quinta-feira, 7 de setembro de 2017

TRADIÇÃO

Não chore a cerveja derramada.
Saiba, ela vai pro Santo.
Espírito que espreita em todo canto,
com a boca sedenta escancarada.

Coitado, o paraíso não tem cerva.
Bebe-se só néctar dos deuses,
ao som de líricas berceuses
e ele preferindo uma erva...

Por que foi ser honesto, sem pecado?
Agora, bar em bar caminha errante,
sóbrio, consciente, inconsolável.

Passo sem futuro, flutuante.
Prazer eternamente insaciável,
olho de zumbi, arregalado


Fábio Roberto


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

PAPO NA MADRUGADA

Sono: olá.
Eu: você por aqui?
Sono: só uma passadinha.
Eu: fica mais um pouco!
Sono: não dá (e ainda sai bocejando).
E eu, com olhos de zumbi, vejo o sono ir embora...


Fábio Roberto

PANDORA

Hoje o meu poema não é triste,
tampouco minha música alegre.
Mais rápidos que os dedos num tuíte.
Lentos quanto amor que desintegre.

Hoje é assim um quase ou quase nada,
tal como estar de fraque e ser um pária.
Fugaz como o amor que se evada.
Eterno como a voz em uma ária.

Não sei se é hoje o tempo desta história.
Sei lá se estou vivendo este agora,
ou se é um pesadelo da memória.

Pergunto ao céu se fico ou vou embora.
Não sei se é fuga, encontro, paz ou glória,
mas fecho-me na caixa de Pandora.


Fábio Roberto


VONTADE

Do Livro das Letras 

VONTADE (musicada em 1981)
Esse sentimento dá vontade
Da vontade de morrer
Esse sentimento da vontade
Dá vontade de explodir
Esse sentimento dá vontade,
Dá vontade de você
Esse sentimento da vontade
Dá vontade de sorrir,
Da vontade de viver
Esse sentimento dá vontade
Da vontade de morrer
Esse sentimento da vontade
Dá vontade de gritar
Esse sentimento dá vontade
Dá vontade de você
Esse sentimento da vontade
Dá vontade de chorar,
Da vontade de viver
Fábio Roberto

ATENÇÃO

.

Não me chame. Estou desconcentrado em outra coisa agora.

Faroberto

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Do Livro das Letras - FEITO UM CIGARRO

A paixão que consome como um vício que dá prazer e ao mesmo tempo suga toda a energia do viciado é contada pela ótica do cigarro tragado por uma mulher. A metáfora do sentimento que arde, corrói, machuca, domina e contamina. E tudo acaba em um beijo que fica gravado na memória da alma, pois o cigarro é jogado ao chão feito a paixão que se apagou.

FEITO UM CIGARRO ( Musicada em 2009)
Você fala, mas sou eu quem arde.
Sou eu que aqui na tua boca queimo
e entre teus dedos vejo como é tarde.
Eu sou um vício, te domino e teimo

em acompanhar-te pela madrugada.
Eu te percorro, feroz sentimento,
mas te esvazio após cada tragada
e contamino até o teu pensamento.

Impregnado em ti o meu odor
e o meu suor, paixão que exalei,
tu me apagas, mas não apagas a dor.

Mesmo jogado ao chão, faço-me rei.
O teu baton, consciente e sonhador,
gravou em mim teus lábios que beijei.

Fábio Roberto


ZUMBIDO

Zumbido é um grito pichado no muro. A inquietude de viver, a solidão sentida neste planeta desconhecido, a procura deste compositor por seu destino e suas paixões. A letra foi feita após perambulações pela madrugada. A música chegou forte, mas veio depois, misturando ritmos nordestinos e rock, num pulsar valorizado e destacado pelo impressionante arranjo criado por Leandro Henrique.
Só um poeta do nível do Lê para traduzir através dos instrumentos esses sentimentos descritos. E também captados pelas lentes sensíveis de Guilherme e Rafael no clipe.

ZUMBIDO (2016)
Na calada da noite
Uma noite calada
Um açoite
Uma espada
Que voa e zumbe
Na encruzilhada

Há o olho que espreita
Há o olho esperto
Há aquele que aceita
Há o outro incerto
Há o olho no escuro
Há o que vê e não vê nada

Na noite calada
Nem o apito
Do guarda

Só um grito
Pichado no muro

Fábio Roberto: composição e voz
Leandro Henrique: produção, arranjo, mixagem e masterização
Instrumentos tocados por Leandro Henrique: violões, guitarras, baixo e bateria
Clipe dirigido por Guilherme Ferraro com fotografia de Rafael Barbosa




COLECIONANDO PARTIDAS

Embevecido com a imagem mitológica de Midas, o rei que transformava em ouro tudo que tocava, eu adaptei o mítico, convertendo-o numa espécie de Midas apenas trágico, cujo toque a tudo e a todos afasta, numa ferina metáfora sobre a inexorável diáspora do ser humano em torno do amor. Um tema recorrente na minha vida e nas minhas canções. 

COLECIONANDO PARTIDAS... (2008)
De quem foi
De quem vai e vem
Quem não vem nem vai
Quem nem sai
Quem diz oi
E quem nem...
Quem que dói?
Quem que quis também?
Quem corrói?
Qual ninguém?
Quem diz tchau
E quem nem...

