domingo, 15 de abril de 2018

INGREDIENTES

Paixão não se alimenta de fermento,
que só serve para crescer a massa,
sem dar sabor algum ao sentimento.

E sem recheio até um grande amor passa.


Faroberto


BOM DIA

Machucado, mas alegre,
bom-humor é uma febre:
caveira sempre sorrindo.

Prossiga o mundo dormindo
quando o escuro, ainda nem findo,
o amanhecer eu celebre.



Faroberto


sábado, 14 de abril de 2018

POETAS dos POEMAS BRABOS

Restaram poucos dos poetas
brabos no octógono das linhas.
Almas quando são analfabetas
voam longe, feito andorinhas
procurando o colo de um verão.
Medo de um tenebroso inverno
que lhes prenda o verso no alçapão.
Vivem em grades do silêncio eterno.

Aves brabas sobem muito além,
nunca temem pedra de estilingue.
Brotam-lhes palavras no harém,
para que a escolhida vingue.
Forma-se na página um ringue.
Polemizadores nos seus córners.
Escrevem tanto, até que o sangue pingue
e a folha inteira um poema adorne.


Faroberto


sábado, 7 de abril de 2018

POVO VALENTE

Na minha adolescência, no meio da década de 70, vivíamos sob o jugo de uma pesada ditadura militar, com direitos suprimidos e praticamente sem liberdade de expressão, como se sabe. Nem eventuais imbecis batedores de panelas podiam bater panelas, mesmo porque os covardes se escondiam em suas tocas.
Incrível dizer isso hoje, mas o meu cabelo nos ombros, junto com a colorida bolsa de crochê a tiracolo, tamanco nos pés, jeans surrados no corpo e ideias na cabeça, causavam a repulsa dos convencionais.
E estamos vivendo uma ditadura e um retrocesso novamente. Há uma guerra civil causando a morte do povo nas ruas e uma máfia no poder, que tomou conta de todos os setores da sociedade. O golpe ainda em andamento foi diferente do daquela época. Tanto que agora boa parcela da população, mesmo sofrendo a cada dia maiores injustiças e contando com cada vez menos benefícios, nem percebeu a realidade que a cerca. Não vê que alimentou o predador que a está devorando vorazmente, como um boi pelas piranhas.
Naquela época fiz uma canção e só espero que o fim da estória seja outro:

POVO VALENTE
Olha o povo vem vindo
Olha o povo marchando
Olha o povo sorrindo
Por não poder chorar
Olha o povo cantando
Olha o povo sangrando
Olha o povo pegando
A viola pra guerrear
Cantam hinos valentes
Bem defronte aos canhões
Vê como balas calam as vozes
Que clamam paz
Mas outro, pega a viola
E outro vem pra cantar
Olha o povo cantando
Por não saber lutar
Olha o povo valente
Vem sangrando e sorrindo
Olha o povo morrendo
Por não saber matar
Fábio Roberto

sexta-feira, 6 de abril de 2018

NÃO TENHO TEMPO

Estão todos dormindo
mesmo quando despertos,
ou até mesmo fingindo
que seguem vivos e espertos.

Dizem que o tempo é implacável
e falta mais do que dinheiro.
Desculpa insustentável
na boca de loroteiro.

Fábio Roberto
Do Livro dos Poemas



domingo, 1 de abril de 2018

FICÇÃO

Criei o roteiro de um filme sobre a história do futebol. Nele eu abordo desde o início, quando os chineses inventaram o macarrão, a roda, o fogo, a cerveja e a bola, explicitando que a origem do jogo propriamente dito, com regras, traves e árbitro, derivou-se de danças africanas, principalmente da cultura Zulu.
Conto que o esporte difundiu-se no Brasil por conta dos homens aqui trazidos como escravos, que popularizaram o futebol juntamente com a capoeira, o candomblé, a feijoada, o samba, o carnaval e o jogo do bicho (com os animais que habitavam aquele continente).
Descrevo como Maradona dedicou o seu milésimo gol às criancinhas e Pelé livrou-se arduamente do vício das drogas. Falo a respeito de um grupo de atletas brasileiros que na década de 80 se rebelou contra as regras do sistema esportivo, realizando um movimento denominado de Democracia Palmeirense.
Não deixo de fora momentos curiosos como a invenção da bicicleta por Dario Maravilha, da folha seca por Marcelinho Carioca e do cartão vermelho por Luis Fabiano.
Demonstro que foi Afonsinho quem desenvolveu o mecanismo dos passes dos jogadores pertencerem aos clubes.
Aprofundo as explicações de que Garrincha driblava mal por ter pernas tortas e mostro que Rivelino disputava as competições oficiais vestindo a camisa do São Paulo por baixo da dos seus times.
No final revelo que Tostão é o Pai do Real e, doa a quem doer, provo que Rogério Ceni foi o melhor futebolista de todo os tempos, atuando na linha. Vou parar por aqui para não entregar todas as surpresas.
Eu agradeço se alguém puder indicar um diretor de cinema bom nessa coisa de Baseado. Baseado em Fatos Reais, claro!
Fábio Roberto

sexta-feira, 30 de março de 2018

UM

Fui colocado fora dos meus planos.
Aeroplanos.
Fui colocado fora dos teus planos.

