sexta-feira, 28 de julho de 2017

Do Livro dos Destinos - Bola

Uma bola é assassina para a vidraça.
Para o menino a bola é brincadeira.

Se a brincadeira do menino for chutar a bola na vidraça,
o menino será assassino também.

À vidraça restará esperar a morte e renascer vidro blindado.


Fábio Roberto

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Do Livro dos Destinos - FUSÃO

Um mar, através das suas ondas, viaja pelo planeta até as areias de uma praia. As ondas são a alma desse mar e as areias a alma dessa praia.

As ondas às vezes chegam violentas e cobrem as areias da praia num intenso beijo, ondas, beijo, ondas, beijo, ondas...

As areias, quando isso acontece, calmamente passam a ser o chão do mar e desaparecem para as visões superficiais, mas estão lá, mesmo submersas.

A praia, o mar e suas almas se entendem, se completam, se confundem, para se fundirem num só.

Poucos homens, mulheres e suas almas se compreendem, se respeitam, se amam e se fundem feitos a praia e o mar.



Fábio Roberto 

Do Livro dos Destinos - CATAVENTO

Um catavento sem vento nenhum não tem qualquer sentido.
Um homem sem nenhum amor tem uma vida sem sentido.

Uma leve brisa movimenta o catavento e então ele passa a ter vida e sentido. Um homem ao conhecer o amor sorri e passa a ter uma vida com algum sentido.

Um catavento gira em plenitude quando venta forte. Um homem vive em plenitude quando ama intensamente.

O catavento, quando venta um tornado, voa e gira com ele, mistura-se ao vento e deixa-se levar ao céu. O homem, quando vive uma paixão, descobre porque vive, vive a essência da vida, torna-se a própria vida.


Pena que um homem sem amor e paixão possa com um simples assopro fazer girar o catavento...


Fábio Roberto

terça-feira, 25 de julho de 2017

Do Livro dos Destinos - Pedra

Uma pedra não tem vida, não tem coração.
E corações de pedra, então, também não têm
vida.
Quem atira a primeira pedra não tem nem
coração de pedra, porque atira a pedra e o
coração juntos.
E sem pedra, coração e vida nunca entenderá
o destino ser apenas uma metáfora.

Fábio Roberto

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Do Livro dos Destinos - Gaiola

Uma gaiola com pássaro dentro é cruel.
Uma gaiola sem pássaro nenhum é imbecil.
Triste o destino de uma gaiola:
ser cruel ou imbecil quando só queria ser gaiola.
Fábio Roberto

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Do Livro dos Destinos - AMIGOS

O cão é o melhor amigo do homem e só precisa de carinho
brincadeira, comida, água, passeio e cuidados com a saúde 
para ter uma vida feliz.

O homem não é o melhor amigo do cão, nem é o melhor amigo do
próprio homem.

Ao homem a felicidade não chega por nunca estar completa,
tamanhas são as suas necessidades e anseios.
Falta permanentemente alguma coisa.

Ao cão, que não raciocina mas sabe não ser dono de nada,
a angústia vem ao perder o dono.

Ao homem a angústia vem ao pensar ser o dono da razão
e porque não entende, como o cão, que não é dono de nada.


Fábio Roberto

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Do Livro das Frases, Questões e Trocadilhos

