sexta-feira, 29 de novembro de 2019

O LOUCO


Por que essa mulher me chama
de amor sorrindo assim à toa?
Deitada nua em minha cama,
espalha-se como quem doa.
Por que ela é bela, intensa e breve
tal qual no céu um relampejo?
Jamais seria brisa leve,
por tanto que se faz desejo.
Melhor esquecer-me da hora,
deixar-me ser alucinado.
Sabendo que ela vai embora,
eu aproveito o meu reinado,
pois ela vale cada instante.
Não importa o tempo, só o que existe.
Mesmo um minuto é bastante.
Paixão que é forte e além, resiste.
Só sei que ela vai... e retorna,
fazendo eu viver mais um pouco.
Seu corpo a minha alma adorna
e cura meu coração de louco.
Fábio Roberto (Musicado em novembro/2019)

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

INVERSO

Eu realizo e cumpro aquilo que eu não prometo
Porque eu te daria sublime e infinito instante
Que seria quase seria tudo e muito pouco
Perto do que poderias permitir-se além do risco
Esse que te espera e te deseja e te comove
E também te move para acima do perigo
De uma aventura que perdura quando dormes
Te consumindo inteira e o suor te encharca a pele
Que eu beberia na madrugada e para sempre
Como se beijasse a solidão que espreita a noite
Que nos ouviria o gemido e mesmo o grito
Do nosso prazer que desmedido afrontaria
Qualquer preconceito que o mundo oferecesse
Mas quem nos venceria se a paixão não permitisse?
Ou não era nada disso, era só a mão que acena
Para olhares que não mais sorriem ou lacrimejam
Frente à paisagem que perdeu o sentimento
De um compositor que recusou a melodia
Se na poesia o derradeiro verso escrito
Foi subitamente interrompido antes da vida


Fábio Roberto


IMPROVÁVEL?

Eu sei que Musa existe.
Sim, eu até a toquei.
Um belisco, leve e intenso
Um movimento dos cabelos
Acarinhando a alma
E sorrindo além do tempo

Hoje ficou o sabor do vento
Que mudou o clima e a paisagem
Do instante sonhado
Que de tão eterno e rápido
Fez-se inesquecível e talvez
Nunca tenha acontecido

Porque momentos assim nem vivi
Por mais que o sabor do beijo
Tenha se impregnado em mim
Muito mais do que o sangue derramado
No vidro que cortou meu sentimento
Cacos de paixões no elevador

Que me leva pra onde nunca saberei


Fábio Roberto
.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

AMBIGUIDADE


Quando muito sou pedaços
E cada parte é dolorida
E se sobraram espaços
São das próximas feridas

Isso não é fatalismo
É realidade que surge
Os pés à frente do abismo
Atrás uma fera que ruge

Diga, existe esperança?
Eu pulo e saio voando?
Morte não aceita fiança
Nem o inferno memorando

Tudo se passa em segundos
E demora uma eternidade
Sentimentos assim vagabundos
Revelam a ambiguidade

Se o medo é do alívio
Do fim ou da continuidade
A certeza do oblívio
Que a vida é insanidade

Fábio Roberto

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

VISÃO



Eu vi uma mulher apaixonante
E ela certamente assumiu
O meu olhar distante, dissonante
Aquele de quem quase já partiu

Talvez ela olhasse para todos
Mas era só eu quem flutuava
Os outros se chafurdavam nos lodos
Natural, a mim ela excitava

Foi rápido e tão menos do que o instante
Paixão que nenhum de nós tivera
Outrora, já e nunca ou adiante
 Morreu como morre a primavera

