quarta-feira, 4 de julho de 2018

SEM MOTIVO

Madrugada assiste o meu cansaço
Vislumbro qual destino em um bocejo
Pergunto a mim mesmo o que desejo
Viver ou adormecer feito um bagaço
Cítrico de suco já espremido
Crítico de sangue já exaurido
Artístico de um palco escarnecido
Artrítico de um corpo envelhecido
Escolho não saber mais quando vivo
Procuro nem saber se adormeço
E fico assim parado sem motivo
Olhando pro infinito até que esqueço

Fábio Roberto
Canção de 2018

sexta-feira, 29 de junho de 2018

HEIN?

Faço poemas pra Musas
-Sacana!
Chamo uma puta de puta
-Canalha!
Digo-me maldito errante
-Psicopata!
Tinjo-me de suavidade
-É gay!
Cortejo quem me atrai
-É casada!
Desdenho quem me enoja
-Vai lá!
Agrido quem merece
-Violento!
Revelo as verdades
-Tarado!
Vomito a sociedade
-Hipócrita!
Isolo-me nas festas
-Estranho!
Sorrio pra desgraça
-Interna!
Choro a beleza
-Piegas!
Acendo uma paixão
-De novo?
Esqueço uma paixão
-De novo?
Tranco o coração
-Que é isso?
Faço uma canção
-Trabalha!
Brindo por viver
-É bêbado!
Distraio-me sonhando
-Drogado!
Desejo só morrer
-Suicida!
Eu olho para frente
-É surdo!

Fábio Roberto
Do livro dos poemas

terça-feira, 26 de junho de 2018

RETICÊNCIAS

Qual é você?
Quem é o seu tempo?
Quando o seu sorriso é maior que felicidade?
Por que eu não te sinto abraço?
Paro de perguntar.
Todas as respostas são uma só:
o talvez que as reticências do teu rosto expressam sem deixar dúvidas!

Fábio Roberto
Do livro dos Poemas

terça-feira, 19 de junho de 2018

VÉIA CÔMICA

Achou-se derramado na sarjeta
O bom humor de algum pobre gaiato
Quem encontrou nem quer ganhar gorjeta
Só quer felicidade sem hiato
Terá sido a alegria posta fora?
Terá sido perdida numa farra?
Será que foi por causa da demora
De alguém em se livrar de dura barra?
Se bocas orgulhosas mostram os dentes
E os risos se transformam em gargalhadas
Serão as faces sérias de doentes
Sem espírito, de vidas empalhadas?
A graça é esquecida em abandono
Por gente que acredita em um ditado:
"Do próprio cu o bêbado não é dono"
Não pode nem beber esse coitado
Mas quem sabe até seja apenas
A diversão atravessada na goela
Brincadeira não o salva, nem novenas
Não ri por sua alma estar banguela

Fábio Roberto
Do livro dos Poemas

domingo, 17 de junho de 2018

O MOTOR

Movimenta-se lento o êmbolo
Visão turva, a imagem embola
Pele carcomida que se esfola
Fraco, cansado, trêmulo
O sangue entope a máquina
Resultando em um coágulo
Paralisando o veículo
Prostrado sobre uma isnáquia
Deslizar é passado
Foram-se cilindros e anéis
Desligaram-se painéis
Nada a ser lubrificado
Não pode ser ressuscitado
Que rezem por ele os fiéis

Fábio Roberto
Do Livro dos Poemas

sábado, 16 de junho de 2018

VOZES

Voluntário ou não o poema surge na cabeça.
Não há porque temê-lo,
Só faço escrevê-lo,
Como se fosse do teatro uma peça,
E musicá-lo.
Dentro de mim há intensa vida,
E o sentimento não calo,
Seja chegada, seja partida,
Seja pra amada, seja ferida...

Fábio Roberto
Do Livro dos Poemas


terça-feira, 12 de junho de 2018

PELO CONTRÁRIO

Se você é contra o sistema, contra tudo, contra todos, contra isto, contra aquilo ou muito pelo contrário, eu apelo que a partir de amanhã não corte cabelo, barba, bigode, pelo de nariz ou ouvido e não depile pernas, axilas ou partes íntimas. Como todos os protestos, este também não vai mudar nada no mundo, mas pelo menos ninguém precisará procurar pelo em ovo.


