sexta-feira, 28 de julho de 2017

Do Livro dos Destinos - DESTINOS

O poeta escreve o que vive, o que gostaria de viver, o que sente, o
que sentirá, o que vê ou irá ver, o que passou, o que sabe e o que
nunca saberá.

O destino do poeta é buscar as palavras mais bonitas, perfeitas e
simples para reproduzir a emoção de viver e amar.

Hoje, especialmente hoje, só neste instante, neste milésimo de
segundo e nunca mais talvez, não tenho vida para escrever, não
gostaria de viver nada, nada sinto ou sentirei, nada vejo ou verei,
nada passei, nada sei e nada soube.

Um poeta assim é um poeta sem palavras e ironicamente um
poeta sem palavras nem mais poeta é para poder reproduzir a
emoção de viver e amar.

Então encerro agora todos os destinos com o meu, o meu destino
de ser sem destino. E como não tenho destino algum, nem palavras,
calo minha voz e fecho os meus olhos.

Vou me deixar conduzir para onde o vento leva as folhas que
caem das árvores. Irei junto como uma folha de papel em branco.

Quando outro vento qualquer, por um capricho do destino, me
trouxer de volta, serei poeta de novo e trarei palavras vivas em
minha folha de papel.

Destinos...



Fábio Roberto



Do Livro dos Destinos - LÁTEX

A vida é um elástico.

Você pode com ele prender cabelos ou grana, por exemplo.
Pode utilizá-lo como arma que atinja alvos para machucar ou feito
catapulta que faça um aviãozinho de papel voar sonhos de
crianças.

De repente vira uma pulseira se o pintarmos bem colorido.
Ou é apenas um elástico insípido numa caixinha cheia de elásticos,
depositada numa escrivaninha qualquer.

Mas essencialmente continua totalmente flexível.

Parece com os nossos sentimentos em relação ao cotidiano.
Êxtase. Desespero. Alegria exacerbada. Depressão profunda.
Decepção. Esperança.

Tristeza é ser estático. O futuro é dinâmico sempre e pra sempre.
O agora já está passando.

Respirar é tempo imprevisível. Melhor que seja assim.
A vida ser um elástico.

Fábio Roberto

Do Livro dos Destinos - LONGEVIDADE

Se não existir pelo menos um olhar para admirar a paisagem,
tanto faz que seja bela ou disforme.
Será uma paisagem, apenas, uma paisagem qualquer ou nem
mesmo paisagem.

Assim como a minha vida sem você.
Tanto faz que seja lúgubre ou venturosa,
rotineira ou súbita.
Não importa a longevidade.
Será uma vida, apenas, uma vida qualquer
ou nem mesmo vida.

Saudade.


Fábio Roberto

Do Livro dos Destinos - VIDAS

Gatos devoram ratos. Se os gatos têm sete vidas e cada vez
aparecem mais ratos do que gatos é óbvio que os ratos têm catorze
vidas.

Nesse caso, se perguntarem para um condenado à morte por
crimes hediondos se ele é um homem ou um rato, certamente ele

preferirá dizer que é um rato.

Do Livro dos Destinos - IMAGINAÇÃO

Voar era só para os pássaros até o homem
dar asas à imaginação.
Se os pássaros derem imaginação às asas,
os homens os alcançarão?
Fábio Roberto

Do Livro dos Destinos - Árvore

Uma árvore seca, sem folhas, é sombra da sombra que fazia.

Mas a sombra da árvore não é a árvore, não existe sem ela, não tem raízes.

Uma árvore seca continuará sendo uma árvore até morrer, como um homem velho, árvore seca, sombra da sombra, terá sempre a raiz fincada em sua estória de homem.


Fábio Roberto

Do Livro dos Destinos - Bola

Uma bola é assassina para a vidraça.
Para o menino a bola é brincadeira.

Se a brincadeira do menino for chutar a bola na vidraça,
o menino será assassino também.

À vidraça restará esperar a morte e renascer vidro blindado.


Fábio Roberto

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Do Livro dos Destinos - FUSÃO

Um mar, através das suas ondas, viaja pelo planeta até as areias de uma praia. As ondas são a alma desse mar e as areias a alma dessa praia.

As ondas às vezes chegam violentas e cobrem as areias da praia num intenso beijo, ondas, beijo, ondas, beijo, ondas...

