sexta-feira, 29 de novembro de 2019

O LOUCO


Por que essa mulher me chama
de amor sorrindo assim à toa?
Deitada nua em minha cama,
espalha-se como quem doa.
Por que ela é bela, intensa e breve
tal qual no céu um relampejo?
Jamais seria brisa leve,
por tanto que se faz desejo.
Melhor esquecer-me da hora,
deixar-me ser alucinado.
Sabendo que ela vai embora,
eu aproveito o meu reinado,
pois ela vale cada instante.
Não importa o tempo, só o que existe.
Mesmo um minuto é bastante.
Paixão que é forte e além, resiste.
Só sei que ela vai... e retorna,
fazendo eu viver mais um pouco.
Seu corpo a minha alma adorna
e cura meu coração de louco.
Fábio Roberto (Musicado em novembro/2019)

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

INVERSO

Eu realizo e cumpro aquilo que eu não prometo
Porque eu te daria sublime e infinito instante
Que seria quase seria tudo e muito pouco
Perto do que poderias permitir-se além do risco
Esse que te espera e te deseja e te comove
E também te move para acima do perigo
De uma aventura que perdura quando dormes
Te consumindo inteira e o suor te encharca a pele
Que eu beberia na madrugada e para sempre
Como se beijasse a solidão que espreita a noite
Que nos ouviria o gemido e mesmo o grito
Do nosso prazer que desmedido afrontaria
Qualquer preconceito que o mundo oferecesse
Mas quem nos venceria se a paixão não permitisse?
Ou não era nada disso, era só a mão que acena
Para olhares que não mais sorriem ou lacrimejam
Frente à paisagem que perdeu o sentimento
De um compositor que recusou a melodia
Se na poesia o derradeiro verso escrito
Foi subitamente interrompido antes da vida


Fábio Roberto


IMPROVÁVEL?

Eu sei que Musa existe.
Sim, eu até a toquei.
Um belisco, leve e intenso
Um movimento dos cabelos
Acarinhando a alma
E sorrindo além do tempo

Hoje ficou o sabor do vento
Que mudou o clima e a paisagem
Do instante sonhado
Que de tão eterno e rápido
Fez-se inesquecível e talvez
Nunca tenha acontecido

Porque momentos assim nem vivi
Por mais que o sabor do beijo
Tenha se impregnado em mim
Muito mais do que o sangue derramado
No vidro que cortou meu sentimento
Cacos de paixões no elevador

Que me leva pra onde nunca saberei


Fábio Roberto
.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

AMBIGUIDADE


Quando muito sou pedaços
E cada parte é dolorida
E se sobraram espaços
São das próximas feridas

Isso não é fatalismo
É realidade que surge
Os pés à frente do abismo
Atrás uma fera que ruge

Diga, existe esperança?
Eu pulo e saio voando?
Morte não aceita fiança
Nem o inferno memorando

Tudo se passa em segundos
E demora uma eternidade
Sentimentos assim vagabundos
Revelam a ambiguidade

Se o medo é do alívio
Do fim ou da continuidade
A certeza do oblívio
Que a vida é insanidade

Fábio Roberto

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

VISÃO



Eu vi uma mulher apaixonante
E ela certamente assumiu
O meu olhar distante, dissonante
Aquele de quem quase já partiu

Talvez ela olhasse para todos
Mas era só eu quem flutuava
Os outros se chafurdavam nos lodos
Natural, a mim ela excitava

Foi rápido e tão menos do que o instante
Paixão que nenhum de nós tivera
Outrora, já e nunca ou adiante
 Morreu como morre a primavera

Fábio Roberto


segunda-feira, 2 de setembro de 2019

SINCERIDADE


SEDIÇÃO


PROVECTO


TALVEZ


PERSPECTIVAS


OTIMISMO


O GOLE


MUNDO


METADE


MELANCOLIA


C asa


BUCHAS


ÂMAGO


sábado, 31 de agosto de 2019

DESESPERO


Eu não tenho mais motivos
E igualmente eles não me têm
Seja pra continuar a vida
Seja pra morrer, também
Tanto faz tamanha a minha fome
Muito eu faria por imensa sede
Não importa que o sangue não sacie
Nem quando o fato encontra uma parede
Mesmo que eu sonhasse paisagens belas
Eu as veria com olhos de rua
Se na sarjeta a emoção dormisse
Feito o adeus de uma Musa nua
E nela eu perdesse os meus pensamentos
Porque em mim talvez fosse ela eterna
Quem sabe nunca houvera existido
Ou sido a luz no fundo da caverna?
Queria eu o fim da minha história
E junto com ela a gana por vingança
É um desespero ainda ter vontades
Sorrir, assim, como sorri criança
Fábio Roberto

terça-feira, 27 de agosto de 2019

FRAME


Nada disso está acontecendo agora.
A vida é um pesadelo contínuo.
Um filme de roteiro repetido.
Poema plagiado da história.

