Este é o primeiro do ano
Tem jeito de ser antigo
Se pedir eu o declamo
Até mesmo empertigo
A roupa do esqueleto
Com voz firme e empostada
Canto tema obsoleto
E a palavra desgastada
O anacronismo do verso
Ou atemporalidade
O diletante universo
Que mora numa verdade
Tudo pra dizer que ainda
Te amo como amava ontem
A paixão já na berlinda
Os olhos que se aprontem
Pra despejarem o sorriso
Quando então lacrimejarem
Na paisagem que friso
Estórias que terminarem.
Fábio Roberto
quinta-feira, 31 de janeiro de 2019
sábado, 5 de janeiro de 2019
SORRISO
Que sorriso é esse?
Tem cara de lua
e jeito de sol.
A voz de uma deusa.
Olhar de oceano.
Infinito lugar.
Tem cara de lua
e jeito de sol.
A voz de uma deusa.
Olhar de oceano.
Infinito lugar.
ESCALADA
Cala a boca
Cala a burca
Cala a beca
Cala a barca
Cala a burca
Cala a beca
Cala a barca
Cala a bica
Cala o bolso
Cala o bico
Calabouço
Cala o bolso
Cala o bico
Calabouço
Cala a broca
Cala o breque
Cala a bronca
Cala o beque
Cala o breque
Cala a bronca
Cala o beque
Cala o brinco
Cala a bruxa
Cala o branco
Cala a brecha
Cala a bruxa
Cala o branco
Cala a brecha
Cala a bela
Cala a besta
Cala a bola
Cala a bosta
Cala a besta
Cala a bola
Cala a bosta
Cala o brusco
Cala a brisa
Cala a busca
Calabresa
Cala a brisa
Cala a busca
Calabresa
Cala o banco
Cala o brother
Cala a banca
Calabar
Cala o brother
Cala a banca
Calabar
Cala o beiço
Cala a bossa
Cala à beça
Cala a buça...
Cala a bossa
Cala à beça
Cala a buça...
Fábio Roberto
SEDIÇÃO
Tenho sede desde cedo
E logo cedo a te beijar
Seduzido eu me excedo
Que me sedo a marejar
E logo cedo a te beijar
Seduzido eu me excedo
Que me sedo a marejar
domingo, 9 de dezembro de 2018
A BELEZA
Viver é solitário
Uma festa com estranhos
Pesadelo hereditário
Um desejo tacanho
A fé de um otário
Um sorriso de estanho
Uma festa com estranhos
Pesadelo hereditário
Um desejo tacanho
A fé de um otário
Um sorriso de estanho
É certeira punhalada
Traiçoeira madrasta
Uma casa abandonada
Revelação que devasta
Vacilo numa emboscada
A palavra que afasta
Traiçoeira madrasta
Uma casa abandonada
Revelação que devasta
Vacilo numa emboscada
A palavra que afasta
É o total desespero
O mesmo de um aborto
Momento de destempero
Passo sóbrio, mas torto
Uma dor em exagero
A ilusão de um morto
O mesmo de um aborto
Momento de destempero
Passo sóbrio, mas torto
Uma dor em exagero
A ilusão de um morto
É uma pura heresia
O corpo que feriste
Marasmo, maresia
Saudade que persiste
Na alma e na poesia:
O corpo que feriste
Marasmo, maresia
Saudade que persiste
Na alma e na poesia:
Um canto belo e triste
Fábio Roberto
quarta-feira, 5 de dezembro de 2018
A CANÇÃO TRISTE
Um coração amargurado tem os seus motivos.
A inspiração que fugiu.
As mãos que se despediram do tempo.
A chuva que molhou o rosto
e se misturou com as lágrimas de uma dor lancinante,
como a de ver uma criança sofrer.
As mãos que se despediram do tempo.
A chuva que molhou o rosto
e se misturou com as lágrimas de uma dor lancinante,
como a de ver uma criança sofrer.
Não recrimine um coração amargurado, nem os seus motivos.
