a vida segue o seu rumo. portanto, não tem culpa de nada, culpado é o rumo. a vida é um simples roteiro de novela. não é literatura nobre. a vida fica tão estupefata quanto os seus personagens a cada cena rodada. a vida é a metalinguagem da eternidade. tudo muda na vida, mas a vida é sempre a mesma. ela não tem uma face. não tem corpo próprio, é uma incorporação. a vida é uma alma percorrendo ora o limbo, ora o olimpo sem estar ou ficar em lugar algum porque está em todos. é muito difícil ser a vida, sempre insatisfeita com ela mesma porque sabe que poderia ir muito longe, mesmo não sabendo aonde ou quanto. por isso a vida e só a vida não teme a morte. não existe sem ela. a morte é o pulmão da vida. sem a morte a vida seria apenas tristeza. perderia a graça, o mistério e a beleza. por isso morro agora. assim eu volto a ter graça, terei algum mistério, quem sabe alguma beleza. poesia certamente não possuirei mais para não ser triste nem ter felicidade efêmera. poesia é morte, lágrima nos olhos e sorriso no canto da boca da vida sem face.
sábado, 4 de novembro de 2017
SILÊNCIO
Meu violão ficou sem cordas,
mas eu que perdi a fala.
Palavras vieram, hordas,
juntei-as numa cabala,
segurei-as pelas bordas:
o poeta um dia se cala.
mas eu que perdi a fala.
Palavras vieram, hordas,
juntei-as numa cabala,
segurei-as pelas bordas:
o poeta um dia se cala.
terça-feira, 31 de outubro de 2017
MAGALI
A maioria das mulheres que passaram pela minha vida virou poesia e canção, fossem Musas eternas ou de um momento.
Escrevendo a quinta parte da Fabiografia descobri que importantes amigas não haviam sido brindadas com essa tradição. Quarenta e nove anos depois me redimo desse descuido escrevendo para a primeira namorada oficial, que representará as outras meninas e mulheres que amei sem compor ou poetizar.
Da Fabiografia Parte 5
MAGALI
Maga, a feiticeira de abrir sorrisos
Amiga de pensamentos precisos
Olhos espertos, vivos e curiosos
Corpinho de movimentos teimosos
Escapando lépida da bola na queimada
Canta comigo, menina apaixonada
Brinca aventura no barracão escuro
Não importa qual foi nosso futuro
Pularemos muro, a infância, o tempo
Buscaremos na memória o sentimento
Viveremos a alegria que transborda
O relógio andou sem darmos corda
Cada um buscou a ilusão de sua paz
Quem virou a página sem olhar pra trás?
Quem será você hoje além deste poema?
A fotografia é a saudade suprema
De ser feliz, herói, ter esperança
Mas isso fica pra quem agora é criança.
Maga, a feiticeira de abrir sorrisos
Amiga de pensamentos precisos
Olhos espertos, vivos e curiosos
Corpinho de movimentos teimosos
Escapando lépida da bola na queimada
Canta comigo, menina apaixonada
Brinca aventura no barracão escuro
Não importa qual foi nosso futuro
Pularemos muro, a infância, o tempo
Buscaremos na memória o sentimento
Viveremos a alegria que transborda
O relógio andou sem darmos corda
Cada um buscou a ilusão de sua paz
Quem virou a página sem olhar pra trás?
Quem será você hoje além deste poema?
A fotografia é a saudade suprema
De ser feliz, herói, ter esperança
Mas isso fica pra quem agora é criança.
Fábio Roberto
sábado, 28 de outubro de 2017
FOGO
Eu te queimo
E em te queimar eu teimo
Eu te domino e queimo inteira por dentro
Pelas pontas, pelos poros, pelo centro
O meu calor vai percorrendo teu organismo
Num ardor como se fora um eufemismo
Mesmo se do teu corpo estiver fora.
Queimo sem parar e a toda hora
Porque queimo mesmo havendo esta distância
Queimo seja qual a circunstância
Teus lábios sentem minhas labaredas
Mesmo que queimar não me concedas.
Queimo-te no sonho em que me abraças
Teus olhos brilham feitos duas brasas
Queimo até virarmos só fumaças
Estrelas fumegantes nossas casas
Se em cinzas porventura transformados
Ou se dissipados pelos ventos
Queimaremos ainda apaixonados
Queimaremos se existirem pensamentos
Os nossos sentimentos escaldados
Sorrisos serão deles
testamentos
Fábio Roberto
quarta-feira, 25 de outubro de 2017
EXERCÍCIO DA GUERRA
Rajadas de metralhadoras são expelidas por consideradas bocas santas. As más línguas, com seus ditados impopulares, espalham a notícia. O Alfabeto traído, encurralado no beco escuro da ignorância, foi assassinado sem dó nem piedade. A escrita e a fala não mais existem. O analfa matador de aluguel grunhe um som ininteligível de vitória. Ao mesmo tempo, perto dali, nasce a Mímica.
LOBO
Noite sem lua.
A luz está escondida atrás das nuvens dos olhos fechados.
Noite sem uivo.
O sentimento está oculto no íntimo do corpo cansado.
Mas, de súbito, os olhos se abrem, as nuvens se dissipam,
A lua aparece, a emoção se solta
E o coração bate forte, compassado,
Rompendo o silêncio da solidão de vasto mundo.
O uivo que seria lúgubre e melancólico,
Não ressoa no breu da vida.
O lobo estanca o grito, maravilhado
Com um sorriso arrepiante que vislumbra no infinito.
No céu da boca e no canto dos seus lábios, ele
Timidamente espasma um quase sorriso em retribuição,
Admirando o sol nascer só para haver esperança
De um dia melhor.
E assim, foge sereno e majestoso para a distância em que habita.
Fábio Roberto
terça-feira, 24 de outubro de 2017
M USA
Não posso e não vou dizer aqui o teu nome,
justamente aqui onde consigo me expressar.
Quem me sabe, sabe o tamanho da minha fome.
Conhece esta volúpia que cresce e nunca irá passar.
