão de pavor em seu rosto foi comovente. Que horror cinzento em seus olhos tão verdes. Tive a impressão que finalmente você me reconhecia e se arrependia tardiamente de me ter feito esse mal. O impressionante é que eu ainda não recordava de você. A faca já sentia o sabor do seu sangue quando seis balas de 38 estraçalharam o meu corpo.

E naquele momento em que eu estava morrendo não passou um filme na minha cabeça. Nem um curta, nem um longa, nem uma série, ou musical, comédia, drama, aventura. Nem Fim foi escrito nos letreiros frente aos meus olhos. Nada vi. Simplesmente morri no filme tão lindo que nem existiu. Era um romance...


Fábio Roberto


Inspirado em “Sui Generis” de Leandro Henrique                    

LÁBIOS DE MANEQUIM

Era bela a estória, mas não teve fim
Como se de um livro página rasgasse
Derradeira cena que não se filmasse
Ou se arrancasse as cordas do bandolim

Antes que a seresta uma voz cantasse
E se batessem as asas de um querubim
Como se apagasse luz de curumim
Ou se o tempo nunca mais passasse

Deixando só o vazio que o olho admirasse
Terra devastada, sem nenhum jardim
Samba que esqueceu o som do tamborim
Um reencontro em que não se abraçasse

Ou nele se beijasse lábios de manequim
Como se um poeta nunca mais amasse
E se a lembrança que o habitasse
Fosse a estória bela que não teve fim 


Fábio Roberto

HEIN?

Faço poemas pras Musas
-Sacana!
Chamo uma puta de puta
-Canalha!
Digo-me maldito errante
-Psicopata!
Tinjo-me de suavidade
-É gay!
Cortejo quem me atrai
-É casada!
Desdenho quem me enoja
-Vai lá!
Agrido quem merece
-Violento!
Revelo as verdades
-Tarado!
Vomito a sociedade
-Hipócrita!
Isolo-me nas festas
-Estranho!
Sorrio pra desgraça
-Interna!
Choro um romance
-Piegas!
Acendo uma paixão
-De novo?
Esqueço uma paixão
-De novo?
Tranco o coração
-Que é isso?
Faço uma canção
-Trabalha!
Brindo por viver
-É bêbado!
Distraio-me sonhando
-Drogado!
Desejo só morrer
-Suicida!
Eu olho para frente
-É surdo!


Fábio Roberto

DEUSA

Ainda não sei o sabor
Do beijo que ontem sonhei
Passeando pela paisagem
De mãos dadas com uma deusa

Eu lembro que havia o canto
Da natureza espantada
Com a paixão que nascia
E o coração desejava

Os pés nem se cansavam
Amantes assim flutuam
Parecia tudo real
Os olhos clareando a noite

Não precisamos palavras
O sentimento entendeu-nos
Aquecendo em abraço tão forte
Que a vida se despertou

Movimentando a lua
Do céu para outro tempo
Nascendo um dourado dia
Feliz por abrir os olhos

E admirar o teu rosto
Sorrindo e era apenas sonho
Lugar onde eu te beijei
E onde eu sei o teu gosto


Fábio Roberto

09.08.17

UMA

Eu bebo muito. Falo exacerbadamente. Emudeço eternidades. Ninguém me alcança. Mas você canta e eu me ultrapasso.  Faço músicas compulsivamente. Tenho tesão de tarado. Escrevo insanamente. Bebo muito. Tenho pique pra 24 horas de papos ou trabalhos. Mas não tenho 24 horas. Sou um segundo.  Tenho ansiedade. E mantenho a calma porque morri a pressa.  Não tenho ódio. Apenas sou revoltado com este mundo medíocre. Bebo pouco pelo que tenho de sede. Vivo pouco pelo que tenho vontade de viver. Sonho muito pelo que tenho de vida. Bebo bastante. Tenho sede que não passa. Tenho fome de canibal. Animal. Uivo e sou gente.  Eu sou ninguém.  Sou tudo. Sou mais intenso que fogo. Fico de fogo, mas sóbrio. Sóbrio eu enlouqueço. Sou além de nada. Eu amo. Eu te amo. E amei além de paixão. Amor. Amorte. Eu me queimo e quem chega perto queimo violentamente. Mente. Minto. Eu sou todo verdade. Tem mulher que acendi e vai ferver eternamente. Tem mulher que me apaguei. Nenhuma me apagou. Bebo muito. E te beberei toda.  Você ta chegando agora. Muito prazer, este sou eu. Saiba. Eu te desejo tanto que vou fazer mais uma canção de amor. Só prá você.