Faroberto


segunda-feira, 11 de junho de 2018

AMOR À PRIMEIRA VISTA

Resolvi encontrá-la amanhã. A minha namorada, uma mulher especial. E eu vou me apaixonar por ela instantaneamente. Em minutos escreverei três livros de poemas a ela dedicados. E serão compostas por mim, em menos de meia hora, uma centena de músicas inspiradas por essa Musa.
Ela, com seu jeito ora tímido ora maroto, conquistará meu coração com tanta força que a pedirei em casamento amanhã mesmo. Com um sorriso resplandecente, amanhã ela dirá sim. Amanhã nos enlaçaremos e vamos nos amar tão intensamente que geraremos nossos filhos, que ainda amanhã crescerão belos e saudáveis.
Nós seremos eternamente companheiros amanhã. Envelheceremos juntos vivendo esse dia de forma violentamente verdadeira. O tempo não terá para nós nenhum sentido. Não nos fará falta, nem nos sobrará. Só nos importará o dia de amanhã. Não anos atrás, que nem existiram. Não ontem, quando não existimos realmente porque nosso amor não existia.
Renasceremos amanhã com o nosso amor. Sem pressa. Sem passado. Sem futuro. Um amanhã que nunca acabará e deixará o depois de amanhã sem ter o que fazer, estático, num perpétuo aguardar sem nem poder admirar o nosso amor que nunca terá acontecido ontem. Por ter nascido e vivido dessa forma impossível, invejada, platônica, onírica, romântica, perfeita, loucamente apaixonada, utópica, lírica, mágica, totalmente e somente amanhã.

Fábio Roberto
Do Livro dos Textos

domingo, 10 de junho de 2018

SERVIÇOS PÚBLICOS OU PRIVADOS

O que se fala da qualidade dos serviços públicos é impublicável.
Podemos exemplificar a qualidade dos serviços privados dizendo que está igual aquilo que se encontra nas privadas.
Com a iluminação pública só dá pra ver claramente a péssima iluminação pública.
Opções de velocidade de internet: planos lesma, tartaruga, bicho-preguiça ou barrichello.
O saneamento básico está cheirando mal.
A coleta seletiva está um lixo.
Ninguém coloca a mão no fogo pela qualidade da água.
A telefonia celular é perfeita. Para surdo-mudo.
Ônibus ou metrô no horário do pico é o fim da picada!
O sistema de saúde está em estado terminal.
Até o caixa do banco chamar a sua senha os juros, o dólar e a inflação aumentarão 12%. Mas a economia continuará bem. A economia dos bancos.
É totalmente inseguro até comentar sobre segurança pública.
É injusto dizer que todo político rouba. Existem também os que furtam
e os que assaltam!
O nível da educação? Educação é o c......!

Faroberto

terça-feira, 5 de junho de 2018

LÓGICA

Quem me diz um cara agoniado?
Falam-me insano, melancólico?
É meu pensamento claro e estoico, 
marginal, estranho e desviado.
Fora de controle e equilíbrio.
Longe de conduta elogiada.
De reputação pouco ilibada.
Átomos na mente de um ébrio.
Esta consciência incandescente,
confunde fusa, mínima, colcheia.
Semibreve eu faço o impensável.
Viver o sonho eterno, de repente
palpável, comestível e potável.
Pacto do sangue com a veia.

Fábio Roberto
Do Livro dos Poemas


domingo, 3 de junho de 2018

PONTO DA SURPRESA

estou cansado mas não consigo e não quero parar então continuo e vou indo sem pausa sem reabastecer as energias sem acomodar o corpo sem fechar o olhos sem esticar os ossos numa cama ou chão e com os meus músculos rígidos sem relaxar sigo adiante sem interrupção sem repouso pois não há intervalo para afrouxar os passos ou motivo para diminuir o ímpeto de ir em frente e assim vou sem suspender o ritmo das pernas que andam nesse compasso rápido sem se deterem por nada com a mesma intensidade sem decrescerem a velocidade sem sustarem o movimento sem cessarem a ação portanto eu nem olho para trás para não perder um segundo sequer de espaço futuro caminhando assim sempre ao além do possível além das forças além da vida além do sonho para chegar ao ponto de descanso e com a vontade de ultrapassar todos os limites prosseguir para mim não existe ponto final vírgula ou reticências e só vou parar numa exclamação de alegria ou dor