As areias, quando isso acontece, calmamente passam a ser o chão do mar e desaparecem para as visões superficiais, mas estão lá, mesmo submersas.

A praia, o mar e suas almas se entendem, se completam, se confundem, para se fundirem num só.

Poucos homens, mulheres e suas almas se compreendem, se respeitam, se amam e se fundem feitos a praia e o mar.



Fábio Roberto 

Do Livro dos Destinos - CATAVENTO

Um catavento sem vento nenhum não tem qualquer sentido.
Um homem sem nenhum amor tem uma vida sem sentido.

Uma leve brisa movimenta o catavento e então ele passa a ter vida e sentido. Um homem ao conhecer o amor sorri e passa a ter uma vida com algum sentido.

Um catavento gira em plenitude quando venta forte. Um homem vive em plenitude quando ama intensamente.

O catavento, quando venta um tornado, voa e gira com ele, mistura-se ao vento e deixa-se levar ao céu. O homem, quando vive uma paixão, descobre porque vive, vive a essência da vida, torna-se a própria vida.


Pena que um homem sem amor e paixão possa com um simples assopro fazer girar o catavento...


Fábio Roberto

terça-feira, 25 de julho de 2017

Do Livro dos Destinos - Pedra

Uma pedra não tem vida, não tem coração.
E corações de pedra, então, também não têm
vida.
Quem atira a primeira pedra não tem nem
coração de pedra, porque atira a pedra e o
coração juntos.
E sem pedra, coração e vida nunca entenderá
o destino ser apenas uma metáfora.

Fábio Roberto

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Do Livro dos Destinos - Gaiola

Uma gaiola com pássaro dentro é cruel.
Uma gaiola sem pássaro nenhum é imbecil.
Triste o destino de uma gaiola:
ser cruel ou imbecil quando só queria ser gaiola.
Fábio Roberto

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Do Livro dos Destinos - AMIGOS

O cão é o melhor amigo do homem e só precisa de carinho
brincadeira, comida, água, passeio e cuidados com a saúde 
para ter uma vida feliz.

O homem não é o melhor amigo do cão, nem é o melhor amigo do
próprio homem.

Ao homem a felicidade não chega por nunca estar completa,
tamanhas são as suas necessidades e anseios.
Falta permanentemente alguma coisa.

Ao cão, que não raciocina mas sabe não ser dono de nada,
a angústia vem ao perder o dono.

Ao homem a angústia vem ao pensar ser o dono da razão
e porque não entende, como o cão, que não é dono de nada.


Fábio Roberto

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Do Livro das Frases, Questões e Trocadilhos

Mulher
Uma mulher é importante mesmo para você quando ela nem te faz falta, faz pênalti!
Sono
Dormir é a ressaca da vida e o aperitivo da morte.
Aperto
Para quem está com diarréia mais vale um penico do que um banquete.
Faminto
Para quem está com fome mais vale um ovo estrelado do que um céu idem.
Otorrino no Teatro
Cera ou não cera, eis a questão!
Depende
Quando eu otimista posso. Quando pessimista poço...
Depois da Chuva
A quem interessar, poça.
Nosso Tempo
O Tempo é Relativo. A Falta de Tempo é Absoluta.
Bebum
Vaca bêbada é que é esperta: vai pra breja e não pro brejo.
Páscoa
O coelho não briga quando está em páscoa coelha.
Alfândega
Quanto mais se vive mais se apreende.
Pés
Meias verdades vestem pés atrás.
Futuro
Se o futuro a Deus pertence, quem está cuidando do presente?
Vida
Sexo é melhor do que viver.
Pneumonia
A tosse é o pulmão cagando.
Batida
Se o galo bater a cabeça nasce uma redundância...
Solução
Seja otimista. Os seres humanos têm solução sim: a extinção!
Sacanagem...
É na hora de pagar a puta o cara ficar puto.
Conveniência
Até para um machista tem hora que mais vale um rei do que uma dama.
Saara
Num deserto de idéias, criatividade é miragem.
Futebol
Quem tem pressão alta não deve exagerar no futsal.
Lema de Puteiro
Aqui se faz, aqui se paga.
Problema
Você deve encarar o problema de frente, a não ser dor nas costas.
Padre
Celibato punhetas!
Ironia mesmo...
É um bombeiro morrer e ser cremado.
Fábio Roberto

quinta-feira, 13 de julho de 2017

INSANO

Insano é o coração que nega o que sente
Por isso dizem que eu nem pareço gente
Sou mesmo um selvagem, forasteiro bicho
Que se apaixona inteiro, incondicionalmente
De jeito perigoso e talvez doente
Jogando sociedade e convenção no lixo