Sou um devorador voraz, mas sensível do tempo.
Ansiedade pra mim morreu ontem, ou antes,
atrasada perante a pressa do meu sentimento.
Renasço, sem que do cadáver minha alma se levante.
Ah, mas se poeta sou, não tinha que palavras soar.
Se minha boca fechasse, mosquito nenhum entrava.
Não existiria confusão ou algo a nossa alegria amaldiçoar.
Nem conheceria o tormento que a frase correta trava.
Não posso e não contarei aqui como tu chamas.
Só quero gritar ao mundo que te amo,
no precedente instante que me apague a chama
dos olhos, da mente, do sangue que derramo.
Não falarei, deixo musicada e escrita a minha herança
explícita, óbvia, claríssima, a ti inteiramente dedicada.
À minha musa coberta de paixão, sonho e esperança,
precisavam falar meus olhos, sons, poemas e mais nada.
Fábio Roberto
segunda-feira, 23 de outubro de 2017
A IMUNIDADE
Eu sempre fui considerado e sempre me senti diferente de
seres humanos. Nem melhor, nem pior, apenas diferente, mesmo porque, de
modéstia e humildade incomparáveis, mesmo nascido leonino, não tenho
insegurança em me saber longe da mediocridade mundana. Portanto, com essa
decisiva ausência de dúvida, pior que outros jamais eu seria.
Os humanos, na maior parcela de sua vasta população, são
sujos, nojentos, desprovidos de sensibilidade e inteligência. Raramente são
caridosos e restringem a prática da solidariedade ao acontecimento de tragédias,
apenas porque pensam que pode acontecer com eles amanhã. Interesseiros, amorais
e antiéticos, são os maiores destruidores do planeta, consumindo avidamente a
natureza, os animais e seus semelhantes, predadores de si mesmos sem nem
perceberem, devorando-se dos pés ao pescoço até a inanição absoluta.
Obviamente toda exceção tem uma regra e no caso dos humanos
é algo a ser conferido, pois os que se destacam das premissas apontadas
provavelmente habitam este espaço forçadamente, não são daqui, exatamente como
eu.
Realizei esta digressão para situar a imunidade apontada no
título do capítulo: o estranho fato de Faroberto nunca ter sido acometido de
uma mísera gripe. Pergunto-me há anos como é ficar constipado, com dores por
todo o corpo, cabeça pesada rodando e com desvarios pela febre alta. Espirros
intermitentes, frio intenso, olhos vermelhos lacrimejantes. O pulmão saindo
pela boca por causa da agressividade da tosse. Todos os mais de 298 sintomas ou
resultados dos famigerados vírus já descobertos, eu nunca tive a oportunidade
de sentir, provocando o menosprezo, a inveja, o preconceito das pessoas,
inclusive dos amigos próximos.
E olha que eu tentei de todas as formas ser contaminado.
Andei durante invernos no horário de pico em ônibus e metrôs lotados de gente doente.
Perambulei nos prontos socorros de hospitais públicos de baixo nível, repletos
de enfermos. Visitei amigos combalidos e prestei assistência a desconhecidos
empalamados. Fiquei o mais próximo possível das amigas achacadas por meros
resfriados ou por vírus influenza A, o pior e mais fatal. Colei no corpo e na
alma das minhas Musas da Vida quando debilitadas por fortes gripes, fazendo
amor delicadamente por dias, trocando fluídos e energias intensamente. Em vão. Nada
aconteceu. Nem um simples espirro eu consegui obter, restando-me apenas a
frustração e a sensação de ser um pária, proscrito até dos exilados de Capella.
A inusitada imunidade foi notada quando eu era um roliço
bebê, um dia em que a minha mãe, por compromissos inadiáveis, deixou-me na
creche da Antarctica, empresa onde o meu pai trabalhava. A quantidade de
crianças era enorme e todas, de forma praticamente epidêmica, estavam gripadas.
A minha chegada causou espanto. Primeiro pela recusa taxativa em beber leite. A
mera proximidade de uma mamadeira com esse líquido asqueroso causava jatos
certeiros de vômito, que se espalhavam no ambiente atingindo as enfermeiras.
Segundo pela contagiante alegria e impressionante saúde. Imediatamente os médicos
infectologistas do Hospital Santa Helena foram chamados pelo pediatra da
creche, preocupado que eu estivesse com uma nova modalidade de vírus incubado,
que talvez se manifestasse violentamente depois. Exames de todo o tipo foram
realizados sem nada constatar, então fui liberado no fim da tarde, com a
recomendação de observação cuidadosa e diária pela prestimosa Lourdes, mãe
exemplar e enfermeira de carreira.
Quem consultar os arquivos dos jornais da época constatará a
grave e preocupante pandemia que se alastrou pela cidade de São Paulo,
atingindo principalmente crianças, idosos e pessoas insalubres. Assustando a
todos eu permaneci alheio a qualquer problema, fama que se difundiu despertando
o interesse do Dr. Luiz RotzenbergerAlfitstofen, Mestre Livre Docente da USP e
Chefe da Área de Moléstias Contagiosas do Hospital das Clínicas, que se
intrigou com o meu “caso” de nunca ter tido uma gripe ou resfriado, em meio à
verdadeira praga que devastava a cidade e começava a se espalhar pelo país. Não
conseguindo explicações após criteriosas análises, o luminar esculápio recorreu
ao colega e conceituado especialista Dr. Jorge Alberto Pereira Barreto, Diretor
do Hospital Emílio Ribas, de Isolamento, Referência no Tratamento de Doenças e
Moléstias Contagiosas na América Latina. A junta médica não alcançou
diagnóstico, tornando a solução da minha imunidade um desafio à ciência. E
muito mais do que isso, se obtivessem êxito conseguiriam criar um medicamento
para a erradicação definitiva da gripe no mundo, o que resultaria num valioso
prêmio Nobel de Medicina ao Brasil. Como era um desafio científico, resolveram
então convocar o trabalho de um dos principais cientistas do planeta.