Adormeci fora do meu sonho.
Medonho.
Adormeci fora do teu sonho.

Fui andar longe dos meus passos.
Descompassos.
Fui andar longe dos teus passos.


Eu me vi com outros olhos.
Abrolhos
Eu te vi com outros olhos.

Quero o nosso espelho de volta
para eu me enxergar e ver você.
Quero o nosso espelho de volta
para eu te enxergar e me ver.

Quando não somos um sou nenhum.

Fábio Roberto


quinta-feira, 29 de março de 2018

EXEMPLO

Eu sou um exemplo de homem.
Um de uma intensa mulher e só.
Os outros vulgarmente as comem,
maltratam suas peles sem dó.
Usam, abusam e somem.
Nasce o dia e o amor vira pó.

De homem sou modelo nobre e raro.
Um que sempre ampara a sua dama.
Os outros não deixam nada claro.
Só as querem levar para uma cama.
Dizimam-lhes o prazer como ácaro.
Corações nem no eletrocardiograma.

Eu sou incomparável como amante.
Satisfaço plenamente a minha Deusa.
Os outros querem os dotes de Bacante,
servem-nas como vinho e adorno à mesa.
Depois, em gesto ingrato e ultrajante,
oferecem-lhes a solidão como surpresa.

Eu e apenas eu sou desigual.
A minha Musa é um sorriso eternamente.
As outras, sem paixão tão surreal,
no rosto uma tristeza transparente,
no corpo uma doença terminal
e a dor de uma alma evanescente.

Fábio Roberto

Do Livro dos Poemas


terça-feira, 20 de março de 2018

REFLEXÕES ESPORTIVAS

Na Fórmula 1 também é proibido dar carrinho.

Intelectual só faz gol de letra?

Metalúrgico só faz gol de placa?

Chifrudo pode fazer gol de cabeça?

No basquete o buraco é mais em cima.

Futebol feminino é para quem tem peito.

Dopingpong é doping no tênis de mesa.

Jóquei tem obrigação de lavar a égua?

O vencedor sempre tem espírito esportivo.

Para revelar ser gay no futebol tem que ser macho.

Surfista só faz onda.

No automobilismo vivem fazendo planos-pilotos.

Jogador daltônico nunca leva cartão vermelho.

Goleiro é a sogra do futebol.

No esporte feminino mulheres menstruadas não fogem às regras.

Pode um iatista usar camiseta pólo e um praticante de pólo usar camiseta regata?

Futebol é uma invenção bem bolada.

O inventor do vôlei teve uma grande sacada.

Se você estiver com a pressão alta não exagere no futsal.

Jogar tênis smash comigo.

Goleiro é a sogra do futebol.

Se no futebol tem voleio deveria ter futeboleio no vôlei.

Quando apronta o filho do árbitro leva um a-pito.

Quando bebe muito o jogador de vôlei ressaca...

Dúvida: se jogador de futebol tem que ficar concentrado, um pensador tem que ficar disperso?

O homem tem três profissões-lazer no mundo: ginecologista, ator de filme pornô e comentarista de futebol.

Tem atleta que não é titular nem da esposa.

O lutador perdeu a competição porque não se a-judô.

É proibido ofender qualquer pessoa. Juiz de futebol não é uma pessoa.

E disse o recordista ao receber o troféu: pódio deixar comigo.

Fábio Roberto

Do Livro das Frases, Questões e Trocadilhos


domingo, 18 de março de 2018

CEPA

Decepar
A copa da árvore
Encorpar
A capa da culpa
Capar
A capacidade
O cepo
De mármore
Céptico
Capim capoeira
Cepa
Decepar
A decepção

Fábio Roberto

Musicado em 1996


quarta-feira, 14 de março de 2018

BOMBA

Neste mundo tão traiçoeiro e triste, ser feliz é uma tragédia.

Os dentes escarnecidos e sarcásticos das almas banguelas, retratam o que é rastejar em âmbito inferior.

Nós, otimistas e sonhadores de existências pautadas pela sensibilidade artística, acreditamos em outras vidas, alegrias, desastres, universos, dimensões, atitudes, suicídios, nascimentos, decepções...