Pode ser mágoa por amor perdido.
A lua que se escondeu dos olhos pra sempre.
O vento que levou um balão para o céu desconhecido.
O sonho de toda uma vida que se dissolveu
subitamente, como castelo de areia na beira do mar.
A lua que se escondeu dos olhos pra sempre.
O vento que levou um balão para o céu desconhecido.
O sonho de toda uma vida que se dissolveu
subitamente, como castelo de areia na beira do mar.
Nunca duvide dos motivos de um coração amargurado.
E se for um violão velho e quebrado,
sem melodia, palavra ou voz?
Um pressentimento terrível de partida.
Desespero e tristeza maiores do que as de cão abandonado.
Ou simplesmente o alívio que só a morte traz
sem melodia, palavra ou voz?
Um pressentimento terrível de partida.
Desespero e tristeza maiores do que as de cão abandonado.
Ou simplesmente o alívio que só a morte traz
Fábio Roberto
segunda-feira, 1 de outubro de 2018
O TEMPO DE UM SORRISO
E justo quando a conjunção de todos os astros houve em noite bendita,
a minha alma de poeta estava distante, covarde, melancólica e aflita.
A palidez da pele era de cadáver, o espelho mostrava uma face espectro.
Mas se eu fosse tanta coisa ruim assim, eu mesmo me diria: - vai de retro...
a minha alma de poeta estava distante, covarde, melancólica e aflita.
A palidez da pele era de cadáver, o espelho mostrava uma face espectro.
Mas se eu fosse tanta coisa ruim assim, eu mesmo me diria: - vai de retro...
Olhando bem no fundo da retina, eu sabia que ainda me existia.
Ousei um desafio aos deuses. Sem resposta, alucinado eu insistia
até que as musas não me trouxeram palavras, me apresentaram a vida
de poeta na essência da poesia, de paixão eterna, mas em momentos combalida.
Ousei um desafio aos deuses. Sem resposta, alucinado eu insistia
até que as musas não me trouxeram palavras, me apresentaram a vida
de poeta na essência da poesia, de paixão eterna, mas em momentos combalida.
Descansei nos braços de uma melodia viva, ritmada, indomável, instigante.
Uma rima absurda, irreal, num verso nunca menos que per-verso e delirante.
Escrevi uma pauta sem compassos compostos, só para experimentar a normalidade.
Respirando com faro dodecafônico, só me restou o aroma agressivo da saudade.
Uma rima absurda, irreal, num verso nunca menos que per-verso e delirante.
Escrevi uma pauta sem compassos compostos, só para experimentar a normalidade.
Respirando com faro dodecafônico, só me restou o aroma agressivo da saudade.
Caminho de poeta traz alegria poderosa e deslumbrante, contagia, mas é fugaz.
Onde todos perceberão a guerra das vozes, ele ouvirá o silêncio austero da paz.
Não há como ele dividir, não pode, não deve compartilhar com o amor sua agonia.
Uma existência tão profícua, só dura luz e calor do sol que nasce e morre todo dia.
Onde todos perceberão a guerra das vozes, ele ouvirá o silêncio austero da paz.
Não há como ele dividir, não pode, não deve compartilhar com o amor sua agonia.
Uma existência tão profícua, só dura luz e calor do sol que nasce e morre todo dia.
Fábio Roberto
quinta-feira, 20 de setembro de 2018
EM QUALQUER LUGAR
Vou embora pra longe, me deixar só.
Não me espere que hoje não volto,
nem amanhã, nem depois.
Eu preciso pensar em nada,
sentir-me absolutamente vazio,
ser ninguém e de ninguém,
apagar meus rastros, vestígios,
sinais, memórias e indícios.
Vou sair à francesa, este filme é de
Hitchcock.
A janela indiscreta não mostra nem
parte do que vivi.
Muito louca a cabeça sonhando o que é
real,
se a felicidade não deixa a dor consumir-me
ao fim.
Vou embora, mas saiba, não estou a
fugir.