Foi aí que conheci o Doutor Fernando Buarque Cristóvão
Bastos, emérito e laureado pesquisador do Instituto Biológico, que contava 41
anos de idade. Gentil, de gestos suaves e fala quase sussurrada, Dr. Fernando
executou questionamentos meticulosos aos meus pais e avaliou por meses todo o
extenso trabalho dos colegas anteriores para, só então, traçar o planejamento
do seu estudo. A partir daí solicitou uma batelada de exames e começou a sua
pesquisa. No ano seguinte ele levou amostras do meu sangue ao Instituto
Nacional de Saúde, nos Estados Unidos, para inclusão no Programa de Doenças Não
Diagnosticadas (UDP), apesar de não tratar-se de doença e sim busca de uma cura.
Utilizando tecnologia de ponta para a realização de cuidadosos exames,
juntou-se ao Geneticista William Gahl, Diretor das Pesquisas do Metabolismo,
Formações Genéticas e Doenças Sem Diagnóstico daquele Instituto. O fato que os
deixou completamente desarticulados foi que, além das propriedades afeitas ao
sangue de qualquer ser humano, detectaram uma porcentagem quase imperceptível
de álcool oriundo de cerveja, o que só foi possível descobrir em equipamentos
altamente sofisticados. Atônitos, vieram ao Brasil, deixaram-me em dieta
controlada por seis meses, tiraram muitas amostras de sangue e voltaram aos
Estados Unidos, onde até os dias de hoje procuram incansavelmente uma resposta que
explique o meu sangue e a imunidade, para chegarem à conseqüente cura da gripe.
Eles sabem que isso está no meu sangue misto de plasma, hemácias, leucócitos,
plaquetas e cerveja. Dr. Fernando, aos 98 anos e em cadeira de rodas, e o Dr.
Willian, completamente encurvado e com problemas de visão por tanto utilizar
microscópios, afirmam com lucidez que jamais desistirão.
Não é fácil ser assim diferente e incompreendido, mas somos
o que somos. Nasci assim, tentei de
todas as maneiras pegar uma gripe e não consegui. Espero que quando eu não
estiver mais aqui, os seguidores dos pesquisadores iniciais prossigam essa
nobre missão dos abnegados cientistas que mencionei, para que as futuras
gerações tenham a gripe erradicada de suas vidas. Gerações mais saudáveis e
onde eu não me sentiria tão isolado como no vasto e estranho mundo de agora.
Fábio Roberto
(da Fabiografia – uma biografia não autorizada pelo próprio
autor –
Parte 4- Capítulo 73)
sábado, 21 de outubro de 2017
CALIDOSCÓPIO (musicada em 2007)
Havia uma
promessa
Arquitetando
o espaço
Reescrevendo
a peça
Acompanhando
o passo
Eu o andei
sem pressa
Redesenhando
o traço
O fim que
não começa
Aumenta o
meu cansaço
O frio me
atravessa
O nó aperta
o laço
Queria sair
dessa
Sentindo o
seu abraço
Reescrevendo a peça
O nó aperta
o laço
O fim que não começa
Redesenhando
o traço
O frio me
atravessa
Aumenta o
meu cansaço
Queria sair
dessa
Acompanhando
o passo
Eu o andei
sem pressa
Sentindo o
seu abraço
Havia uma
promessa
Arquitetando
o espaço
Reescrevendo
a peça
Acompanhando
o passo
Eu o andei
sem pressa
Redesenhando
o traço
O fim que
não começa
Aumenta o
meu cansaço
O frio me
atravessa
O nó aperta
o laço
Queria sair
dessa
Sentindo o
seu abraço
Reescrevendo
a peça
O nó aperta
o laço
O fim que
não começa
Redesenhando
o traço
O frio me
atravessa
Aumenta o
meu cansaço
Queria sair
dessa
Acompanhando
o passo
Eu o andei
sem pressa
Sentindo o
seu abraço
Havia uma
promessa...
Fábio Roberto
Foto tripadvisor
sexta-feira, 20 de outubro de 2017
INSPIRAÇÃO
A inspiração sempre se esconde. Faz-se de difícil.
No início é sempre recatada. Sabemos que é bela e cheia de
mistérios. Ela não mostra as suas pernas, somente os tornozelos. Deixa ver
parte, só partezinha de uma linda tatuagem em seu corpo.
Chega de repente, sem pedir licença. Invade e domina a cena. Toma conta inteirinha de nós, que cremos de imediato a possuirmos completamente. Em vão.
Ri muito gostoso um riso cheio de sensualidade quando ficamos desesperados, sem jeito, tímidos com um papel em branco a nossa frente. Ou com o violão emudecido encostado num canto.
Provoca-nos. E quando a gente acredita tê-la nas mãos, escapa-nos sutilmente. Aí a gente a pega forte novamente, pensando que finalmente a dominamos. Olhamos profundamente dentro de seus olhos e ela com um jeito maroto nos fala: sou tua!
Ah... isso dá uma coisa na gente. Soltamos tudo o que temos de melhor dentro de nós acreditando nessas palavras. Compomos músicas, sinfonias. Escrevemos poemas, livros. Aprendemos a dançar um verdadeiro balé. Tornamo-nos românticos, delicados, atenciosos, líricos, sensatos, calmos, compreensivos e muito mais humanos.
Trabalhamos elucubrando as nossas criações mais loucas sem parar. As nossas obras primas ficam prontas cada vez que isso acontece.
Mas esquecemos de tomar cuidado e toda vez a estória se
repete. Toda vez acontece o mesmo êxtase e o mesmo sofrimento.
A inspiração é mulher.
Fábio Roberto
terça-feira, 17 de outubro de 2017
DECISÃO
A partir de agora só vou me apaixonar por mulheres que não
cantam não compõe não dançam não escrevem não sapateiam não pintam não atuam
não esculpem não desenham não tocam instrumentos musicais não filmam não
fotografam não poetizam não façam qualquer tipo de arte.
Estarei blindado a todas as tentações. Podem ser lindas,
deliciosas, inspiradoras musas. Posso ficar sozinho, deprimido, abandonado.