Respira-se a fumaça densa e escura
das chaminés, queimadas e escapamentos.
Bebe-se o esgoto despejado na esperança,
que longe se afogou no desprezo ao oceano.

O lixo alimenta os poucos ossos que restaram,
da fome que assustou o romper do dia
que é frio, cruel, duro e desalmado,
igual os zumbis que ainda passeiam na paisagem.

Um relógio quebrado enfeita o pulso de um cadáver,
cuja mão acenou pra solidão da chuva tóxica,
poluída e ácida, que banha tudo e envolve feito lava,
mas vejo que nada disso está acontecendo agora.

Fábio Roberto


sábado, 10 de agosto de 2019

PRA LÍGIA

Delicadeza é forte, a força lhe vem do bem.
Admiro quem enfrenta, além do que lhe convém.
Persegue mais do que sonhos, quer as realidades,
move-se em plenitudes, sobrevoa maldades.

O Tempo é o senhor da vida? Vida é mais do que tempo.
É o que você traz na alma, o puro sentimento.
Prevaleça em teu rosto, sorriso de vitória
cantada aos descendentes, como bela estória.

Eu que já sou bem mais velho, quase esquecendo a rima,
brindo elevando o copo - cena de obra prima -
pra Sede que nunca acaba e ao amor que te cabe:
que seja agora e amanhã, infinito, quem sabe...

Fábio Roberto
Agosto/19

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

PLUMA

Quando o carro virou a esquina, só os pneus cantaram.
Não foi a tua voz nem a minha, elas nem adeus tentaram. 

Os olhos quiseram ainda, seguir o rastro da fumaça
Que o escapamento despejava, no ar tenso e sem graça.

Mas logo se dissipou pela agonia apressada do vento,
Que a paixão também levou como fim de casamento.

Como se fosse pluma, como se nem existido houvera,
Como se fosse sonho que se acorda, lembra e chora.

Fábio Roberto



Dos Sessentas ao Sessenta

Editando a história, da infância pra cá os meus cabelos continuaram existindo e estão novamente longos. Permaneço jogando futebol, agora com as netas. A cerva é apreciada com volúpia, fato inconteste que a Sede não acabou e só aumenta. As paixões impulsivas se intensificaram, praticamente incontroláveis, quase irresponsáveis. A arte que em mim cedo nasceu frutificou e se transformou em centenas de canções e uma quantidade incalculável de escritos. A grana que eu não tinha eu ainda não tenho, o que revela o meu sincero despojamento material, quase franciscano. E a famosa imunidade ao vírus da gripe está aqui, intacta, apesar da forte torcida de muitos para que eu tenha um mísero resfriado.
Com tanta vida saboreada em lágrimas e sorrisos, aventuras insuperáveis e marasmos agonizantes, eu sei que enquanto o corpo envelhece um ano, a alma encanece cem, comemorando todas as existências e até lamentando algumas delas. O importante é manter a essência, que é muito mais idosa do que o físico, perdurando íntegra no tempo. É o que faço.
Fábio Roberto