Isso tá mais com cara é de Baudelaire.
Eu preciso que tenha muito do que
beber por lá.
Não me espere que hoje não volto,
nem amanhã ou depois.
Fábio Roberto
domingo, 9 de setembro de 2018
INSÔNIA
Uma parte lutava pra dormir,
a outra insistia em pensar.
Fazendo uma parte se coçar,
a outra adorava oprimir.
Uma parte começou a deprimir,
outra não deixou de lhe espicaçar.
Essa parte só deixou de ameaçar,
quando a outra irritada fez bramir.
E assim noite adentro a esgrimir,
uma parte viu o tempo passar.
Desejando mais um pouco troçar,
a outra ficou a se consumir.
Breu confuso lhes restava exprimir.
Não puderam ou souberam conversar.
Duas vozes: a insônia a engessar
a ideia que nasceu só pra sumir.
a outra insistia em pensar.
Fazendo uma parte se coçar,
a outra adorava oprimir.
Uma parte começou a deprimir,
outra não deixou de lhe espicaçar.
Essa parte só deixou de ameaçar,
quando a outra irritada fez bramir.
E assim noite adentro a esgrimir,
uma parte viu o tempo passar.
Desejando mais um pouco troçar,
a outra ficou a se consumir.
Breu confuso lhes restava exprimir.
Não puderam ou souberam conversar.
Duas vozes: a insônia a engessar
a ideia que nasceu só pra sumir.
quinta-feira, 30 de agosto de 2018
Frases
Aperto
Para quem está com diarreia mais vale um penico do que um banquete.
Para quem está com diarreia mais vale um penico do que um banquete.
Faminto
Para quem está com fome mais vale um ovo estrelado do que um céu idem.
Para quem está com fome mais vale um ovo estrelado do que um céu idem.
Faroberto
do Livro das Frases, Questões e Trocadilhos
do Livro das Frases, Questões e Trocadilhos
sábado, 25 de agosto de 2018
POST MORTEN
Queria te dizer uma palavra
de alento,
só que o meu peito se abriu
antes
que você percebesse o
movimento
errado, estranho, frio,
deselegante,
dos seus passos e
pensamentos.
Sinto dizer que agora é além
de tarde.
Nenhum amor ou resto de nós
nos sucedeu.
Não adianta gesto, choro ou alarde.
Cada um dos nossos olhos já entardeceu
e é impossível ressuscitar os
sentimentos.
Não somos sombra ou mito do
que fomos.
Só emitimos este canto suave,
lindo e fúnebre,
réstia da lembrança onde nos
decompomos
tempo sem esperança,
dolorido, lúgubre
inteiro e em pedaços, partes,
fragmentos...
Fábio Roberto
sexta-feira, 24 de agosto de 2018
IDADE
A enganosa vingança do feio recalcado é quando o bonito envelhece e esse feio acha que o bonito finalmente ficou feio também. É que sendo feio por dentro e por fora ele não enxerga a beleza de almas sem idade.
Faroberto
quinta-feira, 23 de agosto de 2018
terça-feira, 21 de agosto de 2018
SEDE
Pode
a palavra apagar
Pode
o canto emudecer
Mesmo
se o dia dormir
Sem
que haja anoitecer
Pode
parar de brilhar
Uma
estrela ao morrer
Um
rio não mais navegar
E
a saudade esquecer
Nossa
história
Eu
lembro como fosse agora
Cravei
as mãos nas tuas costas
Deixando
dor/prazer marcados
No
corpo que era a minha cama
Gemidos
congelaram as horas
Os
gritos excitaram as velas
O
fogo mordendo os lençóis
Deu
sede que bebi teus lábios
Fábio
Roberto
segunda-feira, 13 de agosto de 2018
HERMETO PASCHOAL
Fabiografia Parte 9
CAPÍTULO 99 - OS SHOWS DA VIDA
Sexta estória
HERMETO PASCHOAL
Se fosse verdade a quantidade de gente que afirma ter estado no Show do
Hermeto Paschoal e banda no TUCA, aquele que virou lenda urbana, o público
lotaria um Morumbi. Realmente o teatro estava absurdamente lotado e posso dizer
que Jairo Medeiros, Marcos Araújo, Titi Trujillo e eu estivemos lá. Aliás,
depois que vimos o Bruxo atuar ao vivo pela primeira vez, comparecemos em
muitas outras oportunidades para reverenciá-lo. A banda era de impressionar
desde o mais aficionado e purista fã de jazz até o vanguardista mais radical e
revolucionário, pois Hermeto é tudo e mais um pouco. Ele é um som. É o som na
essência física, etérea, espiritual.
