domingo, 3 de janeiro de 2021

CENA

Não fiz a tradicional música do primeiro dia do ano,
Poema algum eu escrevi
E na verdade não me surgiram pensamentos ou saudades.
Há uma longa falta de tempo pela frente,
Tudo acaba ficando na vontade e só respirar é necessário.
Há uma longa falta pela frente,
Dessa vontade ou perícia, oportunidade perdida,
Desejo que se suicida feito o de um kamikaze
Que entrou de gaiato nesta estória
Deslocada de senso ou sensibilidade.
Há um longo vazio pela frente,
Mas que será preenchido cedo ou tarde ou noite ou madrugada,
Antes que eu durma ou no momento em que eu acorde dissonante
E saia andando como sempre, sem eira nem beira,
Até que o combustível do corpo evapore.
Porque este coração não tem estepe e os meus passos são cada vez mais...
Curtos, grisalhos, cansados como fim de outono,
Quando a vitalidade se esgotou e caíram todas as folhas, em branco,
E nem mesmo uma última tragada pra minimizar o drama num cigarro é possível,
Pois parei de fumar. Isso deixaria a cena melancólica, mas bonita.
Fábio Roberto



quinta-feira, 26 de novembro de 2020

SUB VERSIVO

 

Eu não crio um poema hoje
Se ao pensar questiono o motivo
Se não mudo o que fora e me entoje
Quando nem mesmo sei se estou vivo
Consideram-me tanto e o que foge
O que sinto será subjetivo?
Creio que neste agora despoje
Tudo o que nâo sou-me subversivo.

Fábio Roberto


quinta-feira, 8 de outubro de 2020

CLAVE DE FÁbio

a sonoridade das minhas unhas rasga o teu corpo inteiro.
a minha boca e dentes estalam na carne do teu pescoço.
a melodia é esta, de selvagem leão, e é o que compor eu posso.
é este meu desespero que te ofereço, linda, como fiel parceiro.
o meu coração irá parar de percutir nesta pauta partida,
pois em alguma noite eu me permitirei esta sábia decisão.
por enquanto, escute-me paixão, olhos, calor e tesão.
dentro de você eu canto o melhor canto da minha vida.
Fábio Roberto


SAL

Mas quem é esse que tanto falo em romance?
Esse não sou eu, então que eu pare antes que me canse.
Eu sou um poeta maldito que as palavras no papel vomita,
feito comida deteriorada e fria de suja marmita.

A minha poesia é para ser lambida pelos cães sem donos,
aqueles que bebem as águas apodrecidas nas sarjetas,
uivando para receber réstias de luar, como gorjetas
clamadas pelos miseráveis que habitaram tronos.

O que escrevo é uma ferida purulenta que nunca cicatriza.
É um sentimento que invade. Não se doma. Não se exorciza.
Corrói por ser lava que desce fumegante a encosta,
queimando a alma numa dor tão forte e poderosa que se gosta.

Estas são as declarações de amor deste visionário insano.
O sabor da minha boca pode ser amargo, estranho, obsceno.
Nunca será doce, tampouco suave. Eu não existo ameno.
Sou o tempero mergulhado sob as ondas do oceano.

Fábio Roberto 


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Patrícia Justino e Marco Silva
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domingo, 13 de setembro de 2020

OUTUBRO - À S.H.


Sim, tu foste eterna
e ainda és, em tantas canções e poemas
a ti dedicados.
Eu me pergunto sempre,
por que éramos tão jovens?
Pra onde estão olhando os teus olhos verdes
que iluminaram o meu coração?
Nesse tanto tempo,
que ventos acariciaram os teus cabelos,
soprando o dourado deles pra tão longe?
A vida separa afinidades e amores.
E não me conformo que eu não nos sabia,
não te compreendia e não me existia.
Eu te deixei ir embora lacrimejando paixão,
sem conseguir explicar o quanto eu também morria.
Talvez por isso a quantidade de escritos e melodias
criadas do nada depois, ditadas por tua inspiração.
Sei que não gostarias destas palavras quadradas.
Éramos undergrounds, contestadores, cults, “meio hippies”.
Diria que até demais, às vezes, um casal bem maluco.
É que hoje estou sem aquele texto ácido, ferino,
agressivo e irônico que me caracteriza.
Mas dane-se o mundo se estou convencional
neste momento em que é tarde,
muito tarde pra dizer “te amo”,
mas agora eu já disse.
Fábio Roberto
(não agüentei esperar outubro...)


segunda-feira, 7 de setembro de 2020

O PONTO

 Largar tudo e ir embora. Esvaziar gavetas, bolsos,

carteira, mente. No coração já não há nada...