CYCLE 3

Não é que eu não goste da vida. Eu não a aprecio tanto neste planeta. Sei lá se vim exilado de outra Esfera qualquer, mas com este lugar não conectei completamente. A Terra até que é maravilhosa, só que a maioria dos humanos que a habitam são os refugos das galáxias, estagiando aqui antes de pousarem nos umbrais. Estou distante de ser anjo, mas separado um universo dessas coisas-coisas. Para os poucos amigos que me conquistaram eu ofereci o melhor que pude de mim, do bom ao complicado.
Claro que o dia nascendo, com o sol se levantando do mar para o alto dos céus, é uma imagem de se admirar. E beleza ainda superior acontece quando o dia é findo. O sol, desgastado, adormece o seu desânimo apagando-se atrás dos montes, deixando a soberana musa dos poetas, a noite, prevalecer na escuridão íntima das nossas almas inconformadas, melancólicas, rebeldes, sequiosas de paixão e vontade do viver, mesmo que brevemente. Uivamos pra lua junto aos lobos da estepe e cães urbanos abandonados, em melodias que se fundem numa só voz de desespero. Gritamos por saudade de algo que desconhecemos, mas que dói violentamente chegando a estremecer os nossos esqueletos.
Escrevi estas palavras porque completei hoje 60 anos de quando fiz escolhas que ainda não entendo e aportei cá com minha eterna alegria de criança palhaça e meu sempre velho e cansado sentimento de quem tentou movimentar o imutável, sonhar o impensável e realizar o impossível. Ora em vão, ora quase, ora oração. Constato que não morri cedo, pois evidentemente, sigo carregando um corpo que incomoda espaços. Mas eu sei que o Tempo não se mede pelo tempo deste corpo neste agora. Talvez eu tenha morrido ao chegar, ou mesmo antes ou então depois, por não ter criado a minha obra-prima nesta existência. O fato é que nunca estive satisfeito. Penso que considerar-se realizado é para os fracos, acomodados ou falsos que se auto-enganam.
Os meus olhos que temiam não temer nada, agora só temem ver um absoluto nada, porque um dia não haverá talvez. Após o ciclo romper limites, a esperança é que possa haver lá adiante o momento de rever, saber e estar pleno de tudo e todos que amo infinitamente.
E nesta data e hora em que esqueci desejos, nem espero abraços, só brindes erguidos por bêbados convictos ou sóbrios inebriados. Abro um sorriso sinceramente feliz pro passado, pois vivi emoções loucas, poderosas, inesquecíveis e ofereço um sorriso irônico, exageradamente sacana pro futuro, onde teria energia intensa para muito além, mas tanto faz, tanto fiz, tanto faria. O futuro que me espere a partir de amanhã, se quiser, ou aguarde quando eu for apenas histórias.
brindemos,
Fábio Roberto
02agosto2019

sábado, 27 de julho de 2019

O PATO (O MORO) – Paródia Faroberto

O Moro
Vinha cantando alegremente
Quém! Quém!
Quando um Toffoli sorridente pediu
Para entrar também no samba
Lambança, lambança!
Dallagnol, gostou da dupla e fez também
Quém! Quém! Quém!
Chamou Fachin
E disse assim: Vem! Vem!
Tem palestra pra juiz também
Muito bom, muito bem
Na porta da cadeia
Foram ensaiar
Para evitar
O Lula-Livre, Lula-lá
A voz do Moro
Era mesmo um desaforo
Jogo de cena com o Deltan era ouro
Mas eu gostei do final
Quando o povo vaiava
O Quarteto: ponto final!
Quém! Quém! Quém! Quém! (Moro)
Quém! Quém! Quém! Quém! (Toffoli)
Quém! Quém! Quém! Quém! (Deltan)
Quém! Quém! Quém! Quém! (Fachin)

O PATO (Jayme Silva/Neuza Teixeira), clássica gravação de João Gilberto.

sábado, 6 de julho de 2019

SORRISO


O meu sorriso sempre é puro desafio.
Um fio desencapado que provoca choque.
O escroque disfarçado em roupa de um santo.

Um tanto gigantesco que resulta em nada.
É espada afiada que provoca luta.
A puta de esquina que te cobra caro.
O faro apurado que ofende o perfume.
O lume de esperança que simplesmente apaga.
E afaga o desejo de morrer lá fora.
E agora, sem demora, assim bem de repente.
Aquilo que se sente ao ver na paisagem.
A imagem do espelho partindo meu sorriso.

Fábio Roberto


quinta-feira, 13 de junho de 2019

DESTINOS VII

Se não existir pelo menos um olhar para admirar a paisagem,
tanto faz que seja bela ou disforme.
Será uma paisagem, apenas, uma paisagem qualquer
ou nem mesmo paisagem.
Assim como a minha vida sem você.
Tanto faz que seja lúgubre ou venturosa,
rotineira ou súbita.
Não importa a longevidade.
Será uma vida, apenas, uma vida qualquer
ou nem mesmo vida.
Saudade.
Fábio Roberto
Do Livro dos Destinos


quarta-feira, 5 de junho de 2019

BUMERANGUE

Eu não falo de morte, se o teu amor eu canto.
Eu me visto de lorde, eu me faço de santo.
Acabo voando sem norte e a dor é um manto,
Se o teu desprezo me morde. Na solidão eu decanto.

