quinta-feira, 17 de maio de 2018

COFRE


O meu negócio agora é grana.
Vou aposentar-me da poesia.
Grana. É isso e beber uma cana.
Basta de música e melancolia.
Só grana eu vejo na frente.
Por ela eu comerei até grama.
Chega de ser indigente,
honesto e ter jornais como cama.
O meu negócio agora é grana.
Nem mulheres cheias de amores quero.
Comprarei putas, chega de puritanas.
Com grana terei os carinhos que espero.
Com grana comprarei saúde.
Ficarei forte, me farei mais novo.
Terei felicidade amiúde.
Serei senhor do sorriso do povo.
Chega de ajoelhar e rezar.
A minha grana corromperá padres e pastores.
Até o demônio ficará com pesar.
Comprarei dele todos os temores.
Grana. Depois vou distribuí-la aos pobres.
Assim farei para Deus me perdoar.
Serei o dono das almas nobres
e só a minha a um cofre irei doar.

Fábio Roberto

terça-feira, 15 de maio de 2018

AO DIRETOR

Eu estou tão cansado que não tenho sono
e digo a você que do mundo é o dono,
o regente, o diretor do espetáculo,
que não precisa me doar tanto obstáculo.
Sozinho tropeçarei em minhas pernas,
cada vez que me expulsarem das tavernas.
O mundo fica estranho quando sóbrio:
bacilo, bactéria, vírus e micróbio.
A vida deixa qualquer um atônito.
Eu mesmo vou ter que limpar o vômito,
do estomago embrulhado pela raiva.
Mas tudo passa e até o futuro irá passar.
A memória, a quem importa devassar?
O sangue, comovido, some na gaiva...

Fábio Roberto
Do Livro dos Poemas


domingo, 13 de maio de 2018

MIRAGEM

O tempo não foi complacente hoje
Nem pretendia. Nunca o será.
O tempo, sem pressa e rápido, me foge.
Descortinará
As pálpebras.
Álgebra
Somando o vazio
Com o psiu
Solitário na madrugada.
Lua estatelada
No céu
Escuro.
Véu
Que cobre o muro
Onde meu carro, imaginando não mais ser matéria,
Encontrará o impacto da realidade crua.
Pior teria sido cortar a artéria
Nua
Do pensamento, antes que a hora passasse
Sem que minha alma se costurasse
À tua.
A rua
Bebe insaciável o meu vinho
E me engole toda dor.
Vinho, derramado vinho. Adivinho
Qual a dor.
Sorrio ao tempo e lhe digo:
Tu e eu somos eternos,
Caro amigo.
O tempo me abraça forte e terno
E desaparecemos dos nossos olhos feito miragem.
Fumaça, névoa, neblina que o vento dispersou na paisagem.

Fábio Roberto

quinta-feira, 10 de maio de 2018

BATALHAR

Batalhar é suave
Batalhar é suave idade
Batalhar é sua vida
E sua ventura
E sua aventura
É batalhar a sua vida
Batalhar é suave idade
Batalhar é suave
Batalhar a sua vida
É sua ventura
É sua aventura
A batalhar a sua vida
Batalhar é suave
Batalhar

Fábio Roberto
A canção é de 1983 e posso dizer agora que cansa


segunda-feira, 7 de maio de 2018

MENINA SEM NOME

Qual é o nome da menina?
Que te importa? Vês, imaginas.
Tu não és poeta? Ensinas,
Batizas, Apelidas... Mina!
Mina de carvão e solidão?
Mina com olhar de soslaio?
Olhos derramam imensidão.
Se me cruzam eu fujo, saio...
Por que teu nome se precisa?
Teu veio, teu corpo, menina?
Explorar-te, arte precisa.
Pedra preciosa és: Mina!
Sorriso existe mesmo triste.
Quem sabe o que vai à vida?
Mas ao poeta que te assiste,
Mina, diamante, jazida!