Mesmo que eu vire um lobo da estepe miserável, faminto, drogado e alcoólatra
rondando as cidades e uivando para luas imaginárias, somente vendo estrelas
quando refletidas em poças d'água nas sarjetas, fugirei dessas pessoas
especiais e desafiadoras.
Até se não conseguir mais escrever uma sílaba com intenção
poética ou compor uma nota de me
melodia, não haverá chance de me aproximar
intensa, profunda, densa e totalmente dessas mulheres que me atraem feito o cão
ao dono, a boca ao copo, o vício ao viciado, a tara ao sexo, o sonho à alma.
Nem se o planeta virar deserto e só existir um lago num
oásis imaginário, mergulharei nessas águas refrescantes e balsâmicas. Serei
duro, resistente à erosão que esse tipo de amor faria na superfície do meu
coração.
E se eu voltar atrás, o que é impossível para um cara firme
como eu, esqueçam tudo que eu escrevi agora.Estarei criando uma canção pra Ela.
Fábio Roberto
segunda-feira, 16 de outubro de 2017
CÉU E INFERNO – Fábio Roberto
Livro Estórias das Músicas
CÉU E INFERNO – Fábio Roberto
(canção a ser gravada)
A canção descreve uma paixão vivida em toda a sua verdade: o
céu dos momentos felizes de amor eterno e o inferno da decepção e da ruptura
inevitáveis. Uma modesta homenagem ao poeta Vinícius de Morais que sabiamente
vaticinou ao amor: “...que seja eterno
enquanto dure.”
CÉU E INFERNO (2007)
O amor quando céu o amor busca ser.
O amor busca o seu prazer,
Viver.
Mas o amor quando não, quando nem mais talvez,
É o inferno de não ser mais,
Morrer.
E não olha pra trás, pois tem medo da dor.
Ou tem medo até de não sentir a dor
E de não esquecer
Tal amor que finito,
Durou só o tempo de ser
Tão bonito...
Fábio Roberto
sábado, 14 de outubro de 2017
DEPOIS
Perambulei pelas planícies da morte,
mas editarei este poema em brusco corte.
O início: movimento sorridente.
Longe de ser boca de um indigente.
A cena vista de cima, horizonte.
Em plano americano, pilares de ponte.
O zoom não disfarça na cara a ruga.
A câmera de olhos fechados, fuga.
A imagem vista de baixo, pernas andando.
Quando sentida por dentro, sangrando.
Imaginada na fonte do etéreo, aroma.
Vivida pela crueza do eterno, coma.
O melhor é ver a filmagem de lado.
Em qualquer sequencia, um ar desesperado.
Passear este filme por tanta imundície,
sem focalizar no fim que ali estava a planície.
A planície. A planície. A planície.
mas editarei este poema em brusco corte.
O início: movimento sorridente.
Longe de ser boca de um indigente.
A cena vista de cima, horizonte.
Em plano americano, pilares de ponte.
O zoom não disfarça na cara a ruga.
A câmera de olhos fechados, fuga.
A imagem vista de baixo, pernas andando.
Quando sentida por dentro, sangrando.
Imaginada na fonte do etéreo, aroma.
Vivida pela crueza do eterno, coma.
O melhor é ver a filmagem de lado.
Em qualquer sequencia, um ar desesperado.
Passear este filme por tanta imundície,
sem focalizar no fim que ali estava a planície.
A planície. A planície. A planície.
Fábio Roberto
sexta-feira, 13 de outubro de 2017
COCAR – Fábio Roberto
Livro Estórias das Músicas
COCAR – Fábio Roberto
(a ser gravada)
A primeira vez que fui ao Centro Espírita do Calvário, há
quase trinta anos atrás, uma médium descreveu que uma entidade se apresentou
como Cacique, dirigiu-se a mim, retirou o cocar da sua cabeça e o colocou na
minha.
Nos trabalhos espirituais, os que se mostram como índios
visitam para resgate de sofredores os umbrais mais tenebrosos, guerreiros que
são. Além disso, vigiam e protegem os centros, seja no plano espiritual ou
físico. Talvez aquele Cacique fosse o meu guia. Talvez tenha me passado uma
missão. Quem sabe me transmitiu uma mensagem, dizendo o guerreiro que devo ser
nesta vida. Ou pode ter sido tudo isso.
Depois desse fato eu persegui o tema por anos até compor
Cocar, uma homenagem ao Cacique e também a minha Casa, a Casa do Sarau, a
Sagrada Oca, o Lar da Família que constituí nesta vida.
COCAR (2010)
Oca
Longe do oco o seu mundo
Soco em estomago imundo
Olhos dos deuses invoca
Oca
Sagrada toca da tribo
Da natureza o recibo
Força dos ventos convoca
Oca
Deixa essa gente coroca
Cheia de ódio e fofoca
Que em nenhum rio desemboca
Oca não teme desdém
E enfrenta quem rindo a provoca
É apenas inveja de quem
O lar fica numa biboca
O coração desta oca
Pulsa energia do sol
Guia-nos feito farol
Amor e paixão... pororoca
quarta-feira, 11 de outubro de 2017
VIVER E BRINCAR (musicada em1981)
Canção criada antes de ter filhos e netas:
VIVER E BRINCAR (musicada em1981)
Dorme criança
Dorme e sonha
E sorri pras estrelas
Dorme criança
Dorme tranquila
E acorda pra ser sol
Vive criança
Vive e brinca
De viver
Brinca criança brinca
Antes que o tempo te faça crescer
E esquecer
Brinca criança brinca
Faça o tempo pra sempre feliz
Vive criança e brinca
Branda esperança vive
Cresce esperança e vive
Dorme criança e sonha
Dorme esperança
Descansa
Fábio Roberto
Foto: Cecília e Alice em 2010
segunda-feira, 9 de outubro de 2017
INSÔNIA
Uma parte lutava pra dormir,
a outra insistia em pensar.
Fazendo uma parte se coçar,
a outra adorava oprimir.