O grupo de multi-instrumentistas virtuoses se revezava em teclados,
cordas, sopros e percussões. Bombardino e tuba numa banda, por exemplo, eram
muito raros de se poder apreciar, mas os músicos de Hermeto os tocavam.
Entre tantos músicos fantásticos, discípulos do Mestre, dois eu tive
oportunidade de acompanhar mais de perto depois. Carlos Malta, o mago dos
sopros, em apresentações solo ou com outros artistas, e Itiberê Zwarg, baixista
e pianista que dava umas canjas surpresa na banda que acompanhava Sonia
Santhelmo na Baiúca Roosevelt. Coincidentemente, quando Sonia começou a cantar
tempos antes na Baiúca Jardins, o trio de músicos era integrado pelos irmãos do
Itiberê, o pianista Mário Zwarg e o baixista Ipojucan Zwarg.
Naquela noite no Tuca o show de Hermeto, que costumava ser longo,
transcendeu tempo e espaço. Explico. Transcendeu o tempo porque o evento pode
ter durado cinco horas ou dois dias, pois todos ali perderam a noção. Lembro
que foi um espetáculo onde o Bruxo dedicou-se muito ao piano, inclusive tocou
uma música composta na hora, tão divinamente bela e delicada, que só lágrimas
de emoção podem expressar o sentimento ao escutá-la. E transcendeu o espaço
porque os limites das paredes do teatro não seguraram Hermeto e banda, que
pegaram instrumentos, desceram do palco, andaram pelo meio da plateia e saíram
pra Rua Monte Alegre com o público atrás, tocando para uma lua espantada e com
as estrelas servindo de holofotes. As luzes dos prédios vizinhos também se
acenderam, as cabecinhas nas janelas e sacadas se maravilharam com o episódio
improvisado. Subimos e descemos a Monte Alegre atrás de Hermeto e banda junto
com o povo, completamente enfeitiçados, todos em puro êxtase.
Felicidade não é efêmera quando nascida da arte. Estamos todos lá e
dentro de nós, sorrindo, dançando e cantando até hoje: Hermeto, Banda, Povo e
nossas felicidades.
Fábio Roberto
RAUL SEIXAS
Fabiografia Parte 9
CAPÍTULO 99 - OS SHOWS DA VIDA
CAPÍTULO 99 - OS SHOWS DA VIDA
RAUL SEIXAS
O saudoso maluco beleza Raul Seixas tinha um público enorme e fiel, que o acompanhava nas apresentações e tocava suas canções em todas as rodas de viola das turmas não convencionais de Sampa. Não sei como nasceu a bobagem pejorativa da expressão “toca Raul”. Talvez porque seu público executava as músicas de forma muito simples. Mas Raul é um artista revolucionário na composição, que mistura diversos ritmos com o rock, tem ótimo nível poético, desenvolvido em temas polêmicos e fora de padrões, sendo ainda inovador na sua postura artística e pessoal, como contestador de conceitos, filosofias e sistemas sociais.
O saudoso maluco beleza Raul Seixas tinha um público enorme e fiel, que o acompanhava nas apresentações e tocava suas canções em todas as rodas de viola das turmas não convencionais de Sampa. Não sei como nasceu a bobagem pejorativa da expressão “toca Raul”. Talvez porque seu público executava as músicas de forma muito simples. Mas Raul é um artista revolucionário na composição, que mistura diversos ritmos com o rock, tem ótimo nível poético, desenvolvido em temas polêmicos e fora de padrões, sendo ainda inovador na sua postura artística e pessoal, como contestador de conceitos, filosofias e sistemas sociais.