Colecionando Partidas
Bem Vindas
Bem Idas
Bem Vidas
Partidas
Midas
Da Dor
Colecionador
Coleciona Dor

Márcia Salomon: voz – cd Minha Tribo
Fábio Roberto: composição
Leandro Henrique: violão 6 cordas
Edu Gomes: violão 12 cordas e produção
Olívio Filho: acordeon
Pedro Ito: percussão



terça-feira, 29 de agosto de 2017

MANTRA


Seja no mato ou cidade
O por do sol é lindo
Seja de fato ou saudade
O por do sol é lindo
Seja desacato ou verdade
O por do sol é lindo

Pode o dia amanhecer nublado
Pode estar chovendo no coração
O por do sol é lindo
Feito o amor infindo
E nem a noite deixará calado
O repetido verso desta canção:

O por do sol é lindo.
O por do sol é lindo.
O por do sol é lindo.


Fábio Roberto


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

ALADO


Qual era o rosto ou a voz que me dizia pra ir, mas eu não fui

ou apenas eu imaginava?


eu não sabia o rosto ou a voz, a ida ou a vida que seria.

e a voz cantava ou cantaria ou cantará me olhando de lado

alado

ou em um passado que nem aconteceria


diga-me se o futuro será assim tão amor

ou outro sonho transtornado, sem rosto ou voz.


diga-me a canção que eu faria.



Fábio Roberto

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

FOTOGRAMAS

AVISO
Este texto-filme contém líricas e cruas cenas de violência física e psicológica!

E naquele momento em que eu estava morrendo não passou um filme na minha cabeça. Nem um curta, nem um longa, nem uma série, ou musical, comédia, drama, aventura. Nem Fim foi escrito nos letreiros frente aos meus olhos. Nada vi. Simplesmente morri no filme tão lindo que nem existiu. Era um romance...

Tudo começou quando eu descia a Paracatu e você vinha com seu jeito desligado no sentido Jabaquara. E eu sempre distraído desta vez me atentei para o seu andar bailarino e sensual. Você foi se aproximando e eu tive certeza de que te conhecia, mas nunca houvera te visto. Até que passamos um pelo outro. Eu te admirei a beleza e fui completamente ignorado.

Quando você já estava a quatro passos além, estanquei os meus. Era estranho, mas eu sabia que tínhamos história. Não conseguia lembrar direito. Na minha cabeça éramos muito mais do que conhecidos. Tínhamos intimidade. Na realidade vivíamos aquela cumplicidade que só o tempo de convivência permite construir e solidificar na vida juntos.

Ao me despertar novamente você já se afastara quase meio quarteirão e eu ali estático, sem reação, desprovido de palavras ou idéias para que você me reconhecesse e percebesse o quanto éramos importantes um para o outro. A minha figura incomum e descabelada não poderia ser esquecida assim tão facilmente como se fora um transeunte qualquer, um mero indigente.

Você prosseguiu impávida, com passos impiedosos alcançando o próximo quarteirão enquanto eu, imóvel, me certifiquei que você era o amor da minha vida. Sim. A nossa paixão arrebatadora fora invejada e cantada pela cidade, versada em rimas ricas pelos poetas mais instigantes. Eu só não entendia o tamanho da sua frieza, como se nada houvera existido entre nós.

Os pensamentos embaralhados em minha mente, o coração despedaçado pelo desprezo que eu recebia após tantas juras de amor que devíamos ter feito um para o outro ao longo dos anos me transtornaram, mas nem assim consegui me mexer. E você já chegava à grande avenida, bem próxima da última esquina. Pensei em gritar o seu nome, mas eu não o sabia.

Antes que virasse a esquina eu tive esperança de que você parasse, me visse ali na calçada feito cão abandonado, olhasse nos meus olhos dando aquele sorriso que era exclusivo meu e flutuasse de braços abertos pra mim, momento em que soaria nas rádios uma sonata de Chopin emocionando o mundo, mas não. Você sumiu entre as pessoas que atravessavam a rua.

Aí o sangue subiu e me deu uma raiva! Quem era você pra me tratar daquele jeito? O que eu tinha feito para merecer aquilo? Havia me dedicado tanto, tínhamos sonhado um futuro tão bonito longe dessa loucura urbana que desvirtua os melhores sentimentos. E nossos filhos, nossa casa? O cérebro a mil, mas os meus pés se movimentaram em slow motion.

Quando cheguei esbaforido e cheio de ódio na Jabaquara você andava aceleradamente rumo ao metrô São Judas. Ah... mas eu te alcançaria. Você não fugiria assim impune e me considerando um lixo, a escória humana, um traste, um verme, um nada. Não sei como foi surgir uma peixeira em minha mão exatamente na hora em que comecei a correr desenfreadamente.

As pessoas me viram correndo de olhos esbugalhados com aquela faca na mão e assustadas gritaram pela polícia. Ninguém imaginava o quanto a gente tinha se amado, a intensidade da paixão que vivêramos. Não podiam entender que eu tinha plena razão pela minha revolta incontrolável. Eu não te conhecia, mas acreditava que tudo aquilo era a mais pura verdade.