Mulher
Uma mulher é importante mesmo para você quando ela nem te faz falta, faz pênalti!
Sono
Dormir é a ressaca da vida e o aperitivo da morte.
Aperto
Para quem está com diarréia mais vale um penico do que um banquete.
Faminto
Para quem está com fome mais vale um ovo estrelado do que um céu idem.
Otorrino no Teatro
Cera ou não cera, eis a questão!
Depende
Quando eu otimista posso. Quando pessimista poço...
Depois da Chuva
A quem interessar, poça.
Nosso Tempo
O Tempo é Relativo. A Falta de Tempo é Absoluta.
Bebum
Vaca bêbada é que é esperta: vai pra breja e não pro brejo.
Páscoa
O coelho não briga quando está em páscoa coelha.
Alfândega
Quanto mais se vive mais se apreende.
Pés
Meias verdades vestem pés atrás.
Futuro
Se o futuro a Deus pertence, quem está cuidando do presente?
Vida
Sexo é melhor do que viver.
Pneumonia
A tosse é o pulmão cagando.
Batida
Se o galo bater a cabeça nasce uma redundância...
Solução
Seja otimista. Os seres humanos têm solução sim: a extinção!
Sacanagem...
É na hora de pagar a puta o cara ficar puto.
Conveniência
Até para um machista tem hora que mais vale um rei do que uma dama.
Saara
Num deserto de idéias, criatividade é miragem.
Futebol
Quem tem pressão alta não deve exagerar no futsal.
Lema de Puteiro
Aqui se faz, aqui se paga.
Problema
Você deve encarar o problema de frente, a não ser dor nas costas.
Padre
Celibato punhetas!
Ironia mesmo...
É um bombeiro morrer e ser cremado.
Fábio Roberto

quinta-feira, 13 de julho de 2017

INSANO

Insano é o coração que nega o que sente
Por isso dizem que eu nem pareço gente
Sou mesmo um selvagem, forasteiro bicho
Que se apaixona inteiro, incondicionalmente
De jeito perigoso e talvez doente
Jogando sociedade e convenção no lixo

Mas se fechar os olhos e estiver me vendo
É desejar o amor e deixá-lo doendo
Escrevo, canto e se duvidar desenho
Em ti a tatuagem por sobre o remendo
Da alma machucada e quem sabe me lendo
Verás que sou assim e é tudo o que tenho


Fábio Roberto

quinta-feira, 29 de junho de 2017

PONTO DA SURPRESA

estou cansado mas não consigo e não quero parar então continuo e vou indo sem pausa sem reabastecer as energias sem acomodar o corpo sem fechar o olhos sem esticar os ossos numa cama ou chão e com os meus músculos rígidos sem relaxar sigo adiante sem interrupção sem repouso pois não há intervalo para afrouxar os passos ou motivo para diminuir o ímpeto de ir em frente e assim vou sem suspender o ritmo das pernas que andam nesse compasso rápido sem se deterem por nada com a mesma intensidade sem decrescerem a velocidade sem sustarem o movimento sem cessarem a ação portanto eu nem olho para trás para não perder um segundo sequer de espaço futuro caminhando assim sempre ao além do possível além das forças além da vida além do sonho para chegar ao ponto de descanso e com a vontade de ultrapassar todos os limites prosseguir para mim não existe ponto final vírgula ou reticências e só vou parar numa exclamação de alegria ou dor

 Fábio Roberto

quarta-feira, 7 de junho de 2017

O OLHAR

Quem irá entender as minhas palavras sem que passe pela cabeça que eu sou uma atitude vaga e penso sempre antes do momento existir?

Não tenho tempo para explicar o tempo do meu desgaste.

Não sou um bom amigo para beber cervejas sem falar bobagens próprias ou filosofar sobre uma frase de Thoreau.

Não sou um bom amante se não devorar a alma de quem amo e me entregar às mãos dessa amada como se ela fosse Deus.

Plantei filhos e para eles não transmiti mentiras sociais, para que pudessem colher da arte o alimento supremo na realização plena de suas vidas.

Eu sou um descasamento, sou certamente um errante. Um materializador de sonhos. Um destruidor de sonhos. Um pesadelo que faz sorrir.

Não sou um compositor de jingles, mas poderia colocar uma pimenta no seu doce de coco e vendê-lo como pipoca. Cantando.

Tenho medo de dor de dente, tenho medo de dor
no dedo, tenho medo de cebola.

Não tenho medo da morte, mas não a aceito agora, sem antes encontrar com o meu destino cara a cara com a faca na boca, a caneta na mão e um papel em branco para mostrar a ele que a poesia não precisa assistir ao por do sol ou a uma luta.