Fábio Roberto

sábado, 5 de maio de 2018

CLAVE DE FÁ

A tua vida é admirável ao ser lida em partitura. Respiras compassadamente, ora adágio, ora moderato, por vezes allegro, outras prestíssimo. Sempre seguindo a batuta ritmada do coração que teu sangue quente alimenta, prenunciando belo arranjo orquestral.
Tudo começa ao teu abrir de olhos, como que despertando violinos, violoncelos, violas, contrabaixos e harpas, cordas que obedecem cada teu piscar.
As notas se sucedem quando sorris. Executas um sol para o dia que nasce. A instrumentação vai crescendo aos movimentos dos teus braços e pernas, até que gesticulas as mãos delicadamente, comandando um comovente solo de violoncelo desenhado em clave de fá.
Tudo silencia aguardando outras ordens. Com novos e firmes meneios instigas e aos poucos todos os instrumentos vão se incorporando à voz suave da maestrina.
As madeiras integradas pelas flautas, oboés, clarinetes e fagotes juntam-se ousadamente às sonoridades dos teclados e cordas.
Súbito balanças os cabelos e a orquestra inteira retorna, agregando também o pulsar forte das percussões com seus carrilhões de sinos, pratos, timbales, xilofone, gongo, triângulo e caixas. Com a cabeça instruis o apoio do naipe de metais, retumbando trombones, trompetes, trompas e tubas.
Impressionante a harmonia, a música vibrante que tu és. Como eu queria ser o compositor dessa sinfonia ou um maestro para reger o som escrito em tua pele.
Eu te aplaudiria, mas fico quieto, totalmente emudecido, para continuar ouvindo somente o teu som.

Fábio Roberto
Do Livro dos Poemas
Escrito tempos atrás para a Musa...


sexta-feira, 4 de maio de 2018

A ESTRELA

Eu te vejo como o por do sol
dos olhos.
Luz que vai morrer
pra intensa força do luar
me envolver.
Entrego-me às tuas mãos,
esqueço as sombras de viver.
Exploras minha escuridão,
acender.
E eu brilho feito uma estrela,
não importa que outro dia irá chegar.
Eu me escondo no teu céu em outro mundo
e renasço ao por do sol.

Fábio Roberto
canção de 2008


quarta-feira, 2 de maio de 2018

PERSPECTIVAS

Olhando a vida com os olhos da vida,
só verás a perspectiva da morte.
Olhando a vida com os olhos da morte,
verás somente a vida.

Fábio Roberto
Do Livro dos Poemas


terça-feira, 1 de maio de 2018

C asa


CONTATUAGEM

Tatuei em teu corpo a palavra blefe.
Tentaste apagar, ainda sobrou F.

E o meu F banhado do teu suor,
contou: one... two... tree... four...

Fábio Roberto
Do Livro dos Poemas

sexta-feira, 27 de abril de 2018

DERRADEIRA CHANCE

Uma chance a mais... eu não a quero.
O que faria eu com outra chance?
Nada mais me resta, nada espero.
É impossível que alguém me alcance.
Ninguém desejo, nem vou amar.
Olhos meus sempre estarão fechados,
lágrimas secando a beira-mar
e aos horizontes desesperados.
Recuso outra chance, eu não preciso.
Cansei de cair nas madrugadas,
procurar beleza num sorriso
e beijar as bocas desalmadas.
Amar só serviu pra poesia
tornar-se pungente, melancólica,
perdida, enlouquecida, vazia.
Solitária, mas também simbólica.
Desprezo maldito sentimento,
tão bonito que ainda ressoe
em céus azuis, levado no vento.
Mas não o sabemos: por que foi
o nosso amor morrer de repente,
pra nem mesmo haver em outra vida
derradeira chance refulgente?
Restou-nos o sabor da partida.
Fábio Roberto
Do Livro dos Poemas

quinta-feira, 26 de abril de 2018

ACHADOS E PERDIDOS

Perdi a habilitação, ora pois,
não é que fiquei menos hábil.
Achei minha habilitação depois,
não sei se encontrei o Fábio.
Fábio Roberto
Do Livro dos Poemas


domingo, 22 de abril de 2018

ODE (ódio) AO AMOR

Poema de amor é ridículo e infame
Na verdade é assim e de mim não reclame
Amor é tragédia, o recheio do drama
É o fim, egoísmo, traição em uma trama

Amor não existe e não cabe em sorriso
É paixão, o tesão das peles sem siso
Falso, ilusório, vazio e ligeiro
Tristeza do céu. Mal jamais passageiro

É coração partido. Dois pés numa bunda
Dor grudada na alma depois de uma tunda
Saiba ser o esperto, fuja dessas armadilhas
Distancie de gente pelo menos mil milhas

Feito Lobo da Estepe de olhos espertos
Da civilização espreitando seus restos
As sobras do amor são as partes feridas
Saudade que vence e transcende as vidas

Fábio Roberto
Do Livro dos Poemas



sábado, 21 de abril de 2018

TELA

Só numa tela para tê-la
inteira

e numa remota vela vê-la
partir
dos meus olhos, mares.
Quando me amares,
paisagem leira
no porvir.