Uma parte começou a deprimir,
outra não deixou de lhe espicaçar.
Essa parte só deixou de ameaçar,
quando a outra irritada fez bramir.
E assim noite adentro a esgrimir,
uma parte viu o tempo passar.
Desejando mais um pouco troçar,
a outra ficou a se consumir.
Breu confuso lhes restava exprimir.
Não puderam ou souberam conversar.
Duas vozes: a insônia a engessar
a idéia que nasceu só pra sumir.
Fábio Roberto
sábado, 7 de outubro de 2017
CLAVE DE FÁbio
a sonoridade das minhas unhas rasga o teu corpo inteiro.
a minha boca e dentes estalam na carne do teu pescoço.
a melodia é esta, de selvagem leão, e é o que compor eu posso.
é este meu desespero que te ofereço, linda, como fiel parceiro.
a minha boca e dentes estalam na carne do teu pescoço.
a melodia é esta, de selvagem leão, e é o que compor eu posso.
é este meu desespero que te ofereço, linda, como fiel parceiro.
SAL
Mas quem é esse que tanto falo em romance?
Esse não sou eu, então que eu pare antes que me canse.
Eu sou um poeta maldito que as palavras no papel vomita,
feito comida deteriorada e fria de suja marmita.
Esse não sou eu, então que eu pare antes que me canse.
Eu sou um poeta maldito que as palavras no papel vomita,
feito comida deteriorada e fria de suja marmita.
A minha poesia é para ser lambida pelos cães sem donos,
aqueles que bebem as águas apodrecidas nas sarjetas,
uivando para receber réstias de luar, como gorjetas
clamadas pelos miseráveis que habitaram tronos.
aqueles que bebem as águas apodrecidas nas sarjetas,
uivando para receber réstias de luar, como gorjetas
clamadas pelos miseráveis que habitaram tronos.
O que escrevo é uma ferida purulenta que nunca cicatriza.
É um sentimento que invade. Não se doma. Não se exorciza.
Corrói por ser lava que desce fumegante a encosta,
queimando a alma numa dor tão forte e poderosa que se gosta.
É um sentimento que invade. Não se doma. Não se exorciza.
Corrói por ser lava que desce fumegante a encosta,
queimando a alma numa dor tão forte e poderosa que se gosta.
Estas são as declarações de amor deste visionário insano.
O sabor da minha boca pode ser amargo, estranho, obsceno.
Nunca será doce, tampouco suave. Eu não existo ameno.
Sou o tempero mergulhado sob as ondas do oceano.
O sabor da minha boca pode ser amargo, estranho, obsceno.
Nunca será doce, tampouco suave. Eu não existo ameno.
Sou o tempero mergulhado sob as ondas do oceano.
Fábio Roberto
sexta-feira, 6 de outubro de 2017
SOM DA NOITE ESCURA
Noite escura acendo os meus faróis.
Não encontro estrelas, luas ou heróis.
Sem poesia resta este silêncio estranho.
Mundo esvaziado, lúgubre, tacanho.
Não encontro estrelas, luas ou heróis.
Sem poesia resta este silêncio estranho.
Mundo esvaziado, lúgubre, tacanho.
Noite escura apago os meus faróis.
Universos regem os ritmos dos sóis.
Vaga-lumes mortos ainda brilham.
Já não voam e as naturezas maravilham.
Universos regem os ritmos dos sóis.
Vaga-lumes mortos ainda brilham.
Já não voam e as naturezas maravilham.
Noite escura e nem a morte dói.
Uma melodia invade e corrói.
Nunca mais a esqueço, som de violoncelo.
Era fim da noite, um solo denso e belo.
Uma melodia invade e corrói.
Nunca mais a esqueço, som de violoncelo.
Era fim da noite, um solo denso e belo.
(imagem: depositphoto)
POESIA SOBRE O FEDOR DO MUNDO
O mundo é uma merda!
Sim, ele é. Não discuta
Madrasta a vida te herda
Mergulha-te em insana labuta
A paisagem aos teus olhos é lerda
Parece que só solidão te escuta
O mundo é um zero à esquerda
Uma ausência, um vazio, uma perda
Uma fome tamanha e injusta
Uma realidade que assusta
Um frio que atravessa as cerdas
O amargo sabor que degustas
Sendo merda o que o mundo te é
Certamente já sujaste teu pé
Mas seja Santo, Maria ou José
Acredite, acredite em tua fé
Pra exalar em tão podres narizes
Um perfume que inebrie as crises
Um perfume superior ao fedor
Dessa merda, da tristeza e da dor
Sim, ele é. Não discuta
Madrasta a vida te herda
Mergulha-te em insana labuta
A paisagem aos teus olhos é lerda
Parece que só solidão te escuta
O mundo é um zero à esquerda
Uma ausência, um vazio, uma perda
Uma fome tamanha e injusta
Uma realidade que assusta
Um frio que atravessa as cerdas
O amargo sabor que degustas
Sendo merda o que o mundo te é
Certamente já sujaste teu pé
Mas seja Santo, Maria ou José
Acredite, acredite em tua fé
Pra exalar em tão podres narizes
Um perfume que inebrie as crises
Um perfume superior ao fedor
Dessa merda, da tristeza e da dor
Fábio Roberto
foto Daniel Souza Lima
quarta-feira, 4 de outubro de 2017
SINGELO POEMINHA DE QUINTA FEIRA
Meus dois olhos espelhados,
Um fecha às vezes, sorrateiro.
É o olho de um afogado:
Vê o mundo belo, mas traiçoeiro.
O outro olho, sempre aberto,
Só te admira, enxerga mais nada.
Não importa o mundo vasto e incerto,
Se eu puder olhar só a minha amada.
Fábio Roberto
segunda-feira, 2 de outubro de 2017
O TEMPO DE UM SORRISO
E justo quando a conjunção de todos os astros houve em noite bendita,
a minha alma de poeta estava distante, covarde, melancólica e aflita.
A palidez da pele era de cadáver, o espelho mostrava uma face espectro.