Mas se fechar os olhos e estiver me vendo
É desejar o amor e deixá-lo doendo
Escrevo, canto e se duvidar desenho
Em ti a tatuagem por sobre o remendo
Da alma machucada e quem sabe me lendo
Verás que sou assim e é tudo o que tenho


Fábio Roberto

quinta-feira, 29 de junho de 2017

PONTO DA SURPRESA

estou cansado mas não consigo e não quero parar então continuo e vou indo sem pausa sem reabastecer as energias sem acomodar o corpo sem fechar o olhos sem esticar os ossos numa cama ou chão e com os meus músculos rígidos sem relaxar sigo adiante sem interrupção sem repouso pois não há intervalo para afrouxar os passos ou motivo para diminuir o ímpeto de ir em frente e assim vou sem suspender o ritmo das pernas que andam nesse compasso rápido sem se deterem por nada com a mesma intensidade sem decrescerem a velocidade sem sustarem o movimento sem cessarem a ação portanto eu nem olho para trás para não perder um segundo sequer de espaço futuro caminhando assim sempre ao além do possível além das forças além da vida além do sonho para chegar ao ponto de descanso e com a vontade de ultrapassar todos os limites prosseguir para mim não existe ponto final vírgula ou reticências e só vou parar numa exclamação de alegria ou dor

 Fábio Roberto

quarta-feira, 7 de junho de 2017

O OLHAR

Quem irá entender as minhas palavras sem que passe pela cabeça que eu sou uma atitude vaga e penso sempre antes do momento existir?

Não tenho tempo para explicar o tempo do meu desgaste.

Não sou um bom amigo para beber cervejas sem falar bobagens próprias ou filosofar sobre uma frase de Thoreau.

Não sou um bom amante se não devorar a alma de quem amo e me entregar às mãos dessa amada como se ela fosse Deus.

Plantei filhos e para eles não transmiti mentiras sociais, para que pudessem colher da arte o alimento supremo na realização plena de suas vidas.

Eu sou um descasamento, sou certamente um errante. Um materializador de sonhos. Um destruidor de sonhos. Um pesadelo que faz sorrir.

Não sou um compositor de jingles, mas poderia colocar uma pimenta no seu doce de coco e vendê-lo como pipoca. Cantando.

Tenho medo de dor de dente, tenho medo de dor
no dedo, tenho medo de cebola.

Não tenho medo da morte, mas não a aceito agora, sem antes encontrar com o meu destino cara a cara com a faca na boca, a caneta na mão e um papel em branco para mostrar a ele que a poesia não precisa assistir ao por do sol ou a uma luta.

Ou será que um cego não pode ser poeta?

Mas não seria a morte encontrar-se finalmente com o destino?

Eu sei de tudo o que vivi ontem.
O meu ontem foi muito mais do que todas as vidas de muita gente.

Nossa, como sou arrogante!
E agora estou calmo demais.

O futuro está nos meus olhos.
O futuro está nos teus olhos.
Resta saber para onde iremos olhar.

Fábio Roberto


sexta-feira, 2 de junho de 2017

AMAR

Eu penso que amar é para fracos
que se despedaçam em cacos.
Gente que precisa de muleta
pro coração
não ficar jogado na sarjeta
da emoção.
Gente que se vê sem par
e logo corre pro bar
para afogar mágoas,
onde garrafas viram taboas
de náufragos num mar
de solidão.
Abandonam até o lar
na imensidão
de uma tristeza tão dolorida,
maior do que cabe na vida.

É por isso que sou forte
e não amo. Amor é morte.
Vou ao bar beber sem agonia.
Não importa se estou só,
pois mais dia menos dia
todos viraremos pó.
Resistirei, então, eterna e bravamente
a este sentimento
vagabundo, podre e insolente
que me ataca neste momento,
tirando dos meus olhos a cor:
a vontade de amar-te desesperadamente,
como se condenado fosse ao amor.
O que me mataria certamente,
como um inseto mata uma flor.