Fábio Roberto
Do Livro dos Poemas


sexta-feira, 20 de abril de 2018

PEQUENA ESTÓRIA DE UM INFINITO AMOR

Quando as nossas almas se tocaram,
os corações cansados ficaram iluminados.

Que paixão foi essa que nasceu após as tempestades,
como se as idades perdurassem além do tempo?

Feito uma saudade inexistente,
nó já desatado,
assunto resolvido,
verso do passado.

Nem o futuro assustou o passo que viria,
mas a febre não amainou a fome insaciável e voraz.

Cada instante era o primeiro e o único que tínhamos pra viver.
E vivemos felizes para sempre em nossa história:

era uma vez...


Fábio Roberto

Do Livro dos Poemas


quinta-feira, 19 de abril de 2018

PREMONIÇÃO

O dia em que eu morri foi muito louco.
Moscas borboletavam o meu cadáver murcho e florido.
Triste foi aguentar o meu desodorante vencido!


Faroberto


quarta-feira, 18 de abril de 2018

PROFESSOR

Não me sabia professor de matemática.
No máximo aprendiz da dialética.
Hoje, mais adepto da estática,
ainda apaixonado pela ética.
Uma mulher considerou-me antigo mestre,
que outrora fora muito importante.
Enganou-a este Einstein quase eqüestre,
pois dos números sou mero retirante.
Eu poderia engabelar a tal donzela.
Talvez até fingir-me engenheiro
que nunca fui. A lousa era mazela.
Perdia-me nas fórmulas inteiro.
Será que valeria intenso esforço,
pra calcular da soma o resultado?
Da expressão restou-me apenas um esboço,
feito com giz, rabiscado e apagado.
Se a incógnita do amor é uma rima,
o xis da equação é evidente
e eu concluo sem pensar aqui de prima:
sou teu por mais que a diaba tente.
Faroberto

domingo, 15 de abril de 2018

INGREDIENTES

Paixão não se alimenta de fermento,
que só serve para crescer a massa,
sem dar sabor algum ao sentimento.

E sem recheio até um grande amor passa.


Faroberto


BOM DIA

Machucado, mas alegre,
bom-humor é uma febre:
caveira sempre sorrindo.

Prossiga o mundo dormindo
quando o escuro, ainda nem findo,
o amanhecer eu celebre.



Faroberto


sábado, 14 de abril de 2018

POETAS dos POEMAS BRABOS

Restaram poucos dos poetas
brabos no octógono das linhas.
Almas quando são analfabetas
voam longe, feito andorinhas
procurando o colo de um verão.
Medo de um tenebroso inverno
que lhes prenda o verso no alçapão.
Vivem em grades do silêncio eterno.

Aves brabas sobem muito além,
nunca temem pedra de estilingue.
Brotam-lhes palavras no harém,
para que a escolhida vingue.
Forma-se na página um ringue.
Polemizadores nos seus córners.
Escrevem tanto, até que o sangue pingue
e a folha inteira um poema adorne.


Faroberto


sábado, 7 de abril de 2018

POVO VALENTE

Na minha adolescência, no meio da década de 70, vivíamos sob o jugo de uma pesada ditadura militar, com direitos suprimidos e praticamente sem liberdade de expressão, como se sabe. Nem eventuais imbecis batedores de panelas podiam bater panelas, mesmo porque os covardes se escondiam em suas tocas.
Incrível dizer isso hoje, mas o meu cabelo nos ombros, junto com a colorida bolsa de crochê a tiracolo, tamanco nos pés, jeans surrados no corpo e ideias na cabeça, causavam a repulsa dos convencionais.
E estamos vivendo uma ditadura e um retrocesso novamente. Há uma guerra civil causando a morte do povo nas ruas e uma máfia no poder, que tomou conta de todos os setores da sociedade. O golpe ainda em andamento foi diferente do daquela época. Tanto que agora boa parcela da população, mesmo sofrendo a cada dia maiores injustiças e contando com cada vez menos benefícios, nem percebeu a realidade que a cerca. Não vê que alimentou o predador que a está devorando vorazmente, como um boi pelas piranhas.
Naquela época fiz uma canção e só espero que o fim da estória seja outro:

POVO VALENTE
Olha o povo vem vindo
Olha o povo marchando
Olha o povo sorrindo
Por não poder chorar
Olha o povo cantando
Olha o povo sangrando
Olha o povo pegando
A viola pra guerrear
Cantam hinos valentes
Bem defronte aos canhões
Vê como balas calam as vozes
Que clamam paz
Mas outro, pega a viola
E outro vem pra cantar
Olha o povo cantando
Por não saber lutar
Olha o povo valente
Vem sangrando e sorrindo
Olha o povo morrendo
Por não saber matar
Fábio Roberto

sexta-feira, 6 de abril de 2018

NÃO TENHO TEMPO

Estão todos dormindo
mesmo quando despertos,
ou até mesmo fingindo
que seguem vivos e espertos.