Mas se eu fosse tanta coisa ruim assim, eu mesmo me diria: - vai de retro...
a minha alma de poeta estava distante, covarde, melancólica e aflita.
A palidez da pele era de cadáver, o espelho mostrava uma face espectro.
Mas se eu fosse tanta coisa ruim assim, eu mesmo me diria: - vai de retro...
Olhando bem no fundo da retina, eu sabia que ainda me existia.
Ousei um desafio aos deuses. Sem resposta, alucinado eu insistia
até que as musas não me trouxeram palavras, me apresentaram a vida
de poeta na essência da poesia, de paixão eterna, mas em momentos combalida.
Ousei um desafio aos deuses. Sem resposta, alucinado eu insistia
até que as musas não me trouxeram palavras, me apresentaram a vida
de poeta na essência da poesia, de paixão eterna, mas em momentos combalida.
Descansei nos braços de uma melodia viva, ritmada, indomável, instigante.
Uma rima absurda, irreal, num verso nunca menos que per-verso e delirante.
Escrevi uma pauta sem compassos compostos, só para experimentar a normalidade.
Respirando com faro dodecafônico, só me restou o aroma agressivo da saudade.
Uma rima absurda, irreal, num verso nunca menos que per-verso e delirante.
Escrevi uma pauta sem compassos compostos, só para experimentar a normalidade.
Respirando com faro dodecafônico, só me restou o aroma agressivo da saudade.
Caminho de poeta traz alegria poderosa e deslumbrante, contagia, mas é fugaz.
Onde todos perceberão a guerra das vozes, ele ouvirá o silêncio austero da paz.
Não há como ele dividir, não pode, não deve compartilhar com o amor sua agonia.
Uma existência tão profícua, só dura luz e calor do sol que nasce e morre todo dia.
Onde todos perceberão a guerra das vozes, ele ouvirá o silêncio austero da paz.
Não há como ele dividir, não pode, não deve compartilhar com o amor sua agonia.
Uma existência tão profícua, só dura luz e calor do sol que nasce e morre todo dia.
Fábio Roberto
sexta-feira, 29 de setembro de 2017
Do Livro das Letras OUTRA VIDA Leandro Henrique/Fábio Roberto
Mediunidade? Misticismo? Sintonia? Coincidência? Destino? Eu em casa construindo versos decassílabos. Leandro vindo pra casa com uma melodia com métrica semelhante na cabeça, marcando compassos e andamentos. Quando ele chega me encontra descabelado, frente ao copo de cerveja, cara de louco, dizendo ter acabado uma poesia. Leandro pega a letra, o violão, sai e volta em minutos. Canta a música cuja letra se fundiu perfeitamente à melodia imaginada por ele antes de chegar.
OUTRA VIDA (2005)
Tenho estradas nas linhas das mãos
Rios já secaram em minhas veias
Hoje tenho o tempo que quiser
Mesmo o tempo rude que se foi
Tenho estradas nas linhas das mãos
Rios já secaram em minhas veias
Hoje tenho o tempo que quiser
Mesmo o tempo rude que se foi
Pois se no passado tanto fiz
Penso que o futuro tanto faz
Quase que desejo a solidão
Destes versos que procuram paz
Penso que o futuro tanto faz
Quase que desejo a solidão
Destes versos que procuram paz
Olhos pouco a pouco anoitecendo
Procissão cravada na garganta
Canto e cantarei a esperança
Mesmo se desfeita em espuma
Procissão cravada na garganta
Canto e cantarei a esperança
Mesmo se desfeita em espuma
Nunca navegar um mar tranqüilo
Quando a dor é face escondida
Ouço a prece dos desenganados
Olhos que amanheçam outra vida
Quando a dor é face escondida
Ouço a prece dos desenganados
Olhos que amanheçam outra vida
(Imagem best wallpaper)
terça-feira, 26 de setembro de 2017
OBRA
Quero neste solene instante
dar um fim na minha obra
e sob a luz deste rompante
desfazê-la sem nem sobra.
Quero minhas palavras todas
devoradas pelas traças,
curtir o devaneio destas bodas,
saborear o gosto das desgraças.
Quero emudecer notas criadas,
apagar da pauta as novenas,
melodias que foram sangradas
pelo filantropo e mecenas
de artes e almas. Desespero
com a faca no peito e nas costas.
O sêmen plantado com esmero,
vingando contra quaisquer apostas.
Meus olhos de jovem cansaram.
O meu corpo de velho reclama.
As minhas histórias se deitaram
com o futuro numa
cama.
Fábio Roberto
segunda-feira, 25 de setembro de 2017
EXERCÍCIO DA GUERRA
Rajadas de metralhadoras são expelidas por consideradas bocas santas. As más línguas, com seus ditados impopulares, espalham a notícia. O Alfabeto traído, encurralado no beco escuro da ignorância, foi assassinado sem dó nem piedade. A escrita e a fala não mais existem. O analfa matador de aluguel grunhe um som ininteligível de vitória. Ao mesmo tempo, perto dali, nasce a Mímica.
Fábio Roberto
Fábio Roberto
quinta-feira, 21 de setembro de 2017
COMPOSITOR E POETA ABRE VAGA PARA MUSA
SALÁRIO: poesias e canções.
BENEFÍCIOS: amizade; aventura; emoções intensas; mergulho
nos sentimentos contidos na profundeza da alma; infindáveis palhaçadas, debates
filosóficos e papos artísticos; participação nos eventos da Casa do Sarau;
carteirinha da Turma Braba; book mensal com as obras provocadas no período.
BENEFÍCIO ADICIONAL: acervo com mais de 400 canções e incontáveis
poemas.
HORÁRIO: a combinar desde que sempre.
EXIGÊNCIAS: ser mulher inspiradora em todos os sentidos.
DIFERENCIAIS: serão considerados por olhos, coração e mente
de poeta.
DURAÇÃO DO CONTRATO: enquanto houver encantamento.