Ou seja, sabemos que apesar das maldades em que nos envolvem e das dificuldades pelas quais passamos, um único momento verdadeiro e absoluto de amor e paixão nos motivará a ir em frente.

Toda poesia cabe numa lágrima. Cabe também em um sorriso. Não cantamos uma coisa ou outra. Somos inteiros.

E faremos essa gente podre se torturar e sangrar quando, mesmo com o coração dolorido ou o corpo machucado, soltarmos a gargalhada sincera e retumbante que ecoará em suas mentes como se fosse a contagem regressiva de uma bomba prestes a explodir.

Fábio Roberto
Do Livro de Textos e Crônicas



terça-feira, 13 de março de 2018

MALDOSO

Considerava-se Perverso. Tentava ser o pior homem da face da Terra. Nunca dormia o sono dos justos. O seu grande sonho era tornar-se o inimigo público número um.

Mas por pior que tentasse ser, não conseguia. Todos gostavam dele e desejavam conhecê-lo, compreendê-lo e ajudá-lo. Justo ele que queria ser odiado. Queria ser apontado nas ruas como marginal. Queria ver o seu nome nas páginas policiais como bandido perigoso, para que as pessoas fugissem de medo ao avistá-lo.

Maldoso, fazia cara de ruim, mas as crianças o chamavam de “tio” e iam com ele brincar. Chutava os cachorros que atravessavam o seu caminho, mas eles voltavam com o sorriso no balançar frenético do rabo. Vagabundeou, mas lhe ofereceram um ótimo emprego. Roubou e pelo roubado foi perdoado. Pecou, desejando a mulher do próximo, mas o próximo se ausentou.
Cansado, caiu na realidade e entristeceu.

Chegou a noite e foi se esquecendo em um canto, afundando em seus pensamentos. Derramou muitas lágrimas pelo seu fracasso.
Enfim, refletiu e arrependeu-se, compreendendo que não nascera para ser mau. Começaria nova vida mudando seu modo de ser, agir e pensar, agradecendo a todos que o tinham respeitado até aquele momento.

No outro dia morreu e sua alma foi arder no inferno.

Fábio Roberto

Do Livro de Textos e Crônicas

sábado, 10 de março de 2018

PREGADORES

O pregador estava velho. Sua madeira amolecida quase se desmilinguia sozinha. A presilha enferrujada praticamente já não permitia que ele se sustentasse no varal. Era um esforço hercúleo. E ficava ali abandonado, sujeito às intempéries, sem prender uma calcinha, uma cueca, uma simples meia furada.
Foi então que ele olhou pra cima e viu uma luz. A luz sempre estivera ali, mas ele nunca tinha notado. Subitamente dessa energia retumbou uma voz grave, instigante e gutural que lhe falou: cumpra a sua missão!

Imediatamente, tomado pela emoção, desprendeu-se do varal e espatifou-se no chão. Dolorido, mas tomado por uma força sobrecoisa, já que não era humano, juntou os seus restos e passou a pregar palavras.
Tornou-se o mais rico, influente e respeitado pregador que já se conheceu.

Fábio Roberto
Do Livro de Textos e Crônicas

sábado, 3 de março de 2018

FUMAÇA




Foi o tempo de fumar um último cigarro,
lentamente retirado do derradeiro maço.
O isqueiro falhou, mas não o teu charme.
Eu vou me dissolvendo, feito de barro.
Eu vou me desbastando, pelo cansaço,
mas teus olhos inda estão a chamar-me.
Você traga profundamente, eu viro fumaça
misturada com o ar e o vento a dissipa.
Meus restos descansam displicentes no cinzeiro.
Meio cigarro queimando o minuto que passa
e a minha boca o teu beijo antecipa.
O beijo que me tornaria vivo e fidalgueiro.
E súbito nos toma mais que doída saudade:
teus olhos pedem pra ficar dizendo adeus
e eu não impeço esta tua decisiva tragada.
Ah... como eu queria ter o tempo da tua idade,
desde sempre e para sempre aos olhos teus.
A solidão jaz no cinzeiro, apagada...
Fábio Roberto
Do Livro dos Poemas Cap. Musas

quinta-feira, 1 de março de 2018

POEMA APAGADO

O poema mais bonito não será escrito.
Ele não será parceiro da melhor música.
Tanto faz fosse romântico ou maldito
e fosse melodia profana ou lúdica.

Pouco importa, pois ele jamais será escrito,
declamado, lido, ouvido ou sentido.
Não nasceu, não existiu, mas morreu. Foi proscrito
pra exilar-se apagado, nobre, partido...
Letras jogadas ao chão do papel, sem a musa
a inspiração que vá procurar outras penas.
A palavra amor, som da vida, é intrusa.
E a vida é a espera de morrer, apenas.