Fábio Roberto
Do Livro dos Poemas

quarta-feira, 30 de maio de 2018

VULTO

Não sabia se era sonho ou realidade.
Naquele instante eu não estava vivo,
Apenas existia.
Eu era matéria ocupando um ponto no espaço,
Mas meu lugar estava vazio e transparente.
Quis me lembrar se havia adormecido,
Mas não sabia se fora ontem ou hoje
Que havia acordado.
De fora dos meus olhos me olhei,
Vi somente um vulto e pensei:
Seria eu minha sombra?
Mas como, se ali não havia luz?
Luz.
Quis entender,
Mesmo sem saber se possuía um cérebro.
E comecei a achar que nada fazia sentido.
Ou ele estaria exatamente na ausência de?
Então eu quis morrer,
Mas como eu não sabia se havia nascido,
Abri os olhos,
Respirei
E chorei.

Fábio Roberto
Musicado por Titi Trujillo em 1984

terça-feira, 29 de maio de 2018

QUINZE FRASES

Sagrado
É aquilo que te faz bem. Principalmente se alguém acha que isso é pecado.

Gerações
Quando filho eu queria mudar o mundo. Quando pai eu queria explicá-lo. Agora avô eu digo: vamos apenas viver o mundo?

Ovada
O ladrão só vê do ovo algema.

Mui Amigo
Páscoa é quando o peru ri do bacalhau.

Lábia
Os vendedores mais presentes são embrulhões.

Parceria
É somando que se multiplica.

Reclame
Propaganda é onde você pode ser chamado de exibido.

PIB
O PIB - Produto Interno Bruto só cai porque a PIB - Propina Institucional Brasileira só cresce!

Dureza

Na atual conjuntura quem tinha “coração de ouro” já o penhorou.

Junção
Dois corpos apaixonados podem ocupar o mesmo lugar no espaço.

Causídico
Consoante à lei escritores pedem ao alfabeto: advogais por nós!

Fé
Deus sabe o que não faz.

Pipocando
Ironia é uma moça tentar vender milho com a maior cara de pamonha!

Conceitos Sexuais
Fazer sexo é divino. Não fazer é sacanagem.

Tarde no Shopping

Os clientes sempre têm razão. A razão é que não têm clientes

Fábio Roberto

Do Livro das Frases, Questões e Trocadilhos


segunda-feira, 28 de maio de 2018

UM DIA

Vai o dia embora envergonhado
E vai tarde, apático, desengonçado
Lúgubre, sombrio, tristonho, cinza
Desfigurado rosto, coração ranzinza
Não será lembrado ou esquecido
Sua estória não deixou céu comovido
Foi inútil dia, nem feriado, nem rotina
Tão longo e sua queda repentina
Um dia que passou de voz calada
Os olhos nem abriram, natimortos
Passos insalubres, duros, tortos
Levam a alma rude, despetalada
Acaba e não renasce, não há nada:
esquifes, velas, rezas, choros, portos

Fábio Roberto
Do Livro dos Poemas

sexta-feira, 25 de maio de 2018

O CRENTE

A vida é fria tristeza.
A gente descuida e insiste
em ver nela sol e beleza.
Com dor, mas sorriso persiste.
A vida é dura e covarde.
Olhos negros de uma coruja
espreitando o fogo que arde
na alma, antes que fuja
o alento. Descanso ou esperança...
Não há nada após o futuro.
Só o abraço de uma criança
chamada Morte. Silêncio, escuro.