Vendo-me ao lado, a expressão de pavor em seu rosto foi comovente. Que horror cinzento em seus olhos tão verdes. Tive a impressão que finalmente você me reconhecia e se arrependia tardiamente de me ter feito esse mal. O impressionante é que eu ainda não recordava de você. A faca já sentia o sabor do seu sangue quando seis balas de 38 estraçalharam o meu corpo.

E naquele momento em que eu estava morrendo não passou um filme na minha cabeça. Nem um curta, nem um longa, nem uma série, ou musical, comédia, drama, aventura. Nem Fim foi escrito nos letreiros frente aos meus olhos. Nada vi. Simplesmente morri no filme tão lindo que nem existiu. Era um romance...


Fábio Roberto


Inspirado em “Sui Generis” de Leandro Henrique                    

LÁBIOS DE MANEQUIM

Era bela a estória, mas não teve fim
Como se de um livro página rasgasse
Derradeira cena que não se filmasse
Ou se arrancasse as cordas do bandolim

Antes que a seresta uma voz cantasse
E se batessem as asas de um querubim
Como se apagasse luz de curumim
Ou se o tempo nunca mais passasse

Deixando só o vazio que o olho admirasse
Terra devastada, sem nenhum jardim
Samba que esqueceu o som do tamborim
Um reencontro em que não se abraçasse

Ou nele se beijasse lábios de manequim
Como se um poeta nunca mais amasse
E se a lembrança que o habitasse
Fosse a estória bela que não teve fim 


Fábio Roberto

HEIN?

Faço poemas pras Musas
-Sacana!
Chamo uma puta de puta
-Canalha!
Digo-me maldito errante
-Psicopata!
Tinjo-me de suavidade
-É gay!
Cortejo quem me atrai
-É casada!
Desdenho quem me enoja
-Vai lá!
Agrido quem merece
-Violento!
Revelo as verdades
-Tarado!
Vomito a sociedade
-Hipócrita!
Isolo-me nas festas
-Estranho!
Sorrio pra desgraça
-Interna!
Choro um romance
-Piegas!
Acendo uma paixão
-De novo?
Esqueço uma paixão
-De novo?
Tranco o coração
-Que é isso?
Faço uma canção
-Trabalha!
Brindo por viver
-É bêbado!
Distraio-me sonhando
-Drogado!
Desejo só morrer
-Suicida!
Eu olho para frente
-É surdo!


Fábio Roberto

DEUSA

Ainda não sei o sabor
Do beijo que ontem sonhei
Passeando pela paisagem
De mãos dadas com uma deusa

Eu lembro que havia o canto
Da natureza espantada
Com a paixão que nascia
E o coração desejava

Os pés nem se cansavam
Amantes assim flutuam
Parecia tudo real
Os olhos clareando a noite

Não precisamos palavras
O sentimento entendeu-nos
Aquecendo em abraço tão forte
Que a vida se despertou

Movimentando a lua
Do céu para outro tempo
Nascendo um dourado dia
Feliz por abrir os olhos

E admirar o teu rosto
Sorrindo e era apenas sonho
Lugar onde eu te beijei
E onde eu sei o teu gosto


Fábio Roberto

09.08.17

UMA

Eu bebo muito. Falo exacerbadamente. Emudeço eternidades. Ninguém me alcança. Mas você canta e eu me ultrapasso.  Faço músicas compulsivamente. Tenho tesão de tarado. Escrevo insanamente. Bebo muito. Tenho pique pra 24 horas de papos ou trabalhos. Mas não tenho 24 horas. Sou um segundo.  Tenho ansiedade. E mantenho a calma porque morri a pressa.  Não tenho ódio. Apenas sou revoltado com este mundo medíocre. Bebo pouco pelo que tenho de sede. Vivo pouco pelo que tenho vontade de viver. Sonho muito pelo que tenho de vida. Bebo bastante. Tenho sede que não passa. Tenho fome de canibal. Animal. Uivo e sou gente.  Eu sou ninguém.  Sou tudo. Sou mais intenso que fogo. Fico de fogo, mas sóbrio. Sóbrio eu enlouqueço. Sou além de nada. Eu amo. Eu te amo. E amei além de paixão. Amor. Amorte. Eu me queimo e quem chega perto queimo violentamente. Mente. Minto. Eu sou todo verdade. Tem mulher que acendi e vai ferver eternamente. Tem mulher que me apaguei. Nenhuma me apagou. Bebo muito. E te beberei toda.  Você ta chegando agora. Muito prazer, este sou eu. Saiba. Eu te desejo tanto que vou fazer mais uma canção de amor. Só prá você.

Fábio Roberto

O ANO NOVO

O Ano Novo resolveu não nascer. De soslaio perscrutou o ambiente e resolveu continuar no casulo. Não gostou de nada do que viu. Que adianta chegar e tudo ser igual ou pior? Para que novamente tantas falsas promessas ou esperanças que seriam frustradas? Que ficasse tudo como estava, o Ano Velho se perpetuando coberto de insensatez, injustiças e maldades. Quem sabe a realidade se tornando tão cruelmente perene, pudesse em algum momento a vida sorver com a língua suas lágrimas.