RISCOS: paixão; sexo; descobrir sua loucura; virar criadora
de arte; sonhar muito e não se adaptar mais à realidade; querer fugir do mundo;
ter a melancolia como parceira até no momento mais feliz; ter a alegria como
companheira até em um funeral; ter a vida escrita e sonorizada; não poder
esquecer jamais o que passou de bom e ruim; beber a vida e desejar a morte.
INTERESSADAS: enviar contato inbox para agendamento de
sarau-entrevista.
Fábio Roberto
quarta-feira, 20 de setembro de 2017
SEDE
Pode a palavra apagar
Pode o canto emudecer
Mesmo se o dia dormir
Sem que haja anoitecer
Pode o canto emudecer
Mesmo se o dia dormir
Sem que haja anoitecer
Pode parar de brilhar
Uma estrela a morrer
Um rio não mais navegar
E a saudade esquecer
Uma estrela a morrer
Um rio não mais navegar
E a saudade esquecer
Nossa história
Eu lembro como se fosse agora
Cravei as mãos nas tuas costas
Deixando dor/prazer marcados
No corpo que era a minha cama
Cravei as mãos nas tuas costas
Deixando dor/prazer marcados
No corpo que era a minha cama
Gemidos congelaram as horas
Os gritos excitaram as velas
O fogo mordendo os lençóis
Deu Sede que bebi teus lábios
Os gritos excitaram as velas
O fogo mordendo os lençóis
Deu Sede que bebi teus lábios
Fábio Roberto
Escrito e musicado em 2011
Escrito e musicado em 2011
terça-feira, 19 de setembro de 2017
VOO
O vento na cara fecha os olhos.
O cabelo embaralha mais do que meus pensamentos.
Abro os braços...
e subitamente vôo.
Sabia que eu não era daqui.
Sentia que eu podia voar.
Como é bom este vento, isto sim é respirar.
Abro os olhos e admiro a paisagem.
É impressionante. O espaço é imenso,
mas não me sinto sozinho.
Desço vagarosamente e tranquilo.
O horizonte lá em cima é infinito
e agora tenho certeza que é possível um homem voar.
Fábio Roberto
segunda-feira, 18 de setembro de 2017
Do Livro das Letras NÁUFRAGO – Leandro Henrique/Fábio Roberto
O poema foi criado e enviado para Leandro, que ficou um
tempo germinando a música. Certa noite, em inspiração alucinada, o compositor
já ia pela metade da canção, quando foi interrompido de súbito por invasores
festivos ao seu ambiente. Por insistência de Márcia Salomon que queria
incluí-la no CD Minha Tribo por plena identificação, a melodia foi muito depois
resgatada por mim em simbiose criativa com o parceiro, simbiose esta retratada
no final da gravação pelas vozes da sereia e do náufrago em canto rasgado e
emocionante.
NÁUFRAGO (2010)
Vem logo, meu poeta vagabundo
O teu é um coração de marinheiro
Navega tolas paixões pelo mundo
Mulher nenhuma o terá por inteiro
Mas põe dentro de mim um teu pedaço
Mais que a lembrança desse corpo ardente
Que ao meu encaixas com estardalhaço
Como um navio que atracou de repente
Vem logo, feito um náufrago carente
Com sede desse amor de tantos anos
Dou de beber, sou serva obediente
Aos teus caprichos, mesmo os desumanos
Só quero meu poeta leviano,
Quando estiver vazio meu travesseiro
Sentir pulsar em meu ventre cigano
Nosso menino malandro e arruaceiro
Deixe o presente, este nosso rebento,
Pois sei que para mim não voltas
Só sabes viver ao sabor do vento
E mergulhando nas ondas mais revoltas
Márcia Salomon: voz - cd Minha Tribo
Leandro Henrique: música e Fábio Roberto: música e letra
Leandro Henrique: violão e voz
Mario Aydar : violoncello
Edu Gomes: produção
AGORA
Antes do final da noite eu quero te abraçar
Apertado e demoradamente,
Excitado, sentimentalmente,
Mas nem um pouco fraternal.
Apertado e demoradamente,
Excitado, sentimentalmente,
Mas nem um pouco fraternal.
Antes do final da noite eu quero te dar um beijo
Apaixonado, inteiramente
Carinhoso e indecente,
Como aquele que se quis e ainda não se deu.
Apaixonado, inteiramente
Carinhoso e indecente,
Como aquele que se quis e ainda não se deu.
Antes dessa noite terminar
Quero dizer te amo,
Adeus e bom dia.
Quero te olhar profundamente
Como saudade que se fora...
Quero dizer te amo,
Adeus e bom dia.
Quero te olhar profundamente
Como saudade que se fora...
Antes que eu me acabe com essa noite,
Seja a madrugada
Eterna ou repentina,
Irei te amar nesse momento para sempre
E desfrutar a poesia que seria.
Seja a madrugada
Eterna ou repentina,
Irei te amar nesse momento para sempre
E desfrutar a poesia que seria.
Fábio Roberto
(Foto Pedro Dalbuquerque)
TSUNAMI
Quem é que tem o sono se o mundo gira
E gira sem parar até em hora imprópria?
Até o corpo acorda, se levanta e pira
Após a digestão inefável de mais uma obra
E gira sem parar até em hora imprópria?
Até o corpo acorda, se levanta e pira
Após a digestão inefável de mais uma obra
Quem é que tem o sono se a vida espreita
E espreita curiosa pela hora próxima?
Até se você dorme de pijama e a peita
Após excrementar o sonho que oxida
E espreita curiosa pela hora próxima?
Até se você dorme de pijama e a peita
Após excrementar o sonho que oxida
Quem é que tem o sono se a morte ronda
E ronda serelepe a hora em que aproxima?
E se aproxima e foge e morre como onda
Após que o tsunami afogue a obra-prima
E ronda serelepe a hora em que aproxima?