Fábio Roberto
Do Livro dos Poemas

quarta-feira, 23 de maio de 2018

KAMIQUASE

Tem gente que é quase
Quase gente, quase nada
No espelho, forte e abonada
Coração e alma sem base
Tem gente que quase é
Falta um bocado de caráter
Não tem corpo, tem um cárter
Em bom senso é ralé
Tem gente que nem quase
Personalidade de ameba
Com a ignorância se amanceba
Não sabe terminar uma frase
Pra esses seres digo: jaze!
Posando de aristocrata
Sangue tipo de barata
Quer morrer e é Kamiquase

Fábio Roberto
Do Livro dos Poemas


segunda-feira, 21 de maio de 2018

NEVE

É possível transformar o tudo em nada,
deixar morrer a vida iluminada e vibrante,
fugir tal qual um insano retirante,
da chuva benfazeja que lhe rega a estrada.
Pra que beber da água, se o sol o sangue seca?
Por que molhar os pés um tempo e ter descanso,
abrir o sorriso n’alma, respirar e ser o avanço,
adormecer e ter o sonho que qualquer medo breca?
Um amor vale à pena ou qualquer pena.
Um amor intenso que torna até o passado leve.
Uma paixão tão forte que para o futuro deve
explicações. Por que a solidão entrou na arena,
com seu manto de tristeza e fria neve?
Porque a mão do amor o adeus acena.

Fábio Roberto
Do Livro dos Poemas

quinta-feira, 17 de maio de 2018

COFRE


O meu negócio agora é grana.
Vou aposentar-me da poesia.
Grana. É isso e beber uma cana.
Basta de música e melancolia.
Só grana eu vejo na frente.
Por ela eu comerei até grama.
Chega de ser indigente,
honesto e ter jornais como cama.
O meu negócio agora é grana.
Nem mulheres cheias de amores quero.
Comprarei putas, chega de puritanas.
Com grana terei os carinhos que espero.
Com grana comprarei saúde.
Ficarei forte, me farei mais novo.
Terei felicidade amiúde.
Serei senhor do sorriso do povo.
Chega de ajoelhar e rezar.
A minha grana corromperá padres e pastores.
Até o demônio ficará com pesar.
Comprarei dele todos os temores.
Grana. Depois vou distribuí-la aos pobres.
Assim farei para Deus me perdoar.
Serei o dono das almas nobres
e só a minha a um cofre irei doar.

Fábio Roberto

terça-feira, 15 de maio de 2018

AO DIRETOR

Eu estou tão cansado que não tenho sono
e digo a você que do mundo é o dono,
o regente, o diretor do espetáculo,
que não precisa me doar tanto obstáculo.
Sozinho tropeçarei em minhas pernas,
cada vez que me expulsarem das tavernas.
O mundo fica estranho quando sóbrio:
bacilo, bactéria, vírus e micróbio.
A vida deixa qualquer um atônito.
Eu mesmo vou ter que limpar o vômito,
do estomago embrulhado pela raiva.
Mas tudo passa e até o futuro irá passar.
A memória, a quem importa devassar?
O sangue, comovido, some na gaiva...

Fábio Roberto
Do Livro dos Poemas


domingo, 13 de maio de 2018

MIRAGEM

O tempo não foi complacente hoje
Nem pretendia. Nunca o será.
O tempo, sem pressa e rápido, me foge.
Descortinará
As pálpebras.
Álgebra
Somando o vazio
Com o psiu
Solitário na madrugada.
Lua estatelada
No céu
Escuro.
Véu
Que cobre o muro
Onde meu carro, imaginando não mais ser matéria,
Encontrará o impacto da realidade crua.
Pior teria sido cortar a artéria
Nua
Do pensamento, antes que a hora passasse
Sem que minha alma se costurasse
À tua.
A rua
Bebe insaciável o meu vinho
E me engole toda dor.
Vinho, derramado vinho. Adivinho
Qual a dor.
Sorrio ao tempo e lhe digo:
Tu e eu somos eternos,
Caro amigo.
O tempo me abraça forte e terno
E desaparecemos dos nossos olhos feito miragem.
Fumaça, névoa, neblina que o vento dispersou na paisagem.

Fábio Roberto

quinta-feira, 10 de maio de 2018

BATALHAR

Batalhar é suave
Batalhar é suave idade
Batalhar é sua vida
E sua ventura
E sua aventura
É batalhar a sua vida
Batalhar é suave idade
Batalhar é suave
Batalhar a sua vida
É sua ventura
É sua aventura
A batalhar a sua vida
Batalhar é suave
Batalhar

Fábio Roberto
A canção é de 1983 e posso dizer agora que cansa


segunda-feira, 7 de maio de 2018

MENINA SEM NOME

Qual é o nome da menina?
Que te importa? Vês, imaginas.
Tu não és poeta? Ensinas,
Batizas, Apelidas... Mina!
Mina de carvão e solidão?
Mina com olhar de soslaio?
Olhos derramam imensidão.
Se me cruzam eu fujo, saio...
Por que teu nome se precisa?
Teu veio, teu corpo, menina?
Explorar-te, arte precisa.
Pedra preciosa és: Mina!
Sorriso existe mesmo triste.
Quem sabe o que vai à vida?
Mas ao poeta que te assiste,
Mina, diamante, jazida!