Decidido e irredutível, o Ano Novo fechou os olhos e adormeceu na manhã do último dia do Ano Velho. Este, ancião em frangalhos e com a alma carcomida pela dor, desesperou-se e gritou implorando descanso aos céus. Os Senhores do Tempo, subitamente surpreendidos pela inusitada ação do Ano Novo, convocaram uma reunião com todos os Anos Antigos, que estavam muito mais antigos, pois desde que o mundo se tornara mundo um se somava ao outro sem recesso, portanto o ano I era o Pai de Todos. O Pai de Todos os anos falou aos Senhores do Tempo que aquilo era inadmissível, um absurdo, uma afronta. Como aquele rebento que nem saíra ainda das entranhas da mãe eternidade se rebelava contra a lógica da existência? Exigiu uma providência enérgica falando em nome de todos os Anos Antigos e principalmente pelo Ano Velho atual, que tremia em espasmos desesperados, numa espécie de Parkinson aflorado pelo medo. Mas o que os Senhores do Tempo poderiam fazer? Não havia como obrigar o Ano Novo acordar se ele não quisesse. A situação foi piorando e ficando catastrófica, pois no planeta os preparativos para as festas da virada do ano prosseguiam despreocupadamente, até que o Ano Velho avisou que exatamente à meia-noite também adormeceria para o horizonte.

E assim aconteceu. Sob os olhos estupefatos dos Senhores do Tempo e defronte aos boquiabertos Anos Antigos, o Ano Velho deitou-se em nuvens ao lado do Ano Novo, apagando-se rapidamente. Silenciosos e num sono profundo, ambos passaram a sonhar o mesmo sonho: um tempo que merecesse ter continuidade. Ninguém ainda percebeu que desde aquele dia o ano não muda, não vai pra frente nem retorna. E os dois ainda estão lá, sonhando. Quem sabe desta vez, quem sabe desta vez o Ano Novo acorde...

Fábio Roberto

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A EXPERIÊNCIA

Nos tempos de outrora certamente fui um notório pistoleiro e assassino. Atirava primeiro para perguntar depois. Porque hoje as pessoas de imediato me encantam ou irritam e muito mais me irritam que encantam. Claro que existiram aquelas que me encantaram de imediato e depois me irritaram eternamente. E outras que mesmo tendo recrudescido o encantamento inicial, aí sim, pacientemente, entabulamos um namoro até a paixão se restabelecer. Mas o fato é que meu encantamento e minha irritação inicial dificilmente erraram e erram.
Mas com o passar dos anos, após tantos relacionamentos amorosos ou somente sexuais, filhos, netos, trabalhos, desempregos, mortes, festas, músicas, amizades, inimizades, poesias, alegrias, decepções, idas, vindas e paradas, a sabedoria da velhice está se aproximando e então percebi que não precisava ser como eu era:
bastava atirar e nem perguntar depois!
Fábio Roberto

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Do Livro das Letras - SEM MOTIVO (2008) (canção perdida)

Madrugada assiste o meu cansaço
Vislumbro qual destino em um bocejo
Pergunto a mim mesmo o que desejo
Viver ou adormecer feito um bagaço
Cítrico de suco já espremido
Crítico de sangue já exaurido
Artístico de um palco escarnecido
Artrítico de um corpo envelhecido
Escolho não saber mais quando vivo
Procuro nem saber se adormeço
E fico assim parado sem motivo
Olhando pro infinito até que esqueço

Fábio Roberto

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

DO livro das Letras - Aqui Jaz

AQUI JAZ – Fábio Roberto

Marcha fúnebre criada para os mortos vivos, aqueles seres que foram devorados pela insalubridade dos seus destinos e permanecem perambulando, trabalhando, comendo, respirando e existindo sem presente ou futuro. Apreciava apresentar a canção em momentos festivos e alegres dos eventos, transtornando as mentes, amarelando os risos, deixando o clima sombrio, lúgubre e silencioso. Alguns mortos vivos despertaram e abriram os olhos momentaneamente nessas ocasiões, para depois voltarem ao sepulcro de seus próprios corpos.

AQUI JAZ (musicada em1980)
Um céu escuro,
Raivoso,
Colérico.
Flores mortas pelo caminho
Tétrico,
Tenebroso.
O som está mudo.
Não há choro
Neste funeral resignado.
Nem as moscas se aproximam
Do cadáver de um vivo.


Fábio Roberto


segunda-feira, 31 de julho de 2017

FOTOGRAMA

E naquele momento em que eu estava morrendo não passou um filme na minha cabeça. Nem um curta, nem um longa, nem uma série, ou musical, comédia, drama, aventura. Nem Fim foi escrito nos letreiros frente aos meus olhos. Nada vi. Simplesmente morri no filme tão lindo que nem existiu. Era um romance...

Fábio Roberto

RESUMO

Para mim a vida se resume em música e poesia. Alegrias e tristezas, esperanças e decepções, problemas, soluções. Meus filhos, pais, netas, cães, amigos, a mulher amada. Todos viraram música e poesia. Quem não gosta de mim ou de quem desgosto? Viraram música e poesia. Renascimento? Poesia. Morte? Música. Como é maravilhoso poder entender e resumir algo tão intenso, simples, confuso, apaixonante, denso, suave, sonhável, realístico, etéreo e palpável como a existência passageira e eterna em música e poesia.