Ou será que um cego não pode ser poeta?

Mas não seria a morte encontrar-se finalmente com o destino?

Eu sei de tudo o que vivi ontem.
O meu ontem foi muito mais do que todas as vidas de muita gente.

Nossa, como sou arrogante!
E agora estou calmo demais.

O futuro está nos meus olhos.
O futuro está nos teus olhos.
Resta saber para onde iremos olhar.

Fábio Roberto


sexta-feira, 2 de junho de 2017

AMAR

Eu penso que amar é para fracos
que se despedaçam em cacos.
Gente que precisa de muleta
pro coração
não ficar jogado na sarjeta
da emoção.
Gente que se vê sem par
e logo corre pro bar
para afogar mágoas,
onde garrafas viram taboas
de náufragos num mar
de solidão.
Abandonam até o lar
na imensidão
de uma tristeza tão dolorida,
maior do que cabe na vida.

É por isso que sou forte
e não amo. Amor é morte.
Vou ao bar beber sem agonia.
Não importa se estou só,
pois mais dia menos dia
todos viraremos pó.
Resistirei, então, eterna e bravamente
a este sentimento
vagabundo, podre e insolente
que me ataca neste momento,
tirando dos meus olhos a cor:
a vontade de amar-te desesperadamente,
como se condenado fosse ao amor.
O que me mataria certamente,
como um inseto mata uma flor.

Devorando-a inteira e lentamente.


Fábio Roberto

quarta-feira, 31 de maio de 2017

À BAILARINA

Mulher dos sonhos transparentes,
lascivos e indecentes,
construídos na paixão.
Mulher, aceito a tua dança
formando aliança
com nossa ilusão.
Abraço a fome do teu corpo,
disfarço e bebo a tua dor.
Cansaço e mágoa de um morto,
faço-me assim o teu consolador.
Mulher, não se ama impunemente,
mesmo que a gente tente
não há como escapar.
Mulher, deixaste a tua lembrança
no beijo que ainda alcança
e torna-nos um par.
Apague essa realidade.
Negue ser de um deus cruel.
Faça em mim tua vontade.
Nasça a tua vida neste céu.

Fábio Roberto
(Poema do conto “A Bailarina, o Barman e o Pianista”)


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Os Olhos Da Lua - Raissa


Pequena criatura
Os olhos da lua te mostram o caminho
De outra missão
Corrente de água começa outro mar

A vida não esquece
Se em alguém permanece raiz e saudade
Morrer não é morte
Saudade é transporte

Agora tua festa de rabo-sorriso
É de estrela em estrela, passeio bonito
Coleira de nuvens
Tão grande o teu novo lar

Pequena criança ouviu o assobio
O chamado, o pedido desse outro amigo
Pois guarde esse dono (o dono do mundo)
Tal como comigo precisa tua brincadeira

Raízes de um coração
Não batem, só brilham
Não batem, só brilham

Não bate, só brilha



Fábio Roberto (musicado em 1983)

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

FILME

Longe de paixão ou sentimento
Lua minguante de inspiração, desejo
Sedento de estória, grua sem movimento
Pés devorados pela estrada, pejo

Desprotegidos olhos apagados
Desprovidos de esperanças ou medos
Palavras ao vento, sonhos enrugados
Trancafiando cantos, rimas e segredos

No coração do tempo ou do esquecimento
Verdade que na alma é o sangue que derrama
Dor do ator que não foge de comédia ou drama

Personagem sem roteiro, partitura, alento
A vida acorda e adormece sua arte no cimento
Perdeu a fama e cena no último fotograma



Fábio Roberto

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

ETERNIDADE

Uns têm história pra lembrar,
outros para esquecer.
Alguns têm vida pra cantar,
outros para emudecer.
Tudo não passa de um momento.
No éter fica todo sentimento
lindo, forte, intenso e imponente
relâmpago no céu da minha lente.