Fábio Roberto

sábado, 5 de maio de 2018

CLAVE DE FÁ

A tua vida é admirável ao ser lida em partitura. Respiras compassadamente, ora adágio, ora moderato, por vezes allegro, outras prestíssimo. Sempre seguindo a batuta ritmada do coração que teu sangue quente alimenta, prenunciando belo arranjo orquestral.
Tudo começa ao teu abrir de olhos, como que despertando violinos, violoncelos, violas, contrabaixos e harpas, cordas que obedecem cada teu piscar.
As notas se sucedem quando sorris. Executas um sol para o dia que nasce. A instrumentação vai crescendo aos movimentos dos teus braços e pernas, até que gesticulas as mãos delicadamente, comandando um comovente solo de violoncelo desenhado em clave de fá.
Tudo silencia aguardando outras ordens. Com novos e firmes meneios instigas e aos poucos todos os instrumentos vão se incorporando à voz suave da maestrina.
As madeiras integradas pelas flautas, oboés, clarinetes e fagotes juntam-se ousadamente às sonoridades dos teclados e cordas.
Súbito balanças os cabelos e a orquestra inteira retorna, agregando também o pulsar forte das percussões com seus carrilhões de sinos, pratos, timbales, xilofone, gongo, triângulo e caixas. Com a cabeça instruis o apoio do naipe de metais, retumbando trombones, trompetes, trompas e tubas.
Impressionante a harmonia, a música vibrante que tu és. Como eu queria ser o compositor dessa sinfonia ou um maestro para reger o som escrito em tua pele.
Eu te aplaudiria, mas fico quieto, totalmente emudecido, para continuar ouvindo somente o teu som.

Fábio Roberto
Do Livro dos Poemas
Escrito tempos atrás para a Musa...


sexta-feira, 4 de maio de 2018

A ESTRELA

Eu te vejo como o por do sol
dos olhos.
Luz que vai morrer
pra intensa força do luar
me envolver.
Entrego-me às tuas mãos,
esqueço as sombras de viver.
Exploras minha escuridão,
acender.
E eu brilho feito uma estrela,
não importa que outro dia irá chegar.
Eu me escondo no teu céu em outro mundo
e renasço ao por do sol.

Fábio Roberto
canção de 2008


quarta-feira, 2 de maio de 2018

PERSPECTIVAS

Olhando a vida com os olhos da vida,
só verás a perspectiva da morte.
Olhando a vida com os olhos da morte,
verás somente a vida.

Fábio Roberto
Do Livro dos Poemas


terça-feira, 1 de maio de 2018

C asa


CONTATUAGEM

Tatuei em teu corpo a palavra blefe.
Tentaste apagar, ainda sobrou F.

E o meu F banhado do teu suor,
contou: one... two... tree... four...

Fábio Roberto
Do Livro dos Poemas

sexta-feira, 27 de abril de 2018

DERRADEIRA CHANCE

Uma chance a mais... eu não a quero.
O que faria eu com outra chance?
Nada mais me resta, nada espero.
É impossível que alguém me alcance.
Ninguém desejo, nem vou amar.
Olhos meus sempre estarão fechados,
lágrimas secando a beira-mar
e aos horizontes desesperados.
Recuso outra chance, eu não preciso.
Cansei de cair nas madrugadas,
procurar beleza num sorriso
e beijar as bocas desalmadas.
Amar só serviu pra poesia
tornar-se pungente, melancólica,
perdida, enlouquecida, vazia.
Solitária, mas também simbólica.
Desprezo maldito sentimento,
tão bonito que ainda ressoe
em céus azuis, levado no vento.
Mas não o sabemos: por que foi
o nosso amor morrer de repente,
pra nem mesmo haver em outra vida
derradeira chance refulgente?
Restou-nos o sabor da partida.
Fábio Roberto
Do Livro dos Poemas