Fábio Roberto

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Do Livro dos Destinos - DESTINOS

O poeta escreve o que vive, o que gostaria de viver, o que sente, o
que sentirá, o que vê ou irá ver, o que passou, o que sabe e o que
nunca saberá.

O destino do poeta é buscar as palavras mais bonitas, perfeitas e
simples para reproduzir a emoção de viver e amar.

Hoje, especialmente hoje, só neste instante, neste milésimo de
segundo e nunca mais talvez, não tenho vida para escrever, não
gostaria de viver nada, nada sinto ou sentirei, nada vejo ou verei,
nada passei, nada sei e nada soube.

Um poeta assim é um poeta sem palavras e ironicamente um
poeta sem palavras nem mais poeta é para poder reproduzir a
emoção de viver e amar.

Então encerro agora todos os destinos com o meu, o meu destino
de ser sem destino. E como não tenho destino algum, nem palavras,
calo minha voz e fecho os meus olhos.

Vou me deixar conduzir para onde o vento leva as folhas que
caem das árvores. Irei junto como uma folha de papel em branco.

Quando outro vento qualquer, por um capricho do destino, me
trouxer de volta, serei poeta de novo e trarei palavras vivas em
minha folha de papel.

Destinos...



Fábio Roberto



Do Livro dos Destinos - LÁTEX

A vida é um elástico.

Você pode com ele prender cabelos ou grana, por exemplo.
Pode utilizá-lo como arma que atinja alvos para machucar ou feito
catapulta que faça um aviãozinho de papel voar sonhos de
crianças.

De repente vira uma pulseira se o pintarmos bem colorido.
Ou é apenas um elástico insípido numa caixinha cheia de elásticos,
depositada numa escrivaninha qualquer.

Mas essencialmente continua totalmente flexível.

Parece com os nossos sentimentos em relação ao cotidiano.
Êxtase. Desespero. Alegria exacerbada. Depressão profunda.
Decepção. Esperança.

Tristeza é ser estático. O futuro é dinâmico sempre e pra sempre.
O agora já está passando.

Respirar é tempo imprevisível. Melhor que seja assim.
A vida ser um elástico.

Fábio Roberto

Do Livro dos Destinos - LONGEVIDADE

Se não existir pelo menos um olhar para admirar a paisagem,
tanto faz que seja bela ou disforme.
Será uma paisagem, apenas, uma paisagem qualquer ou nem
mesmo paisagem.

Assim como a minha vida sem você.
Tanto faz que seja lúgubre ou venturosa,
rotineira ou súbita.
Não importa a longevidade.
Será uma vida, apenas, uma vida qualquer
ou nem mesmo vida.

Saudade.


Fábio Roberto

Do Livro dos Destinos - VIDAS

Gatos devoram ratos. Se os gatos têm sete vidas e cada vez
aparecem mais ratos do que gatos é óbvio que os ratos têm catorze
vidas.

Nesse caso, se perguntarem para um condenado à morte por
crimes hediondos se ele é um homem ou um rato, certamente ele

preferirá dizer que é um rato.

Do Livro dos Destinos - IMAGINAÇÃO

Voar era só para os pássaros até o homem
dar asas à imaginação.
Se os pássaros derem imaginação às asas,
os homens os alcançarão?
Fábio Roberto

Do Livro dos Destinos - Árvore

Uma árvore seca, sem folhas, é sombra da sombra que fazia.

Mas a sombra da árvore não é a árvore, não existe sem ela, não tem raízes.

Uma árvore seca continuará sendo uma árvore até morrer, como um homem velho, árvore seca, sombra da sombra, terá sempre a raiz fincada em sua estória de homem.


Fábio Roberto

Do Livro dos Destinos - Bola

Uma bola é assassina para a vidraça.
Para o menino a bola é brincadeira.

Se a brincadeira do menino for chutar a bola na vidraça,
o menino será assassino também.

À vidraça restará esperar a morte e renascer vidro blindado.


Fábio Roberto

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Do Livro dos Destinos - FUSÃO

Um mar, através das suas ondas, viaja pelo planeta até as areias de uma praia. As ondas são a alma desse mar e as areias a alma dessa praia.

As ondas às vezes chegam violentas e cobrem as areias da praia num intenso beijo, ondas, beijo, ondas, beijo, ondas...

As areias, quando isso acontece, calmamente passam a ser o chão do mar e desaparecem para as visões superficiais, mas estão lá, mesmo submersas.

A praia, o mar e suas almas se entendem, se completam, se confundem, para se fundirem num só.

Poucos homens, mulheres e suas almas se compreendem, se respeitam, se amam e se fundem feitos a praia e o mar.



Fábio Roberto 

Do Livro dos Destinos - CATAVENTO

Um catavento sem vento nenhum não tem qualquer sentido.
Um homem sem nenhum amor tem uma vida sem sentido.

Uma leve brisa movimenta o catavento e então ele passa a ter vida e sentido. Um homem ao conhecer o amor sorri e passa a ter uma vida com algum sentido.

Um catavento gira em plenitude quando venta forte. Um homem vive em plenitude quando ama intensamente.