O show que assistimos foi na quadra do Cursinho Equipe, pois o teatro era pequeno demais para Raul. Nessa oportunidade ele exibiu-se levemente embriagado, o que se notava pelo andar meio cambaleante, mas a voz e a performance estavam excelentes. Isso foi por volta de 1980, época em que Raul criou o “Rock das Aranhas”, cuja letra ele dizia ser uma homenagem ao não contato das coisas, uma sátira bem humorada ao homossexualismo.
A composição acabou tendo a sua execução pública proibida pela censura, só que nessa tarde ele cismou de cantá-la. De repente dois meganhas da polícia federal invadiram o palco, se identificaram, impediram Raul de continuar o rock que mexia com as estruturas e tentaram retirá-lo dali. A reação do público foi tão violenta que os fardados desistiram imediatamente da empreitada. Pois Raul voltou ao microfone e não intimidado com a confusão, leu parte da Declaração Universal dos Direitos Humanos, sendo aplaudido efusivamente e de pé por minutos. Raul Seixas levou o espetáculo até o seu final de forma irreverente e desafiadora. Diz a lenda que ele foi preso temporariamente depois do show.
Jairo Medeiros, Titi Trujillo e eu jamais esquecemos que testemunhamos esse grande ícone do rock brasileiro enfrentar a Ditadura com tanta coragem e talento.
Fábio Roberto
quarta-feira, 8 de agosto de 2018
A COR DO SOM
Fabiografia - Parte 9
Capítulo 99 - Os Shows da Vida
Capítulo 99 - Os Shows da Vida
Quarta estória:
A COR DO SOM
O Grupo “A Cor Do Som” integrado pelo eletrificado Armandinho, um dos maiores guitarristas da música internacional, fazia espetáculos impossíveis de serem assistidos sentados. Na verdade era uma farra, onde se pulava o tempo inteiro ao som alucinante da banda. Era uma época em que podíamos ser politicamente incorretos, não havia tanto mimimi, tampouco assédios forçados. Nos shows as pessoas se encostavam, se pegavam e deixavam rolar o que o sentimento da hora comandasse.
E lá estávamos Jairo Medeiros, eu e Titi, este último dotado de longos e bem cuidados cabelos. Tão atraentes que o negão que dançava atrás, imaginando que em sua frente rebolava uma donzela, abraçou o Titi bem forte. Quando este virou o rosto extremamente sério sem dizer palavra e com aqueles olhos arregalados tipo Jack Nicholson em “O Iluminado”, eu juro, o Negão ficou pálido! Balbuciou palavras tentando se explicar, enquanto Jairo e eu riamos incontrolavelmente.
Antes de Titi falar algo, o incauto Negão desapareceu sem nem saber se o nosso amigo tinha se apaixonado! Devem estar correndo até hoje, o Titi e o Negão.
Fábio Roberto
terça-feira, 7 de agosto de 2018
ALCEU VALENÇA
Fabiografia Parte 9
CAPÍTULO 99 - OS SHOWS DA VIDA
CAPÍTULO 99 - OS SHOWS DA VIDA
A terceira estória:
ALCEU VALENÇA
Décadas atrás li num jornal uma pequena matéria sobre um cantor nordestino que havia percorrido o centro de São Paulo de megafone, divulgando o seu show que aconteceria num teatro da Avenida São João. A sua primeira apresentação não tivera público, então o artista foi à luta. Isso ficou na minha cabeça porque Alceu Valença havia me impressionado num festival da TV Globo com a música “Vou Danado pra Catende”, onde a crítica especializada o apelidara com sua banda de Pink Floyd do Sertão. Quando soube que ele se apresentaria no Teatro Equipe, um dos espaços musicais que frequentávamos assiduamente, eu chamei Titi Trujillo, Jairo Medeiros e fomos lá.