quinta-feira, 26 de abril de 2018

ACHADOS E PERDIDOS

Perdi a habilitação, ora pois,
não é que fiquei menos hábil.
Achei minha habilitação depois,
não sei se encontrei o Fábio.
Fábio Roberto
Do Livro dos Poemas


domingo, 22 de abril de 2018

ODE (ódio) AO AMOR

Poema de amor é ridículo e infame
Na verdade é assim e de mim não reclame
Amor é tragédia, o recheio do drama
É o fim, egoísmo, traição em uma trama

Amor não existe e não cabe em sorriso
É paixão, o tesão das peles sem siso
Falso, ilusório, vazio e ligeiro
Tristeza do céu. Mal jamais passageiro

É coração partido. Dois pés numa bunda
Dor grudada na alma depois de uma tunda
Saiba ser o esperto, fuja dessas armadilhas
Distancie de gente pelo menos mil milhas

Feito Lobo da Estepe de olhos espertos
Da civilização espreitando seus restos
As sobras do amor são as partes feridas
Saudade que vence e transcende as vidas

Fábio Roberto
Do Livro dos Poemas



sábado, 21 de abril de 2018

TELA

Só numa tela para tê-la
inteira

e numa remota vela vê-la
partir
dos meus olhos, mares.
Quando me amares,
paisagem leira
no porvir.

Fábio Roberto
Do Livro dos Poemas


sexta-feira, 20 de abril de 2018

PEQUENA ESTÓRIA DE UM INFINITO AMOR

Quando as nossas almas se tocaram,
os corações cansados ficaram iluminados.

Que paixão foi essa que nasceu após as tempestades,
como se as idades perdurassem além do tempo?

Feito uma saudade inexistente,
nó já desatado,
assunto resolvido,
verso do passado.

Nem o futuro assustou o passo que viria,
mas a febre não amainou a fome insaciável e voraz.

Cada instante era o primeiro e o único que tínhamos pra viver.
E vivemos felizes para sempre em nossa história:

era uma vez...


Fábio Roberto

Do Livro dos Poemas


quinta-feira, 19 de abril de 2018

PREMONIÇÃO

O dia em que eu morri foi muito louco.
Moscas borboletavam o meu cadáver murcho e florido.
Triste foi aguentar o meu desodorante vencido!


Faroberto


quarta-feira, 18 de abril de 2018

PROFESSOR

Não me sabia professor de matemática.
No máximo aprendiz da dialética.
Hoje, mais adepto da estática,
ainda apaixonado pela ética.
Uma mulher considerou-me antigo mestre,
que outrora fora muito importante.
Enganou-a este Einstein quase eqüestre,
pois dos números sou mero retirante.
Eu poderia engabelar a tal donzela.
Talvez até fingir-me engenheiro
que nunca fui. A lousa era mazela.
Perdia-me nas fórmulas inteiro.
Será que valeria intenso esforço,
pra calcular da soma o resultado?
Da expressão restou-me apenas um esboço,
feito com giz, rabiscado e apagado.
Se a incógnita do amor é uma rima,
o xis da equação é evidente
e eu concluo sem pensar aqui de prima:
sou teu por mais que a diaba tente.
Faroberto

domingo, 15 de abril de 2018

INGREDIENTES

Paixão não se alimenta de fermento,
que só serve para crescer a massa,
sem dar sabor algum ao sentimento.

E sem recheio até um grande amor passa.


Faroberto


BOM DIA

Machucado, mas alegre,
bom-humor é uma febre:
caveira sempre sorrindo.

Prossiga o mundo dormindo
quando o escuro, ainda nem findo,
o amanhecer eu celebre.



Faroberto


sábado, 14 de abril de 2018

POETAS dos POEMAS BRABOS

Restaram poucos dos poetas
brabos no octógono das linhas.
Almas quando são analfabetas
voam longe, feito andorinhas
procurando o colo de um verão.
Medo de um tenebroso inverno
que lhes prenda o verso no alçapão.
Vivem em grades do silêncio eterno.