Devorando-a inteira e lentamente.


Fábio Roberto

quarta-feira, 31 de maio de 2017

À BAILARINA

Mulher dos sonhos transparentes,
lascivos e indecentes,
construídos na paixão.
Mulher, aceito a tua dança
formando aliança
com nossa ilusão.
Abraço a fome do teu corpo,
disfarço e bebo a tua dor.
Cansaço e mágoa de um morto,
faço-me assim o teu consolador.
Mulher, não se ama impunemente,
mesmo que a gente tente
não há como escapar.
Mulher, deixaste a tua lembrança
no beijo que ainda alcança
e torna-nos um par.
Apague essa realidade.
Negue ser de um deus cruel.
Faça em mim tua vontade.
Nasça a tua vida neste céu.

Fábio Roberto
(Poema do conto “A Bailarina, o Barman e o Pianista”)


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Os Olhos Da Lua - Raissa


Pequena criatura
Os olhos da lua te mostram o caminho
De outra missão
Corrente de água começa outro mar

A vida não esquece
Se em alguém permanece raiz e saudade
Morrer não é morte
Saudade é transporte

Agora tua festa de rabo-sorriso
É de estrela em estrela, passeio bonito
Coleira de nuvens
Tão grande o teu novo lar

Pequena criança ouviu o assobio
O chamado, o pedido desse outro amigo
Pois guarde esse dono (o dono do mundo)
Tal como comigo precisa tua brincadeira

Raízes de um coração
Não batem, só brilham
Não batem, só brilham

Não bate, só brilha



Fábio Roberto (musicado em 1983)

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

FILME

Longe de paixão ou sentimento
Lua minguante de inspiração, desejo
Sedento de estória, grua sem movimento
Pés devorados pela estrada, pejo

Desprotegidos olhos apagados
Desprovidos de esperanças ou medos
Palavras ao vento, sonhos enrugados
Trancafiando cantos, rimas e segredos

No coração do tempo ou do esquecimento
Verdade que na alma é o sangue que derrama
Dor do ator que não foge de comédia ou drama

Personagem sem roteiro, partitura, alento
A vida acorda e adormece sua arte no cimento
Perdeu a fama e cena no último fotograma



Fábio Roberto

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

ETERNIDADE

Uns têm história pra lembrar,
outros para esquecer.
Alguns têm vida pra cantar,
outros para emudecer.
Tudo não passa de um momento.
No éter fica todo sentimento
lindo, forte, intenso e imponente
relâmpago no céu da minha lente.


Fábio Roberto

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

DRAMA

O que há de se fazer quando a paixão morre
Além de poetizar uma canção e o porre
Sempre foi assim e assim será depois
Do próximo amor que nem chegou, já foi


Fábio Roberto

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

EPITÁFIOS

Rico: o futuro... adeus, pertences! 

Sovina: Deus me pague! 

Ateu: há...deus? 

Pobre: lápide retirada por inadimplência 

Gay: já dei o que tinha que dar

Devedor: devo, não nego, vem aqui me cobrar

Modelo: meu esqueleto veste um terno Giorgio Armani

Fumante: estou na área reservada para fumantes

Atleta: bati o meu recorde sem respirar!

Bombeiro: cheguei tarde, só restaram cinzas...

Pescador: tantas minhocas, mas cadê a vara?

Ansioso: já fui tarde

Incrédulo: isto não está acontecendo

Otimista: passei desta para melhor

Viciado: do pó ao pó e vice versa

Convencido: meus pêsames pra vocês

Marinheiro: terra à vista!


Temer: não renuncio à vida

Moro: tenho convicção que morri

Dilma: porque morte é morte, vida é vida e cada um é uma coisa

Lula: o comunismo se fidel!

Odebrecht: a obra deste jazigo foi realizada sem propina e aprovada pelo PMDB... 

Faroberto

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

PANDORA

Hoje o meu poema não é triste,
tampouco minha música alegre.
Mais rápido que os dedos num tuíte.
Lentamente quanto amor que desintegre.

Hoje é assim um quase ou quase nada,
tal como estar de fraque e ser um pária.
Fugaz como o amor que se evada.
Eterno como a voz em uma ária.