O catavento, quando venta um tornado, voa e gira com ele, mistura-se ao vento e deixa-se levar ao céu. O homem, quando vive uma paixão, descobre porque vive, vive a essência da vida, torna-se a própria vida.


Pena que um homem sem amor e paixão possa com um simples assopro fazer girar o catavento...


Fábio Roberto

terça-feira, 25 de julho de 2017

Do Livro dos Destinos - Pedra

Uma pedra não tem vida, não tem coração.
E corações de pedra, então, também não têm
vida.
Quem atira a primeira pedra não tem nem
coração de pedra, porque atira a pedra e o
coração juntos.
E sem pedra, coração e vida nunca entenderá
o destino ser apenas uma metáfora.

Fábio Roberto

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Do Livro dos Destinos - Gaiola

Uma gaiola com pássaro dentro é cruel.
Uma gaiola sem pássaro nenhum é imbecil.
Triste o destino de uma gaiola:
ser cruel ou imbecil quando só queria ser gaiola.
Fábio Roberto

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Do Livro dos Destinos - AMIGOS

O cão é o melhor amigo do homem e só precisa de carinho
brincadeira, comida, água, passeio e cuidados com a saúde 
para ter uma vida feliz.

O homem não é o melhor amigo do cão, nem é o melhor amigo do
próprio homem.

Ao homem a felicidade não chega por nunca estar completa,
tamanhas são as suas necessidades e anseios.
Falta permanentemente alguma coisa.

Ao cão, que não raciocina mas sabe não ser dono de nada,
a angústia vem ao perder o dono.

Ao homem a angústia vem ao pensar ser o dono da razão
e porque não entende, como o cão, que não é dono de nada.


Fábio Roberto

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Do Livro das Frases, Questões e Trocadilhos

Mulher
Uma mulher é importante mesmo para você quando ela nem te faz falta, faz pênalti!
Sono
Dormir é a ressaca da vida e o aperitivo da morte.
Aperto
Para quem está com diarréia mais vale um penico do que um banquete.
Faminto
Para quem está com fome mais vale um ovo estrelado do que um céu idem.
Otorrino no Teatro
Cera ou não cera, eis a questão!
Depende
Quando eu otimista posso. Quando pessimista poço...
Depois da Chuva
A quem interessar, poça.
Nosso Tempo
O Tempo é Relativo. A Falta de Tempo é Absoluta.
Bebum
Vaca bêbada é que é esperta: vai pra breja e não pro brejo.
Páscoa
O coelho não briga quando está em páscoa coelha.
Alfândega
Quanto mais se vive mais se apreende.
Pés
Meias verdades vestem pés atrás.
Futuro
Se o futuro a Deus pertence, quem está cuidando do presente?
Vida
Sexo é melhor do que viver.
Pneumonia
A tosse é o pulmão cagando.
Batida
Se o galo bater a cabeça nasce uma redundância...
Solução
Seja otimista. Os seres humanos têm solução sim: a extinção!
Sacanagem...
É na hora de pagar a puta o cara ficar puto.
Conveniência
Até para um machista tem hora que mais vale um rei do que uma dama.
Saara
Num deserto de idéias, criatividade é miragem.
Futebol
Quem tem pressão alta não deve exagerar no futsal.
Lema de Puteiro
Aqui se faz, aqui se paga.
Problema
Você deve encarar o problema de frente, a não ser dor nas costas.
Padre
Celibato punhetas!
Ironia mesmo...
É um bombeiro morrer e ser cremado.
Fábio Roberto

quinta-feira, 13 de julho de 2017

INSANO

Insano é o coração que nega o que sente
Por isso dizem que eu nem pareço gente
Sou mesmo um selvagem, forasteiro bicho
Que se apaixona inteiro, incondicionalmente
De jeito perigoso e talvez doente
Jogando sociedade e convenção no lixo

Mas se fechar os olhos e estiver me vendo
É desejar o amor e deixá-lo doendo
Escrevo, canto e se duvidar desenho
Em ti a tatuagem por sobre o remendo
Da alma machucada e quem sabe me lendo
Verás que sou assim e é tudo o que tenho


Fábio Roberto

quinta-feira, 29 de junho de 2017

PONTO DA SURPRESA

estou cansado mas não consigo e não quero parar então continuo e vou indo sem pausa sem reabastecer as energias sem acomodar o corpo sem fechar o olhos sem esticar os ossos numa cama ou chão e com os meus músculos rígidos sem relaxar sigo adiante sem interrupção sem repouso pois não há intervalo para afrouxar os passos ou motivo para diminuir o ímpeto de ir em frente e assim vou sem suspender o ritmo das pernas que andam nesse compasso rápido sem se deterem por nada com a mesma intensidade sem decrescerem a velocidade sem sustarem o movimento sem cessarem a ação portanto eu nem olho para trás para não perder um segundo sequer de espaço futuro caminhando assim sempre ao além do possível além das forças além da vida além do sonho para chegar ao ponto de descanso e com a vontade de ultrapassar todos os limites prosseguir para mim não existe ponto final vírgula ou reticências e só vou parar numa exclamação de alegria ou dor

 Fábio Roberto

quarta-feira, 7 de junho de 2017

O OLHAR

Quem irá entender as minhas palavras sem que passe pela cabeça que eu sou uma atitude vaga e penso sempre antes do momento existir?