Fábio Roberto

O ANO NOVO

O Ano Novo resolveu não nascer. De soslaio perscrutou o ambiente e resolveu continuar no casulo. Não gostou de nada do que viu. Que adianta chegar e tudo ser igual ou pior? Para que novamente tantas falsas promessas ou esperanças que seriam frustradas? Que ficasse tudo como estava, o Ano Velho se perpetuando coberto de insensatez, injustiças e maldades. Quem sabe a realidade se tornando tão cruelmente perene, pudesse em algum momento a vida sorver com a língua suas lágrimas.

Decidido e irredutível, o Ano Novo fechou os olhos e adormeceu na manhã do último dia do Ano Velho. Este, ancião em frangalhos e com a alma carcomida pela dor, desesperou-se e gritou implorando descanso aos céus. Os Senhores do Tempo, subitamente surpreendidos pela inusitada ação do Ano Novo, convocaram uma reunião com todos os Anos Antigos, que estavam muito mais antigos, pois desde que o mundo se tornara mundo um se somava ao outro sem recesso, portanto o ano I era o Pai de Todos. O Pai de Todos os anos falou aos Senhores do Tempo que aquilo era inadmissível, um absurdo, uma afronta. Como aquele rebento que nem saíra ainda das entranhas da mãe eternidade se rebelava contra a lógica da existência? Exigiu uma providência enérgica falando em nome de todos os Anos Antigos e principalmente pelo Ano Velho atual, que tremia em espasmos desesperados, numa espécie de Parkinson aflorado pelo medo. Mas o que os Senhores do Tempo poderiam fazer? Não havia como obrigar o Ano Novo acordar se ele não quisesse. A situação foi piorando e ficando catastrófica, pois no planeta os preparativos para as festas da virada do ano prosseguiam despreocupadamente, até que o Ano Velho avisou que exatamente à meia-noite também adormeceria para o horizonte.

E assim aconteceu. Sob os olhos estupefatos dos Senhores do Tempo e defronte aos boquiabertos Anos Antigos, o Ano Velho deitou-se em nuvens ao lado do Ano Novo, apagando-se rapidamente. Silenciosos e num sono profundo, ambos passaram a sonhar o mesmo sonho: um tempo que merecesse ter continuidade. Ninguém ainda percebeu que desde aquele dia o ano não muda, não vai pra frente nem retorna. E os dois ainda estão lá, sonhando. Quem sabe desta vez, quem sabe desta vez o Ano Novo acorde...

Fábio Roberto

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A EXPERIÊNCIA

Nos tempos de outrora certamente fui um notório pistoleiro e assassino. Atirava primeiro para perguntar depois. Porque hoje as pessoas de imediato me encantam ou irritam e muito mais me irritam que encantam. Claro que existiram aquelas que me encantaram de imediato e depois me irritaram eternamente. E outras que mesmo tendo recrudescido o encantamento inicial, aí sim, pacientemente, entabulamos um namoro até a paixão se restabelecer. Mas o fato é que meu encantamento e minha irritação inicial dificilmente erraram e erram.
Mas com o passar dos anos, após tantos relacionamentos amorosos ou somente sexuais, filhos, netos, trabalhos, desempregos, mortes, festas, músicas, amizades, inimizades, poesias, alegrias, decepções, idas, vindas e paradas, a sabedoria da velhice está se aproximando e então percebi que não precisava ser como eu era:
bastava atirar e nem perguntar depois!
Fábio Roberto

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Do Livro das Letras - SEM MOTIVO (2008) (canção perdida)

Madrugada assiste o meu cansaço
Vislumbro qual destino em um bocejo
Pergunto a mim mesmo o que desejo
Viver ou adormecer feito um bagaço
Cítrico de suco já espremido
Crítico de sangue já exaurido
Artístico de um palco escarnecido
Artrítico de um corpo envelhecido
Escolho não saber mais quando vivo
Procuro nem saber se adormeço
E fico assim parado sem motivo
Olhando pro infinito até que esqueço

Fábio Roberto

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

DO livro das Letras - Aqui Jaz

AQUI JAZ – Fábio Roberto

Marcha fúnebre criada para os mortos vivos, aqueles seres que foram devorados pela insalubridade dos seus destinos e permanecem perambulando, trabalhando, comendo, respirando e existindo sem presente ou futuro. Apreciava apresentar a canção em momentos festivos e alegres dos eventos, transtornando as mentes, amarelando os risos, deixando o clima sombrio, lúgubre e silencioso. Alguns mortos vivos despertaram e abriram os olhos momentaneamente nessas ocasiões, para depois voltarem ao sepulcro de seus próprios corpos.

AQUI JAZ (musicada em1980)
Um céu escuro,
Raivoso,
Colérico.
Flores mortas pelo caminho
Tétrico,
Tenebroso.
O som está mudo.
Não há choro
Neste funeral resignado.
Nem as moscas se aproximam
Do cadáver de um vivo.


Fábio Roberto