Não sei se é hoje o tempo desta história.
Sei lá se estou vivendo este agora,
ou se é um pesadelo da memória.

Pergunto ao céu se fico ou vou embora.
Não sei se é fuga, encontro, paz ou glória,
mas fecho-me na caixa de Pandora.


Fábio Roberto

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

A MOSCA

O tempo parece estar parado. Nada se moveu por uma eternidade até uma mosca pousar subitamente em meu nariz. Não sei por que não consegui mover braços para espantá-la, quando lembro imediatamente da canção “eu sou a moscaaaaa...”. A Brachycera voou e o tempo pareceu parado outra vez, mas há um ventilador girando segundos lentamente. Tão lentamente que não sinto o vento que ele faz. Aliás, nem sinto calor. Percebi que nem pisco, afinal o tempo parece não passar. Somente a mosca vai e volta. Ela tem asas e olhos enormes que me fitam fixamente, assim tenho certeza de que o tempo está inerte. Nos brilhantes olhos da mosca vejo refletido um ambiente morto. Como se fosse um fúnebre desenho. Mas não sei como é possível haver movimentos numa imagem estática. Como pode a mosca voar e o ventilador girar, mesmo malemolente, com o tempo e tudo mais imóvel? Por que não levanto, balanço pernas ou simplesmente grito? Descubro agora o motivo dos meus olhos não piscarem. Eles estão fechados como a porta que também se fecha, não antes de alguém desligar o ventilador e apagar as velas. Aqui somente a mosca continuará voando até cumprir seus trinta dias de vida e o tempo definitivamente parar. 

Fábio Roberto







sábado, 15 de outubro de 2016

EVOLUÇÃO

No fundo do poço existe outro poço e outro fundo do poço onde existe outro poço e outro fundo do poço.
E assim,
Sucessivamente.

Lenta,
Muito
L  e  n  t  a  m  e  n  t  e,
Nessa jornada ao inverso da vida haverá o revés do passo, pois que a vida não tem fim.

E será assim,
Sucessivamente,
Até que não existam poço e fundo do poço onde existam outro poço e outro fundo do poço e outro poço,

Que só restará a opção de subir.


Fábio Roberto

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

SEDE

Pode a palavra apagar
Pode o canto emudecer
Mesmo se o dia dormir
Sem que haja anoitecer

Pode parar de brilhar
Uma estrela a morrer
Um rio não mais navegar
E a saudade esquecer

Nossa história

Eu lembro como se fosse agora
Cravei as mãos nas tuas costas
Deixando dor/prazer marcados
No corpo que era a minha cama

Gemidos congelaram as horas
Os gritos excitaram as velas
O fogo mordendo os lençóis
Deu Sede que bebi teus lábios

Fábio Roberto
Escrito e musicado em 2011




terça-feira, 23 de agosto de 2016

TUMBA

Cansado desta poesia maldita que dilacera as palavras,
o coração e transcende à alma.
Não há como criar novas canções.
Os temas se repetiram, repetiram, repetiram
na constante perversa de uma vida e sua incógnita.
Pois, sim, existe vida após a morte.
Mas não sei o que existe antes.
Seria tudo um pensamento ou um espasmo,
 um flash, o último piscar dos olhos do tempo?

Sem resposta as musas, também cansadas desta poesia maldita
que dilacera as palavras, as canções, o coração e transcende à alma,
recolheram-se ao interior das suas asas que nunca mais abrirão.

E assim resta apenas o silêncio cinza e austero de uma tumba confortável e bela,
onde dormirá eternamente toda e qualquer inspiração.



Fábio Roberto

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Rumos e Rimas:

o poeta vive em agonia. Semelhante a um médium vê a vida, pode amá-la, mas não pode alterar os seus rumos. Depois que a poesia nasce o poeta não pode nem mesmo mudar as suas rimas.


Fábio Roberto 

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Cemitério de Leões

A selva não mais me alimenta.
Nem a carne, nem o espírito.
O rio secou água da lenda.
Caíram árvore, sombra e mito.

Rugido não mais ecoa forte.
A caçada terminou em armadilha
Uma feroz espera pela morte.
A sílaba que faltou na redondilha.

Assim, façam a festa abutre e hiena.
Meus ossos vão voltar à natureza,
como se fossem a dor de uma gangrena
que devorou a alma da tristeza.