E se aproxima e foge e morre como onda
Após que o tsunami afogue a obra-prima
Fábio Roberto
(Foto de Clarck Little)
QUINTA
Às vezes dá vontade de deixar a alma hibernando para viajar com outra consciência pelos planos mais diversos. A alegria e o desespero estão se alternando numa simbiose poderosa que por momentos nem mais se diferenciam. E não adianta temer o futuro. Também não adianta desejá-lo. Parece que não há o que fazer com tanto por fazer.
Mergulho a consciência numa taça de vinho tinto e assobio sonhos.
sábado, 16 de setembro de 2017
Do Livro das Letras ÁGUA DE DOR
A decepção com a realidade e a constatação da amargura são
aqui retratadas pelo desencontro dos olhos e do olhar, o encontro da paisagem e
da dor, a perda do olhar pela paisagem e o universo dos olhos angustiados por
serem a dor do olhar.
ÁGUA DE DOR (Musicada em 1983)
De onde vem?
De onde vem a dor?
De onde vem?
De onde vem o olhar?
De onde vem a dor
De olhar a paisagem
Que nunca mais verá
De onde vem o olhar?
No universo de um ato de dor
Os olhos perderam o olhar,
Que nunca mais terá a paisagem,
Que a paisagem nunca mais terá,
Mas verá os olhos sentirem a dor
De ser a dor do olhar.
Fábio Roberto
sexta-feira, 15 de setembro de 2017
BOMBA
Neste mundo traiçoeiro e triste, ser feliz é uma tragédia.
Os dentes escarnecidos e sarcásticos das almas banguelas retratam o que é rastejar em âmbito inferior.
Nós, otimistas e sonhadores de existências pautadas pela sensibilidade artística, acreditamos em outras vidas, alegrias, desastres, universos, dimensões, atitudes, suicídios, nascimentos, decepções...
Ou seja, sabemos que apesar das maldades em que nos envolvem e das dificuldades pelas quais passamos, um único momento verdadeiro e absoluto de amor e paixão nos motivará a ir em frente.
Toda poesia cabe numa lágrima. Cabe também em um sorriso. Não cantamos uma coisa ou outra. Somos inteiros.
E faremos essa gente podre se torturar e sangrar quando, mesmo com o coração dolorido ou o corpo machucado, soltarmos a gargalhada sincera e retumbante que ecoará em suas mentes como se fosse a contagem regressiva de uma bomba prestes a explodir.
Fábio Roberto
DECLARAÇÃO DE DESAMOR
Não te amo.
Nem chego a te odiar.
Não sinto nada.
Desprezo totalmente a sua existência.
Aliás, você existe?
Nem chego a te odiar.
Não sinto nada.
Desprezo totalmente a sua existência.
Aliás, você existe?
Sonhar com você seria pesadelo.
Se eu visse você passar na rua,
que imagem desagradável e fácil de esquecer.
Se eu pensasse em você teria calafrios,
ficaria completamente louco de raiva.
Sinto náuseas só de cogitar respirar o seu cheiro de gente ruim.
Se eu visse você passar na rua,
que imagem desagradável e fácil de esquecer.
Se eu pensasse em você teria calafrios,
ficaria completamente louco de raiva.
Sinto náuseas só de cogitar respirar o seu cheiro de gente ruim.
Imagine um abraço teu.
É mais quente o abraço de um cadáver.
Porque quem sentir calor com teu abraço,
estará no inferno queimando
e ouvindo eternamente a pior das piores músicas de letras imbecis,
tipo levanta a bundinha, abaixa a bundinha...
É mais quente o abraço de um cadáver.
Porque quem sentir calor com teu abraço,
estará no inferno queimando
e ouvindo eternamente a pior das piores músicas de letras imbecis,
tipo levanta a bundinha, abaixa a bundinha...
Por isso faço esta definitiva declaração de desamor.
Que é tua. Somente tua. Como somente teu é o meu desamor.
Que é tua. Somente tua. Como somente teu é o meu desamor.
Entenda este sentimento intenso, exacerbado, desmedido,
mas absolutamente desprovido de qualquer paixão.
mas absolutamente desprovido de qualquer paixão.
Como nunca teve vida, este sentimento não aconteceu.
Não poderá ter sido um aborto porque nem concebido foi.
Não poderá ter sido um aborto porque nem concebido foi.
É simplesmente muito além do que o maior e mais profundo vazio.
Fábio Roberto
quarta-feira, 13 de setembro de 2017
Do Livro das Letras TENHO FOME
TENHO FOME – Fábio Roberto
Inicialmente nascido de uma brincadeira poética, o poema se
transformou, alcançando melodia, tornando-se uma das canções mais sensuais e
ousadas que já fiz, com seus versos diretos, crus, sem metáforas ou eufemismos.
Esta música reflete
o meu jeito leonino de amar: quente, delicado, agressivo, protetor, divertido,
sexual, santo, pervertido, apaixonado...
TENHO FOME (2008)
Tenho fome daquela comida
Do seu beijo, da sua mordida
Seu abraço, seu cheiro de vida
De sua língua e da doce lambida
Em mim. Uma fome sortida
De sabor, de forma divertida
Uma fome delicada e dolorida
Acesa, quente, colorida
Uma fome prevalecida
Do tesão de ver-te possuída
Uma fome profunda, parida
Da loucura santa e pervertida
Uma fome de te por assim despida
Completamente, mas totalmente protegida
E minha fome te será consumida
Pelo corpo e pela alma digerida.
Do seu beijo, da sua mordida
Seu abraço, seu cheiro de vida
De sua língua e da doce lambida
Em mim. Uma fome sortida
De sabor, de forma divertida
Uma fome delicada e dolorida
Acesa, quente, colorida
Uma fome prevalecida
Do tesão de ver-te possuída
Uma fome profunda, parida
Da loucura santa e pervertida
Uma fome de te por assim despida
Completamente, mas totalmente protegida
E minha fome te será consumida
Pelo corpo e pela alma digerida.
Márcia Salomon: voz - cd Minha Tribo
Fábio Roberto: composição
Leandro Henrique: violão
Pedro Ito: bateria
Fábio Roberto e Leandro Henrique: vocais
Edu Gomes: guitarra, violão de aço, baixo e produção
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