Décadas atrás li num jornal uma pequena matéria sobre um cantor nordestino que havia percorrido o centro de São Paulo de megafone, divulgando o seu show que aconteceria num teatro da Avenida São João. A sua primeira apresentação não tivera público, então o artista foi à luta. Isso ficou na minha cabeça porque Alceu Valença havia me impressionado num festival da TV Globo com a música “Vou Danado pra Catende”, onde a crítica especializada o apelidara com sua banda de Pink Floyd do Sertão. Quando soube que ele se apresentaria no Teatro Equipe, um dos espaços musicais que frequentávamos assiduamente, eu chamei Titi Trujillo, Jairo Medeiros e fomos lá.
O diminuto teatro estava lotado e foi uma apresentação performática e musical memorável, ousada e bem humorada. Alceu chegou até a tentar construir uma “obra” empilhando cadeiras de madeira, que obviamente foram todas ao chão. Passamos a acompanhar por anos esse grande artista, até que a fama o tirou dos espaços alternativos da cidade.
Mas antes disso fomos a um show dele no Tuca. Chegamos cedo, mas aos poucos a enorme fila na entrada foi se avolumando e as pessoas se aglomerando ao ponto de ficarem literalmente grudadas umas nas outras. Em um momento bem sufocante eu fiquei entre duas garotas desconhecidas e não havia como nenhum de nós nos mexermos. A menina de trás me encoxava tão colada que eu sentia a sua respiração quente e sua boca resvalando no meu pescoço. E eu encoxava a moça da frente já quase me excitando com a involuntária, mas prazerosa situação. Até que a jovem, com extremo bom humor, virou a cabeça de lado, sorriu graciosamente e falou pra quem quisesse ouvir: - o chato é que aqui está tão apertado que nem dá pra sentir tesão! Saudades daqueles shows do Alceu...
Fábio Roberto
segunda-feira, 6 de agosto de 2018
LÔ BORGES
Fabiografia Parte 9
CAPÍTULO 99 - OS SHOWS DA VIDA
Esta é a segunda estória do
capítulo:
LÔ
Como os parceiros Beto Guedes
e Milton Nascimento, Lô Borges também tem conhecida timidez, talvez
característica dos músicos do Clube da Esquina, mas no caso dele mais fora do
que dentro dos palcos, onde apresentava seu brilhante repertório sempre acompanhado
por banda de alto nível.
Titi Trujillo, Jairo Medeiros
e eu fomos a um show dele no Teatro Getúlio Vargas, mas não sem antes fazermos
o Jairo assinar um termo se comprometendo a não solicitar músicas ao artista,
para não repetir o episódio do show do Beto... Neste, tudo transcorreu muito
bem e nos deslumbramos com o som do admirado compositor.
Terminado o espetáculo nos dirigimos
ao boteco que ficava ao lado do teatro, para refrescar as gargantas e comentar
arranjos e execuções das composições. Tinha pouca gente no bar e quando
estávamos na terceira ou quarta cerva entrou o Lô, logo depois seus músicos e
pessoas da sua produção. O cantor sentou-se ao balcão e pediu uma aguardente,
que servida bebeu de uma vez. Pediu outra dose e ficou ali sozinho, calado com
os seus pensamentos por poucos instantes. Sim, a paz do pós-show do artista
durou pouco.Enquanto Jairo entabulou conversação com o espontâneo e receptivo
baixista da banda, que já ficara amigo no boteco antes do show, Titi abriu
grande sorriso, levantou da cadeira e antes que pudéssemos impedir sentou-se ao
lado do Lô Borges dando abraço, pedindo autógrafo e
falando sem parar. A produção pagou a conta, levando Lô e banda rapidamente
dali.
Depois disso fizemos Titi
assinar um termo se comprometendo a nunca mais abordar artistas daquela
maneira. Pelo que lembro, no caso dele não adiantou!
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