Não tenho tempo para explicar o tempo do meu desgaste.

Não sou um bom amigo para beber cervejas sem falar bobagens próprias ou filosofar sobre uma frase de Thoreau.

Não sou um bom amante se não devorar a alma de quem amo e me entregar às mãos dessa amada como se ela fosse Deus.

Plantei filhos e para eles não transmiti mentiras sociais, para que pudessem colher da arte o alimento supremo na realização plena de suas vidas.

Eu sou um descasamento, sou certamente um errante. Um materializador de sonhos. Um destruidor de sonhos. Um pesadelo que faz sorrir.

Não sou um compositor de jingles, mas poderia colocar uma pimenta no seu doce de coco e vendê-lo como pipoca. Cantando.

Tenho medo de dor de dente, tenho medo de dor
no dedo, tenho medo de cebola.

Não tenho medo da morte, mas não a aceito agora, sem antes encontrar com o meu destino cara a cara com a faca na boca, a caneta na mão e um papel em branco para mostrar a ele que a poesia não precisa assistir ao por do sol ou a uma luta.

Ou será que um cego não pode ser poeta?

Mas não seria a morte encontrar-se finalmente com o destino?

Eu sei de tudo o que vivi ontem.
O meu ontem foi muito mais do que todas as vidas de muita gente.

Nossa, como sou arrogante!
E agora estou calmo demais.

O futuro está nos meus olhos.
O futuro está nos teus olhos.
Resta saber para onde iremos olhar.

Fábio Roberto


sexta-feira, 2 de junho de 2017

AMAR

Eu penso que amar é para fracos
que se despedaçam em cacos.
Gente que precisa de muleta
pro coração
não ficar jogado na sarjeta
da emoção.
Gente que se vê sem par
e logo corre pro bar
para afogar mágoas,
onde garrafas viram taboas
de náufragos num mar
de solidão.
Abandonam até o lar
na imensidão
de uma tristeza tão dolorida,
maior do que cabe na vida.

É por isso que sou forte
e não amo. Amor é morte.
Vou ao bar beber sem agonia.
Não importa se estou só,
pois mais dia menos dia
todos viraremos pó.
Resistirei, então, eterna e bravamente
a este sentimento
vagabundo, podre e insolente
que me ataca neste momento,
tirando dos meus olhos a cor:
a vontade de amar-te desesperadamente,
como se condenado fosse ao amor.
O que me mataria certamente,
como um inseto mata uma flor.

Devorando-a inteira e lentamente.


Fábio Roberto

quarta-feira, 31 de maio de 2017

À BAILARINA

Mulher dos sonhos transparentes,
lascivos e indecentes,
construídos na paixão.
Mulher, aceito a tua dança
formando aliança
com nossa ilusão.
Abraço a fome do teu corpo,
disfarço e bebo a tua dor.
Cansaço e mágoa de um morto,
faço-me assim o teu consolador.
Mulher, não se ama impunemente,
mesmo que a gente tente
não há como escapar.
Mulher, deixaste a tua lembrança
no beijo que ainda alcança
e torna-nos um par.
Apague essa realidade.
Negue ser de um deus cruel.
Faça em mim tua vontade.
Nasça a tua vida neste céu.

Fábio Roberto
(Poema do conto “A Bailarina, o Barman e o Pianista”)


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Os Olhos Da Lua - Raissa


Pequena criatura
Os olhos da lua te mostram o caminho
De outra missão
Corrente de água começa outro mar

A vida não esquece
Se em alguém permanece raiz e saudade
Morrer não é morte
Saudade é transporte

Agora tua festa de rabo-sorriso
É de estrela em estrela, passeio bonito
Coleira de nuvens
Tão grande o teu novo lar

Pequena criança ouviu o assobio
O chamado, o pedido desse outro amigo
Pois guarde esse dono (o dono do mundo)
Tal como comigo precisa tua brincadeira

Raízes de um coração
Não batem, só brilham
Não batem, só brilham

Não bate, só brilha



Fábio Roberto (musicado em 1983)

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

FILME

Longe de paixão ou sentimento
Lua minguante de inspiração, desejo
Sedento de estória, grua sem movimento
Pés devorados pela estrada, pejo

Desprotegidos olhos apagados
Desprovidos de esperanças ou medos
Palavras ao vento, sonhos enrugados
Trancafiando cantos, rimas e segredos

No coração do tempo ou do esquecimento
Verdade que na alma é o sangue que derrama
Dor do ator que não foge de comédia ou drama

Personagem sem roteiro, partitura, alento
A vida acorda e adormece sua arte no cimento
Perdeu a fama e cena no último fotograma



Fábio Roberto

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

ETERNIDADE

Uns têm história pra lembrar,
outros para esquecer.
Alguns têm vida pra cantar,
outros para emudecer.
Tudo não passa de um momento.
No éter fica todo sentimento
lindo, forte, intenso e imponente
relâmpago no céu da minha lente.


Fábio Roberto

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

DRAMA

O que há de se fazer quando a paixão morre
Além de poetizar uma canção e o porre
Sempre foi assim e assim será depois
Do próximo amor que nem chegou, já foi


Fábio Roberto

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

EPITÁFIOS

Rico: o futuro... adeus, pertences! 