Aves brabas sobem muito além,
nunca temem pedra de estilingue.
Brotam-lhes palavras no harém,
para que a escolhida vingue.
Forma-se na página um ringue.
Polemizadores nos seus córners.
Escrevem tanto, até que o sangue pingue
e a folha inteira um poema adorne.


Faroberto


sábado, 7 de abril de 2018

POVO VALENTE

Na minha adolescência, no meio da década de 70, vivíamos sob o jugo de uma pesada ditadura militar, com direitos suprimidos e praticamente sem liberdade de expressão, como se sabe. Nem eventuais imbecis batedores de panelas podiam bater panelas, mesmo porque os covardes se escondiam em suas tocas.
Incrível dizer isso hoje, mas o meu cabelo nos ombros, junto com a colorida bolsa de crochê a tiracolo, tamanco nos pés, jeans surrados no corpo e ideias na cabeça, causavam a repulsa dos convencionais.
E estamos vivendo uma ditadura e um retrocesso novamente. Há uma guerra civil causando a morte do povo nas ruas e uma máfia no poder, que tomou conta de todos os setores da sociedade. O golpe ainda em andamento foi diferente do daquela época. Tanto que agora boa parcela da população, mesmo sofrendo a cada dia maiores injustiças e contando com cada vez menos benefícios, nem percebeu a realidade que a cerca. Não vê que alimentou o predador que a está devorando vorazmente, como um boi pelas piranhas.
Naquela época fiz uma canção e só espero que o fim da estória seja outro:

POVO VALENTE
Olha o povo vem vindo
Olha o povo marchando
Olha o povo sorrindo
Por não poder chorar
Olha o povo cantando
Olha o povo sangrando
Olha o povo pegando
A viola pra guerrear
Cantam hinos valentes
Bem defronte aos canhões
Vê como balas calam as vozes
Que clamam paz
Mas outro, pega a viola
E outro vem pra cantar
Olha o povo cantando
Por não saber lutar
Olha o povo valente
Vem sangrando e sorrindo
Olha o povo morrendo
Por não saber matar
Fábio Roberto

sexta-feira, 6 de abril de 2018

NÃO TENHO TEMPO

Estão todos dormindo
mesmo quando despertos,
ou até mesmo fingindo
que seguem vivos e espertos.

Dizem que o tempo é implacável
e falta mais do que dinheiro.
Desculpa insustentável
na boca de loroteiro.

Fábio Roberto
Do Livro dos Poemas



domingo, 1 de abril de 2018

FICÇÃO

Criei o roteiro de um filme sobre a história do futebol. Nele eu abordo desde o início, quando os chineses inventaram o macarrão, a roda, o fogo, a cerveja e a bola, explicitando que a origem do jogo propriamente dito, com regras, traves e árbitro, derivou-se de danças africanas, principalmente da cultura Zulu.
Conto que o esporte difundiu-se no Brasil por conta dos homens aqui trazidos como escravos, que popularizaram o futebol juntamente com a capoeira, o candomblé, a feijoada, o samba, o carnaval e o jogo do bicho (com os animais que habitavam aquele continente).
Descrevo como Maradona dedicou o seu milésimo gol às criancinhas e Pelé livrou-se arduamente do vício das drogas. Falo a respeito de um grupo de atletas brasileiros que na década de 80 se rebelou contra as regras do sistema esportivo, realizando um movimento denominado de Democracia Palmeirense.
Não deixo de fora momentos curiosos como a invenção da bicicleta por Dario Maravilha, da folha seca por Marcelinho Carioca e do cartão vermelho por Luis Fabiano.
Demonstro que foi Afonsinho quem desenvolveu o mecanismo dos passes dos jogadores pertencerem aos clubes.
Aprofundo as explicações de que Garrincha driblava mal por ter pernas tortas e mostro que Rivelino disputava as competições oficiais vestindo a camisa do São Paulo por baixo da dos seus times.
No final revelo que Tostão é o Pai do Real e, doa a quem doer, provo que Rogério Ceni foi o melhor futebolista de todo os tempos, atuando na linha. Vou parar por aqui para não entregar todas as surpresas.
Eu agradeço se alguém puder indicar um diretor de cinema bom nessa coisa de Baseado. Baseado em Fatos Reais, claro!
Fábio Roberto