Olhos fechados, sem lembranças. Ir embora sem destino,

sem violão ou caderno. Não deixar pegadas, rastro, cheiro

ou fumaça. Ausente de desejos, esperanças, raivas ou

arrependimentos. Partir subitamente, evitando explicações,

despedidas e comentários.O próximo lugar será nenhum ou

qualquer um, nem o destino me sabe. Agir assim por um tempo

indefinido até parar e apenas fluir no vácuo do pensamento.

Como se fosse um ponto que só pudesse ter sido visto pelo mais

poderoso dos satélites, no exato instante em que sumia e deixava 

um vago espaço.


Como se nunca tivesse existido absolutamente nada ali.

 

Fábio Roberto



domingo, 6 de setembro de 2020

VONTADE

 

Esse sentimento dá vontade
Da vontade de morrer
Esse sentimento da vontade
Dá vontade de explodir
Esse sentimento dá vontade,
Dá vontade de você
Esse sentimento da vontade
Dá vontade de sorrir,
Da vontade de viver
Esse sentimento dá vontade
Da vontade de morrer
Esse sentimento da vontade
Dá vontade de gritar
Esse sentimento dá vontade
Dá vontade de você
Esse sentimento da vontade
Dá vontade de chorar,
Da vontade de viver
Fábio Roberto



domingo, 26 de julho de 2020

INCERTO PLANETA

Estava deitado na praia uma noite
Quando você chegou,
Olhou bem no fundo dos meus olhos
E me devorou.
Estava deitado na praia ou no mar.
De dor e medo eu desmaiei,
Mas no meu sonho você também foi
Tanta luz e calor.
Estava deitado no mar ou no céu.
Estava deitado no céu ou no sol.
Estava deitado no sol ou no inferno
E você me beijou.
Estava deitado na praia essa noite.
Quanto tempo levou
Para pouco a pouco ir saciando
O que me alimentou?
Estava deitado no inferno ou na terra
De um incerto planeta.
A cor da paisagem se desfez
Dentro de você.
Estava deitado no sonho ou no mundo,
Por um século ou um segundo.
Não houve lágrima nem houve adeus
E você desapareceu.
Fábio Roberto
(vivido, escrito e musicado em 1981)


sábado, 18 de julho de 2020

A CERTEZA


Quando abri os olhos hoje o meu coração estava vazio e frio, distante de qualquer paixão. Tentei me esforçar e me lembrar se um dia eu amara alguém, por quem eu sofrera ou qual mulher me inspirara. Se uma deusa me tivera umedecido os olhos de emoção ou me fizera tremer o esqueleto, só de imaginar o toque poderoso e transcendente que revigorava a minha alma no tempo.

Mas nada me aconteceu na memória. Eu era sem história e estava ali, apenas, jazendo entre cada ar que respirava e mais nada. Eu, sem paixão, um ser disforme, indescritível, insólito, insignificante. Não havia som em mim, pois só a solidão me habitava e nem pensamentos acometiam a minha mente. Eu era como palavras apagadas, que nem rabiscos na página em branco deixaram resquícios.

E assim, no absoluto vácuo do meu peito, o coração palpitava em arritmia assustada, temeroso de nunca mais haver nem dor, nem uma pontada de agonia e tendo ainda que testemunhar toda a possibilidade de sorriso ser sugada instantaneamente de forma cruel e sadicamente violenta ao limbo, pelo simples fato de não ter permanecido em mim um amor sequer.

Mas no meu íntimo mais profundo eu duvidava dessa falta de sentimentos. Eu tinha a sensação de ter experimentado romances intensos, relacionamentos dramáticos e aventuras perigosas. Não acreditava que eu fosse esse personagem destituído de desejos ardentes, afetos fascinantes e amizades alimentadas por atração que beirava a veneração, o vício, a lascívia e a imoralidade.

Não sabia se realmente eu houvera acordado, mas quisera ter recolhido forças e despertado deste pesadelo gritando o nome de uma Musa. O nome dela, cuja rara e infinita paixão não pudera ter sido explícita e revelada ao mundo, mas fora cantada em melodias sopradas pelos ventos e rimada em versos desenhados nas nuvens. A vida, quando morre, sabe que existiu. Então fecho os meus olhos agora, com a certeza de ter vivido tudo o que escrevi e cantei.

Fábio Roberto