Sovina: Deus me pague! 

Ateu: há...deus? 

Pobre: lápide retirada por inadimplência 

Gay: já dei o que tinha que dar

Devedor: devo, não nego, vem aqui me cobrar

Modelo: meu esqueleto veste um terno Giorgio Armani

Fumante: estou na área reservada para fumantes

Atleta: bati o meu recorde sem respirar!

Bombeiro: cheguei tarde, só restaram cinzas...

Pescador: tantas minhocas, mas cadê a vara?

Ansioso: já fui tarde

Incrédulo: isto não está acontecendo

Otimista: passei desta para melhor

Viciado: do pó ao pó e vice versa

Convencido: meus pêsames pra vocês

Marinheiro: terra à vista!


Temer: não renuncio à vida

Moro: tenho convicção que morri

Dilma: porque morte é morte, vida é vida e cada um é uma coisa

Lula: o comunismo se fidel!

Odebrecht: a obra deste jazigo foi realizada sem propina e aprovada pelo PMDB... 

Faroberto

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

PANDORA

Hoje o meu poema não é triste,
tampouco minha música alegre.
Mais rápido que os dedos num tuíte.
Lentamente quanto amor que desintegre.

Hoje é assim um quase ou quase nada,
tal como estar de fraque e ser um pária.
Fugaz como o amor que se evada.
Eterno como a voz em uma ária.

Não sei se é hoje o tempo desta história.
Sei lá se estou vivendo este agora,
ou se é um pesadelo da memória.

Pergunto ao céu se fico ou vou embora.
Não sei se é fuga, encontro, paz ou glória,
mas fecho-me na caixa de Pandora.


Fábio Roberto

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

A MOSCA

O tempo parece estar parado. Nada se moveu por uma eternidade até uma mosca pousar subitamente em meu nariz. Não sei por que não consegui mover braços para espantá-la, quando lembro imediatamente da canção “eu sou a moscaaaaa...”. A Brachycera voou e o tempo pareceu parado outra vez, mas há um ventilador girando segundos lentamente. Tão lentamente que não sinto o vento que ele faz. Aliás, nem sinto calor. Percebi que nem pisco, afinal o tempo parece não passar. Somente a mosca vai e volta. Ela tem asas e olhos enormes que me fitam fixamente, assim tenho certeza de que o tempo está inerte. Nos brilhantes olhos da mosca vejo refletido um ambiente morto. Como se fosse um fúnebre desenho. Mas não sei como é possível haver movimentos numa imagem estática. Como pode a mosca voar e o ventilador girar, mesmo malemolente, com o tempo e tudo mais imóvel? Por que não levanto, balanço pernas ou simplesmente grito? Descubro agora o motivo dos meus olhos não piscarem. Eles estão fechados como a porta que também se fecha, não antes de alguém desligar o ventilador e apagar as velas. Aqui somente a mosca continuará voando até cumprir seus trinta dias de vida e o tempo definitivamente parar. 

Fábio Roberto







sábado, 15 de outubro de 2016

EVOLUÇÃO

No fundo do poço existe outro poço e outro fundo do poço onde existe outro poço e outro fundo do poço.
E assim,
Sucessivamente.

Lenta,
Muito
L  e  n  t  a  m  e  n  t  e,
Nessa jornada ao inverso da vida haverá o revés do passo, pois que a vida não tem fim.

E será assim,
Sucessivamente,
Até que não existam poço e fundo do poço onde existam outro poço e outro fundo do poço e outro poço,

Que só restará a opção de subir.


Fábio Roberto

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

SEDE

Pode a palavra apagar
Pode o canto emudecer
Mesmo se o dia dormir
Sem que haja anoitecer

Pode parar de brilhar
Uma estrela a morrer
Um rio não mais navegar
E a saudade esquecer

Nossa história

Eu lembro como se fosse agora
Cravei as mãos nas tuas costas
Deixando dor/prazer marcados
No corpo que era a minha cama

Gemidos congelaram as horas
Os gritos excitaram as velas
O fogo mordendo os lençóis
Deu Sede que bebi teus lábios

Fábio Roberto
Escrito e musicado em 2011




terça-feira, 23 de agosto de 2016

TUMBA

Cansado desta poesia maldita que dilacera as palavras,
o coração e transcende à alma.
Não há como criar novas canções.
Os temas se repetiram, repetiram, repetiram
na constante perversa de uma vida e sua incógnita.
Pois, sim, existe vida após a morte.
Mas não sei o que existe antes.
Seria tudo um pensamento ou um espasmo,
 um flash, o último piscar dos olhos do tempo?

Sem resposta as musas, também cansadas desta poesia maldita
que dilacera as palavras, as canções, o coração e transcende à alma,
recolheram-se ao interior das suas asas que nunca mais abrirão.

E assim resta apenas o silêncio cinza e austero de uma tumba confortável e bela,
onde dormirá eternamente toda e qualquer inspiração.



Fábio Roberto

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Rumos e Rimas:

o poeta vive em agonia. Semelhante a um médium vê a vida, pode amá-la, mas não pode alterar os seus rumos. Depois que a poesia nasce o poeta não pode nem mesmo mudar as suas rimas.


Fábio Roberto