Eu não falo de sangue, se o teu amor existe.
Sou herói de bangue-bangue, eu jamais fico triste.
Mas o sorriso é exangue naquele segundo que hesites,
Se a paixão bumerangue sempre volta e desiste.

Sim, eu falo de vida se o teu amor for eterno.
A minha alegria atrevida, o sentimento que esterno.
Mas a palavra duvida e todas as rimas eu hiberno,
Pra não acabar o poema representando o inferno.

Fábio Roberto

quarta-feira, 15 de maio de 2019

A MORTE

Chega uma idade provecta em que nada mais cura, nada cola, nada conserta, nada melhora. Seja o dente dolorido, a costela trincada, o músculo rompido, o pulmão comprometido que não para de tossir a poluição da vida. Os olhos vão se apagando das paisagens e a disfunção erétil acaba superando o desejo, cedo ou tarde, apesar de lunetas ou comprimidos. O coração partido está partido pra sempre, não há mais retorno, pois a amada de alguma forma morreu. A alma vai se deslocando pouco a pouco no corpo que habita e não se ajusta mais, causando desconforto até se desligar dele totalmente.
Só o cérebro, mesmo o mais demenciado pela senilidade, permanece perfeito. Porque se é lúcido passeia pelo tempo através das memórias, apreciando o sabor da saudade e das alegrias vividas e se aborrecendo com as dores da experiência. Se já foi acometido pelo esquecimento, também viaja pelo eterno, e mais livre ainda, sem medos, aproveitando a confusão mental para criar ou reescrever a sua história conforme queira.
A morte acontece quando nem a história se lembra de nós.
Fábio Roberto

quinta-feira, 11 de abril de 2019

BEIJO DA MADRUGADA

Por que tu me beijaste eu não sei.
Será por que tu me notaste triste?
Será por que o meu coração ouviste
descompassado, amargo, fora da lei?
Não sustentei olhar teus olhos refulgentes,
sorrindo pro meu rosto de indigente.
Só admirei os teus bailados deslumbrantes,
a desfilar-me paixão louca e vibrante.
Por que tu me beijaste, madrugada,
se cedo tu fugias pro teu dono
e o dia preparava outra cilada?
Restou-me a luz pungente do abandono,
minha poesia estéril ou calada,
se a lua adormeceu eterno sono.
Fábio Roberto

quarta-feira, 10 de abril de 2019

O INVÁLIDO


O meu joelho de súbito torceu
contra mim, o safado, infelizmente.
Ficou roxo, inchou, muito doeu,
mas era menos do que uma dor de dente...
Ignorei, dei-lhe uma baita de um gelo.
Ele gostou, fingindo-me estar bem.
O choque arrepiou o meu cabelo,
quando levantei e caí como um neném.
Como esta sede alcançaria a geladeira?
E a ansiedade sem andar de lá pra cá?
Eu me arrastei, sem rodinhas na cadeira,
Só uma cerveja poderia me “salvá”.
Bebi de um gole, pra ficar amortecido,
grudado ao chão parecendo lagartixa.
Fui muito macho, dei um pulo emputecido,
voltei ao chão e gemi feito uma bicha.
Eu me acalmei ao acender uma fumaça
atrás da outra, só restava mais um maço.
Tem horas que realmente a vida embaça,
feito o ibope quando só apresenta traço.
Depois de horas de meditação profunda,
iluminei-me, descobri que a dor não existe.
Ainda bem que foi joelho e não a bunda,
senão a estória ficaria bem mais triste.
Fábio Roberto

quinta-feira, 28 de março de 2019

FUMAÇA

Foi o tempo de fumar um último cigarro,
lentamente retirado do derradeiro maço.
O isqueiro falhou, mas não o teu charme.
Eu vou me dissolvendo, feito de barro.
Eu vou me desbastando, pelo cansaço,
mas teus olhos inda estão a chamar-me.
Você traga profundamente, eu viro fumaça
misturada com o ar e o vento a dissipa.
Meus restos descansam displicentes no cinzeiro.
Meio cigarro queimando o minuto que passa
e a minha boca o teu beijo antecipa.
O beijo que me tornaria vivo e fidalgueiro.
E súbito nos toma mais que doída saudade:
teus olhos pedem pra ficar dizendo adeus
e eu não impeço esta tua decisiva tragada.
Ah... como eu queria ter o tempo da tua idade,
desde sempre e para sempre aos olhos teus.
A solidão jaz no cinzeiro, apagada...