Fábio Roberto


segunda-feira, 2 de setembro de 2019

SINCERIDADE


SEDIÇÃO


PROVECTO


TALVEZ


PERSPECTIVAS


OTIMISMO


O GOLE


MUNDO


METADE


MELANCOLIA


C asa


BUCHAS


ÂMAGO


sábado, 31 de agosto de 2019

DESESPERO


Eu não tenho mais motivos
E igualmente eles não me têm
Seja pra continuar a vida
Seja pra morrer, também
Tanto faz tamanha a minha fome
Muito eu faria por imensa sede
Não importa que o sangue não sacie
Nem quando o fato encontra uma parede
Mesmo que eu sonhasse paisagens belas
Eu as veria com olhos de rua
Se na sarjeta a emoção dormisse
Feito o adeus de uma Musa nua
E nela eu perdesse os meus pensamentos
Porque em mim talvez fosse ela eterna
Quem sabe nunca houvera existido
Ou sido a luz no fundo da caverna?
Queria eu o fim da minha história
E junto com ela a gana por vingança
É um desespero ainda ter vontades
Sorrir, assim, como sorri criança
Fábio Roberto

terça-feira, 27 de agosto de 2019

FRAME


Nada disso está acontecendo agora.
A vida é um pesadelo contínuo.
Um filme de roteiro repetido.
Poema plagiado da história.

Respira-se a fumaça densa e escura
das chaminés, queimadas e escapamentos.
Bebe-se o esgoto despejado na esperança,
que longe se afogou no desprezo ao oceano.

O lixo alimenta os poucos ossos que restaram,
da fome que assustou o romper do dia
que é frio, cruel, duro e desalmado,
igual os zumbis que ainda passeiam na paisagem.

Um relógio quebrado enfeita o pulso de um cadáver,
cuja mão acenou pra solidão da chuva tóxica,
poluída e ácida, que banha tudo e envolve feito lava,
mas vejo que nada disso está acontecendo agora.

Fábio Roberto


sábado, 10 de agosto de 2019

PRA LÍGIA

Delicadeza é forte, a força lhe vem do bem.
Admiro quem enfrenta, além do que lhe convém.
Persegue mais do que sonhos, quer as realidades,
move-se em plenitudes, sobrevoa maldades.

O Tempo é o senhor da vida? Vida é mais do que tempo.
É o que você traz na alma, o puro sentimento.
Prevaleça em teu rosto, sorriso de vitória
cantada aos descendentes, como bela estória.

Eu que já sou bem mais velho, quase esquecendo a rima,
brindo elevando o copo - cena de obra prima -
pra Sede que nunca acaba e ao amor que te cabe:
que seja agora e amanhã, infinito, quem sabe...

Fábio Roberto
Agosto/19

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

PLUMA

Quando o carro virou a esquina, só os pneus cantaram.
Não foi a tua voz nem a minha, elas nem adeus tentaram. 

Os olhos quiseram ainda, seguir o rastro da fumaça
Que o escapamento despejava, no ar tenso e sem graça.

Mas logo se dissipou pela agonia apressada do vento,
Que a paixão também levou como fim de casamento.

Como se fosse pluma, como se nem existido houvera,
Como se fosse sonho que se acorda, lembra e chora.

Fábio Roberto



Dos Sessentas ao Sessenta

Editando a história, da infância pra cá os meus cabelos continuaram existindo e estão novamente longos. Permaneço jogando futebol, agora com as netas. A cerva é apreciada com volúpia, fato inconteste que a Sede não acabou e só aumenta. As paixões impulsivas se intensificaram, praticamente incontroláveis, quase irresponsáveis. A arte que em mim cedo nasceu frutificou e se transformou em centenas de canções e uma quantidade incalculável de escritos. A grana que eu não tinha eu ainda não tenho, o que revela o meu sincero despojamento material, quase franciscano. E a famosa imunidade ao vírus da gripe está aqui, intacta, apesar da forte torcida de muitos para que eu tenha um mísero resfriado.
Com tanta vida saboreada em lágrimas e sorrisos, aventuras insuperáveis e marasmos agonizantes, eu sei que enquanto o corpo envelhece um ano, a alma encanece cem, comemorando todas as existências e até lamentando algumas delas. O importante é manter a essência, que é muito mais idosa do que o físico, perdurando íntegra no tempo. É o que faço.
Fábio Roberto