Fábio Roberto
Do Livro dos Poemas Cap. Musas


domingo, 25 de fevereiro de 2018

Amor, Paixão e Tesão:

Quando é amor é medido pela dor da saudade e intensidade do reencontro.
Quando é paixão é medido pela dor da saudade, intensidade do reencontro e quantidade de orgasmos.

Quando é só tesão não dá tempo de medir nada. É sexo e sacanagem o tempo todo.
Quando é amor, paixão e tesão ao mesmo tempo, você está sonhando!

Faroberto
Do Livro das Frases, Questões e Trocadilhos

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

RAP DO CAPITALISTA (2012)

Grife, grana e de gravata é um tolo, chauvinista
O que fala é só bravata, fingindo de idealista
Vive de golpe e mamata, posando de moralista
Dotado de quatro patas, envergonha darwinista
Eu na vida autodidata, você um ilusionista
Siga sendo uma errata, eu prossigo um anarquista
A postura burocrata te fará ser congressista?
Manda aí tuas cascatas, não passa de um vigarista
Vestido de diplomata na corrida armamentista
Postura pobre e primata, nem te salva um exorcista
O teu corpo é uma sucata, me xinga de comunista?
Viva com merda e baratas, otário, capitalista!

Fábio Roberto
Pra II Mostra Artística da Turma Braba

domingo, 4 de fevereiro de 2018

A PRESENÇA DA MULHER

A presença da tua mulher não está no perfume que ela usa, mas no aroma que ela deixa. Não está na palavra que ela diz, mas no olhar trocado que tudo entende. Está na mão que acaricia a tua pele à distância. Está no beijo de anteontem que continua na tua boca até agora. Está no abraço que é sentido em cada momento de carência, aquele onde o frio da solidão te ataca feito uma faca no estômago.
A presença da tua mulher está na inexistência da dúvida. Ela demonstra o amor de forma tão clara que seria estúpido não crer. Está na forma dela andar ao teu lado. No mesmo ritmo, no mesmo compasso. Está no jeito que ela te olha quando está com os amigos dela. Se ela te olha admirada, se ela tem orgulho da sua companhia, ela está inteira com você. Se ela fala de você tão naturalmente na tua presença, que parece que te conhece há vidas, ela te ama de verdade.
A presença da tua mulher é real quando ela não te esconde de nada. Por que os outros, quem são os outros para ela? A tua mulher está presente quando não sai do teu pensamento nem o balançar dos cabelos dela. Nem a forma como ela se despe pra você. Ou a expressão de êxtase que ela faz quando você a explora com mão de moleque ou a invade com a paixão mais enlouquecida.
Está no sono que ela tem depois de te amar intensamente. Se ela adormece linda, totalmente nua e tranquila, ela confia, ela está com você.
A tua mulher está presente quando a ausência dela é tão doída, que você prefere ter qualquer dor a não tê-la perto. Certamente essa mulher te deu um presente inesquecível: um amor pra sempre.
Pra sempre será pouco tempo na presença dessa mulher.


sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

ZUMBIDO (texto para o clipe)

O Zumbido que me enlouquece é a voz da solidão que sinto neste planeta desconhecido. Dói na alma a angústia de viver aqui, sem poder melhorar os destinos, impotente frente à realidade cruel que não se transforma.
A beleza do que admiro em cada paisagem da natureza ou gesto caridoso de humanidade, não torna existir mais suportável. Pouco há que suavize esta provação.
As palavras e as melodias que recebo tornam-se a esquizofrenia de um ser atormentado, que tenta escapar por instantes da prisão cantando a agonia ao universo.
Vez ou outra uma Musa surge inspirando obras que descrevem amor e paixão, emocionando o infinito. Mas isso dura o tempo de um sonho, como se fosse um relâmpago no céu da eternidade.
O que resta ao acordar é o vazio e buscar novamente algo que me complete, provoque, envolva, motive, entorpeça, anestesie, drogue, inspire, apaixone...
Não sei se eu sou Um Açoite ou Uma Espada. Talvez eu seja Um Grito Pichado No Muro. Um Zumbido. Que Zumbe e Zumbe e Zumbe...
Fábio Roberto

BEIJO DA MADRUGADA

  

Por que tu me beijaste eu não sei.
Será por que tu me notaste triste?
Será por que o meu coração ouviste
descompassado, amargo, fora da lei?

Não sustentei olhar teus olhos refulgentes,
sorrindo pro meu rosto de indigente.
Só admirei os teus bailados deslumbrantes,
a desfilar-me paixão louca e vibrante.

Por que tu me beijaste, madrugada,
se cedo tu fugias pro teu dono
e o dia preparava outra cilada?

Restou-me a luz pungente do abandono,
minha poesia estéril ou calada,
se a lua adormeceu eterno sono.

Fábio Roberto