Fábio Roberto

quinta-feira, 14 de março de 2019

ENTARDECER

Um céu incrivelmente lindo nesta cidade. 
Paira sobre pessoas que não o merecem. 
Talvez seja um lindo céu de tempestade.
Quem sabe seja o que meus olhos querem de paisagem.
Pode ser em meus olhos, apenas.
Ou orações que vejo, sinto, ouço: novenas.

Fábio Roberto

quarta-feira, 6 de março de 2019

BADEN CANÇÃO


O teu coração para antes do meu.
Eu fico aqui não. Também já me deu.

Mundo está doente, salve-nos loucura.
Toda essa gente nem poesia cura.

O teu coração penso que ele é o meu.
Calo a canção se ele não bateu.

E no dia a dia, olhos de saudade,
brindes,  melodias, sagrada amizade.

O teu coração para antes do meu.
Eu fico aqui não. Também já me deu.

Tanto faz o plano, vida é utopia.
Tempo nos abrace. Sinto a tua alegria..

O teu coração penso que ele é o meu.
Calo a canção se ele não bateu.


Fábio Roberto
22-2-19


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

TRECHOS


1
Este silêncio profundo antes do dia se preparar pra nascer, revela que a vida está num sono letárgico provocado pelo medo do minuto seguinte. Os pássaros, engaiolados neles mesmos, se recusam a cantar para um tempo triste e sem esperança. Só um bebê ousa gemer baixinho o desespero. A fome é capaz de tudo...
2
Mas a noite estendeu a escuridão além da hora. Por que abrir os olhos para a imensidão do nada? Assim o corpo permanece inerte e sem vontade. O fluxo de pensamentos se depara com o cérebro vazio. O mesmo vácuo que impera nele é o do mundo lá de fora...
3
Insatisfeito o coração diminui perigosamente o seu ritmo até finalmente cessar qualquer movimento. A solidão e a frieza da morte rondam a cena. O apito estridente de aparelhos rompe o marasmo, deixando o ar pesado e tenso enquanto ocorre o parto do espírito. Agora sim o medo atinge o nível máximo e faz arregalar os olhos que tentam antecipar o que virá...
4
É assustador saber o que virá, mas muito mais devastador não saber. A imaginação, com insuportável pavor, faz suar em bicas. Os olhos lacrimejantes perscrutam os pontos mais distantes da paisagem. A espera é angustiante. A ansiedade vai corroendo a alma, que se sente queimar no fogo do inferno de todas as culpas e incertezas...
5
O silêncio é cada vez mais opressivo. A ausência de pensamentos fluindo provoca uma dor aguda e permanente. E nada, absolutamente nada se move além dos olhos que se movimentam freneticamente de um lado para o outro. Gotas de suor caem do rosto encharcando o chão empoeirado...
6
Que lugar será este? Quando ele será? Tudo se resumirá nessa dor constante e na dúvida de existir ou não? Ah esse sofrimento de não haver pensamento fluindo e lembrar-se da lua, da lua brilhando no céu, da lua brilhando no céu de um universo tão vasto e ao mesmo tempo tão pequeno, pois os olhos com suas visões curtas só alcançam a linha do horizonte. De que adianta ter asas e nem conseguir rastejar? Resta a ansiedade tenebrosa da eterna espera pelo que virá.

Fábio Roberto
 

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

O Bicho

tanto faz qual o passo
o caminho é árduo.
o sorriso não é espelho dos meus olhos nem os olhos refletem a minha dor. mas se descanso, ardo.
as vozes estimulam ora a ir ora a voltar.
e quando chego, tardo.
o que enfrento é improviso. sendo constante, não mais me surpreende.
então eu me carrego, fardo.
lanço sentimentos em escritos e sons.
nesse momento, sou um dardo.
até que a inspiração recusa-me a benção.
filho bastardo.
faço-me incômoda luz de consciência. o dia sempre escurece.
misturo-me nas sombras, pardo.
na beira do perigo preparo o salto.
o impulso de viver retardo.
antes de decidir mostro as garras e as presas ao predador.
fuga ou batalha. leopardo.