CYCLE 3

Não é que eu não goste da vida. Eu não a aprecio tanto neste planeta. Sei lá se vim exilado de outra Esfera qualquer, mas com este lugar não conectei completamente. A Terra até que é maravilhosa, só que a maioria dos humanos que a habitam são os refugos das galáxias, estagiando aqui antes de pousarem nos umbrais. Estou distante de ser anjo, mas separado um universo dessas coisas-coisas. Para os poucos amigos que me conquistaram eu ofereci o melhor que pude de mim, do bom ao complicado.
Claro que o dia nascendo, com o sol se levantando do mar para o alto dos céus, é uma imagem de se admirar. E beleza ainda superior acontece quando o dia é findo. O sol, desgastado, adormece o seu desânimo apagando-se atrás dos montes, deixando a soberana musa dos poetas, a noite, prevalecer na escuridão íntima das nossas almas inconformadas, melancólicas, rebeldes, sequiosas de paixão e vontade do viver, mesmo que brevemente. Uivamos pra lua junto aos lobos da estepe e cães urbanos abandonados, em melodias que se fundem numa só voz de desespero. Gritamos por saudade de algo que desconhecemos, mas que dói violentamente chegando a estremecer os nossos esqueletos.
Escrevi estas palavras porque completei hoje 60 anos de quando fiz escolhas que ainda não entendo e aportei cá com minha eterna alegria de criança palhaça e meu sempre velho e cansado sentimento de quem tentou movimentar o imutável, sonhar o impensável e realizar o impossível. Ora em vão, ora quase, ora oração. Constato que não morri cedo, pois evidentemente, sigo carregando um corpo que incomoda espaços. Mas eu sei que o Tempo não se mede pelo tempo deste corpo neste agora. Talvez eu tenha morrido ao chegar, ou mesmo antes ou então depois, por não ter criado a minha obra-prima nesta existência. O fato é que nunca estive satisfeito. Penso que considerar-se realizado é para os fracos, acomodados ou falsos que se auto-enganam.
Os meus olhos que temiam não temer nada, agora só temem ver um absoluto nada, porque um dia não haverá talvez. Após o ciclo romper limites, a esperança é que possa haver lá adiante o momento de rever, saber e estar pleno de tudo e todos que amo infinitamente.
E nesta data e hora em que esqueci desejos, nem espero abraços, só brindes erguidos por bêbados convictos ou sóbrios inebriados. Abro um sorriso sinceramente feliz pro passado, pois vivi emoções loucas, poderosas, inesquecíveis e ofereço um sorriso irônico, exageradamente sacana pro futuro, onde teria energia intensa para muito além, mas tanto faz, tanto fiz, tanto faria. O futuro que me espere a partir de amanhã, se quiser, ou aguarde quando eu for apenas histórias.
brindemos,
Fábio Roberto
02agosto2019

sábado, 27 de julho de 2019

O PATO (O MORO) – Paródia Faroberto

O Moro
Vinha cantando alegremente
Quém! Quém!
Quando um Toffoli sorridente pediu
Para entrar também no samba
Lambança, lambança!
Dallagnol, gostou da dupla e fez também
Quém! Quém! Quém!
Chamou Fachin
E disse assim: Vem! Vem!
Tem palestra pra juiz também
Muito bom, muito bem
Na porta da cadeia
Foram ensaiar
Para evitar
O Lula-Livre, Lula-lá
A voz do Moro
Era mesmo um desaforo
Jogo de cena com o Deltan era ouro
Mas eu gostei do final
Quando o povo vaiava
O Quarteto: ponto final!
Quém! Quém! Quém! Quém! (Moro)
Quém! Quém! Quém! Quém! (Toffoli)
Quém! Quém! Quém! Quém! (Deltan)
Quém! Quém! Quém! Quém! (Fachin)

O PATO (Jayme Silva/Neuza Teixeira), clássica gravação de João Gilberto.

sábado, 6 de julho de 2019

SORRISO


O meu sorriso sempre é puro desafio.
Um fio desencapado que provoca choque.
O escroque disfarçado em roupa de um santo.

Um tanto gigantesco que resulta em nada.
É espada afiada que provoca luta.
A puta de esquina que te cobra caro.
O faro apurado que ofende o perfume.
O lume de esperança que simplesmente apaga.
E afaga o desejo de morrer lá fora.
E agora, sem demora, assim bem de repente.
Aquilo que se sente ao ver na paisagem.
A imagem do espelho partindo meu sorriso.

Fábio Roberto