Fábio Roberto

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

DRAMA

O que há de se fazer quando a paixão morre
Além de poetizar uma canção e o porre
Sempre foi assim e assim será depois
Do próximo amor que nem chegou, já foi


Fábio Roberto

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

EPITÁFIOS

Rico: o futuro... adeus, pertences! 

Sovina: Deus me pague! 

Ateu: há...deus? 

Pobre: lápide retirada por inadimplência 

Gay: já dei o que tinha que dar

Devedor: devo, não nego, vem aqui me cobrar

Modelo: meu esqueleto veste um terno Giorgio Armani

Fumante: estou na área reservada para fumantes

Atleta: bati o meu recorde sem respirar!

Bombeiro: cheguei tarde, só restaram cinzas...

Pescador: tantas minhocas, mas cadê a vara?

Ansioso: já fui tarde

Incrédulo: isto não está acontecendo

Otimista: passei desta para melhor

Viciado: do pó ao pó e vice versa

Convencido: meus pêsames pra vocês

Marinheiro: terra à vista!


Temer: não renuncio à vida

Moro: tenho convicção que morri

Dilma: porque morte é morte, vida é vida e cada um é uma coisa

Lula: o comunismo se fidel!

Odebrecht: a obra deste jazigo foi realizada sem propina e aprovada pelo PMDB... 

Faroberto

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

PANDORA

Hoje o meu poema não é triste,
tampouco minha música alegre.
Mais rápido que os dedos num tuíte.
Lentamente quanto amor que desintegre.

Hoje é assim um quase ou quase nada,
tal como estar de fraque e ser um pária.
Fugaz como o amor que se evada.
Eterno como a voz em uma ária.

Não sei se é hoje o tempo desta história.
Sei lá se estou vivendo este agora,
ou se é um pesadelo da memória.

Pergunto ao céu se fico ou vou embora.
Não sei se é fuga, encontro, paz ou glória,
mas fecho-me na caixa de Pandora.


Fábio Roberto

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

A MOSCA

O tempo parece estar parado. Nada se moveu por uma eternidade até uma mosca pousar subitamente em meu nariz. Não sei por que não consegui mover braços para espantá-la, quando lembro imediatamente da canção “eu sou a moscaaaaa...”. A Brachycera voou e o tempo pareceu parado outra vez, mas há um ventilador girando segundos lentamente. Tão lentamente que não sinto o vento que ele faz. Aliás, nem sinto calor. Percebi que nem pisco, afinal o tempo parece não passar. Somente a mosca vai e volta. Ela tem asas e olhos enormes que me fitam fixamente, assim tenho certeza de que o tempo está inerte. Nos brilhantes olhos da mosca vejo refletido um ambiente morto. Como se fosse um fúnebre desenho. Mas não sei como é possível haver movimentos numa imagem estática. Como pode a mosca voar e o ventilador girar, mesmo malemolente, com o tempo e tudo mais imóvel? Por que não levanto, balanço pernas ou simplesmente grito? Descubro agora o motivo dos meus olhos não piscarem. Eles estão fechados como a porta que também se fecha, não antes de alguém desligar o ventilador e apagar as velas. Aqui somente a mosca continuará voando até cumprir seus trinta dias de vida e o tempo definitivamente parar. 

Fábio Roberto







sábado, 15 de outubro de 2016

EVOLUÇÃO

No fundo do poço existe outro poço e outro fundo do poço onde existe outro poço e outro fundo do poço.
E assim,
Sucessivamente.

Lenta,
Muito
L  e  n  t  a  m  e  n  t  e,
Nessa jornada ao inverso da vida haverá o revés do passo, pois que a vida não tem fim.

E será assim,
Sucessivamente,
Até que não existam poço e fundo do poço onde existam outro poço e outro fundo do poço e outro poço,

Que só restará a opção de subir.


Fábio Roberto