Fábio Roberto




quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

UM ÚNICO OLHAR

Tão distante de qualquer distância
Foi talvez aqui
O olhar procurou os olhos
Tão distante de qualquer presença
Foi talvez encontro
Tão distante de qualquer palavra
Foi talvez mensagem
Tão distante de qualquer certeza
Foi talvez resposta
Tão distante de qualquer metade
Foi talvez inteiro
Tão distante de qualquer espaço
Foi talvez paisagem
Tão distante de qualquer qualquer
Foi talvez sorriso
O olhar procurou os olhos
Tão distante de qualquer momento
Foi talvez agora
Talvez meu olhar e talvez teus olhos

Fábio Roberto

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

FIM

Este é o primeiro do ano
Tem jeito de ser antigo
Se pedir eu o declamo
Até mesmo empertigo
A roupa do esqueleto
Com voz firme e empostada
Canto tema obsoleto
E a palavra desgastada
O anacronismo do verso
Ou atemporalidade
O diletante universo
Que mora numa verdade
Tudo pra dizer que ainda
Te amo como amava ontem
A paixão já na berlinda
Os olhos que se aprontem
Pra despejarem o sorriso
Quando então lacrimejarem
Na paisagem que friso
Estórias que terminarem.

Fábio Roberto


sábado, 5 de janeiro de 2019

SORRISO

Que sorriso é esse?
Tem cara de lua
e jeito de sol.
A voz de uma deusa.
Olhar de oceano.
Infinito lugar.
É mais que sorriso
de mãe, de mulher,
de avó, de artista.
Transcende o tempo.
É o abraço apertado
de um reencontro
com alguém que se ama.
É o sorriso que nasce
antes do sentimento,
porque sempre existiu.
Pelo fato de ser
o que sempre será.

Fábio Roberto
para Márcia Salomon


ESCALADA

Cala a boca
Cala a burca
Cala a beca
Cala a barca
Cala a bica
Cala o bolso
Cala o bico
Calabouço
Cala a broca
Cala o breque
Cala a bronca
Cala o beque
Cala o brinco
Cala a bruxa
Cala o branco
Cala a brecha
Cala a bela
Cala a besta
Cala a bola
Cala a bosta
Cala o brusco
Cala a brisa
Cala a busca
Calabresa
Cala o banco
Cala o brother
Cala a banca
Calabar
Cala o beiço
Cala a bossa
Cala à beça
Cala a buça...
Fábio Roberto

SEDIÇÃO

Tenho sede desde cedo
E logo cedo a te beijar
Seduzido eu me excedo
Que me sedo a marejar
Mas a sede nunca cede
Eu me concedo desejar
Outro beijo que ensede
A sede de te versejar
Fábio Roberto


domingo, 9 de dezembro de 2018

A BELEZA

Viver é solitário
Uma festa com estranhos
Pesadelo hereditário
Um desejo tacanho
A fé de um otário
Um sorriso de estanho
É certeira punhalada
Traiçoeira madrasta
Uma casa abandonada
Revelação que devasta
Vacilo numa emboscada
A palavra que afasta
É o total desespero
O mesmo de um aborto
Momento de destempero
Passo sóbrio, mas torto
Uma dor em exagero
A ilusão de um morto
É uma pura heresia
O corpo que feriste
Marasmo, maresia
Saudade que persiste
Na alma e na poesia:
Um canto belo e triste
Fábio Roberto

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

A CANÇÃO TRISTE

Um coração amargurado tem os seus motivos.
A inspiração que fugiu. 
As mãos que se despediram do tempo.
A chuva que molhou o rosto
e se misturou com as lágrimas de uma dor lancinante,
como a de ver uma criança sofrer.
Não recrimine um coração amargurado, nem os seus motivos.
Pode ser mágoa por amor perdido.
A lua que se escondeu dos olhos pra sempre.
O vento que levou um balão para o céu desconhecido.
O sonho de toda uma vida que se dissolveu
subitamente, como castelo de areia na beira do mar.
Nunca duvide dos motivos de um coração amargurado.
E se for um violão velho e quebrado,
sem melodia, palavra ou voz?
Um pressentimento terrível de partida.
Desespero e tristeza maiores do que as de cão abandonado.
Ou simplesmente o alívio que só a morte traz

Fábio Roberto

MUNDO