Fábio Roberto


sábado, 26 de março de 2016

BILHETE ÚNICO

Certas pessoas não passam pela nossa vida
Certas pessoas passam pela nossa vida
Certas pessoas não passam vida
Certas não pessoas passam
Certas pessoas não passam
Incertas pessoas
Incertas vidas
Certas vidas
Passam



Fábio Roberto

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

PEDINTE

Solitária régua sem compasso,
incapaz de desenhar a curva.
Rio morto aguardando chuva.
A marcha que perdeu o passo.

Palavras numa boca muda.
Estória nunca terminada.
Terra livre, fértil e não lavrada.
Mãos ágeis que o vazio saúda

Coração novo e enferrujado.
A vida ausente de esperança.
Um mundo frio e inabitado

e mesmo assim na esquina dança,
memória de céu estrelado:
carrega o olhar de uma criança.


Fábio Roberto

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Poema de Ano Novo

Ter esperança é lindo
e simultâneo ínfimo
quando o futuro findo
quando desespero íntimo

Ter esperança de novo
roda da vida roda
quando o futuro é corvo
quando o presente é foda

O que se sabe hoje
nunca se soube agora
vomito tudo fora

entranha que me foge
sorriso de outrora
mundo que me enoje



Fábio Roberto

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Pedidos de Natal de...

criança pobre: banquete
baterista: baquetas
tarado: boquete

guloso: muito peru
goleiro: nenhum peru
peru: nenhum natal

humilde: votos de boas festas
padre: votos de castidade
político: votos

pobre: saúde
remediado: trabalho
rico: grana

homem: uma mulher
mulher: um homem
bi: os dois

crianças: presente
saudosos: passado
velhos: futuro


papai noel: renascer super herói da marvel 


Fábio Roberto

domingo, 18 de outubro de 2015

Ciclo Número Dois

Vozes emudecidas
Violões sem cordas
Cordas sem pescoço

O cérebro amortecido após tecido o sonho
Após ter sido o sonho um sonho

Um vazio
Um imenso, profundo e solene vazio
O silêncio escuta o grito
O delírio queima no ar

Copos e corpos inertes
Mortos a respirar
O brilho
Derradeiro suspiro
O futuro da morte:
o início

Fábio Roberto
(Musicada em 1987)

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

TRADIÇÃO

Não chore a cerveja derramada.
Saiba, ela vai pro Santo.
Espírito que espreita em todo canto,
com a boca sedenta escancarada.

Coitado, o paraíso não tem cerva.
Bebe-se só néctar dos deuses,
ao som de líricas berceuses
e ele preferindo uma erva...

Por que foi ser honesto, sem pecado?
Agora, bar em bar caminha errante,
sóbrio, consciente, inconsolável.

Passo sem futuro, flutuante.
Prazer eternamente insaciável,
olho de zumbi, arregalado.


Fábio Roberto

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Sorriso

Viver é doloroso
Por isso o poeta sofre
Nasceu audacioso
Sua sorte jaz num cofre

Viver é doloroso
Por isso o poeta canta
Faz-se de corajoso
E das tumbas se levanta

Viver é doloroso
Por isso o poeta escreve
Um texto pecaminoso
Até isso ele se atreve

Viver é doloroso
Por isso o poeta ama
Cada dia milagroso
Ao lado da sua Dama

Viver é doloroso
Por isso o poeta cansa
E num gesto majestoso
Despede-se numa dança

Mas ele vai sorrindo
Quase inda esperançoso
Por isso o poeta findo
Viver é doloroso



Fábio Roberto

domingo, 5 de julho de 2015

Canção de Cecília e Alice

Crescer
Todo dia crescer
Nascendo
O que ainda vamos ser
O sol
Nos iluminará
A noite
Nos aconchegará

Abraça-nos com um sorriso
o amanhã
Faremos cada adulto
Aprender
Crescendo dia a dia
Como nós
Adultos nada sabem
De nascer

Crescer
Todo dia crescer
Nós duas,
Nossa mãe, nosso pai
Amor,
A poesia do lar
A paz,
Repousando no ar

Faremos gente grande
Compreender
Que o mundo é bem mais simples,
Basta ver
Que os velhos também passam
A depender
De mãos e de cuidados
Pra viver.     
         

Fábio Roberto