Dizem que o tempo é implacável
e falta mais do que dinheiro.
Desculpa insustentável
na boca de loroteiro.

Fábio Roberto
Do Livro dos Poemas



domingo, 1 de abril de 2018

FICÇÃO

Criei o roteiro de um filme sobre a história do futebol. Nele eu abordo desde o início, quando os chineses inventaram o macarrão, a roda, o fogo, a cerveja e a bola, explicitando que a origem do jogo propriamente dito, com regras, traves e árbitro, derivou-se de danças africanas, principalmente da cultura Zulu.
Conto que o esporte difundiu-se no Brasil por conta dos homens aqui trazidos como escravos, que popularizaram o futebol juntamente com a capoeira, o candomblé, a feijoada, o samba, o carnaval e o jogo do bicho (com os animais que habitavam aquele continente).
Descrevo como Maradona dedicou o seu milésimo gol às criancinhas e Pelé livrou-se arduamente do vício das drogas. Falo a respeito de um grupo de atletas brasileiros que na década de 80 se rebelou contra as regras do sistema esportivo, realizando um movimento denominado de Democracia Palmeirense.
Não deixo de fora momentos curiosos como a invenção da bicicleta por Dario Maravilha, da folha seca por Marcelinho Carioca e do cartão vermelho por Luis Fabiano.
Demonstro que foi Afonsinho quem desenvolveu o mecanismo dos passes dos jogadores pertencerem aos clubes.
Aprofundo as explicações de que Garrincha driblava mal por ter pernas tortas e mostro que Rivelino disputava as competições oficiais vestindo a camisa do São Paulo por baixo da dos seus times.
No final revelo que Tostão é o Pai do Real e, doa a quem doer, provo que Rogério Ceni foi o melhor futebolista de todo os tempos, atuando na linha. Vou parar por aqui para não entregar todas as surpresas.
Eu agradeço se alguém puder indicar um diretor de cinema bom nessa coisa de Baseado. Baseado em Fatos Reais, claro!
Fábio Roberto

sexta-feira, 30 de março de 2018

UM

Fui colocado fora dos meus planos.
Aeroplanos.
Fui colocado fora dos teus planos.

Adormeci fora do meu sonho.
Medonho.
Adormeci fora do teu sonho.

Fui andar longe dos meus passos.
Descompassos.
Fui andar longe dos teus passos.


Eu me vi com outros olhos.
Abrolhos
Eu te vi com outros olhos.

Quero o nosso espelho de volta
para eu me enxergar e ver você.
Quero o nosso espelho de volta
para eu te enxergar e me ver.

Quando não somos um sou nenhum.

Fábio Roberto


quinta-feira, 29 de março de 2018

EXEMPLO

Eu sou um exemplo de homem.
Um de uma intensa mulher e só.
Os outros vulgarmente as comem,
maltratam suas peles sem dó.
Usam, abusam e somem.
Nasce o dia e o amor vira pó.

De homem sou modelo nobre e raro.
Um que sempre ampara a sua dama.
Os outros não deixam nada claro.
Só as querem levar para uma cama.
Dizimam-lhes o prazer como ácaro.
Corações nem no eletrocardiograma.

Eu sou incomparável como amante.
Satisfaço plenamente a minha Deusa.
Os outros querem os dotes de Bacante,
servem-nas como vinho e adorno à mesa.
Depois, em gesto ingrato e ultrajante,
oferecem-lhes a solidão como surpresa.

Eu e apenas eu sou desigual.
A minha Musa é um sorriso eternamente.
As outras, sem paixão tão surreal,
no rosto uma tristeza transparente,
no corpo uma doença terminal
e a dor de uma alma evanescente.

Fábio Roberto

Do Livro dos Poemas


terça-feira, 20 de março de 2018

REFLEXÕES ESPORTIVAS

Na Fórmula 1 também é proibido dar carrinho.

Intelectual só faz gol de letra?

Metalúrgico só faz gol de placa?

Chifrudo pode fazer gol de cabeça?

No basquete o buraco é mais em cima.

Futebol feminino é para quem tem peito.

Dopingpong é doping no tênis de mesa.

Jóquei tem obrigação de lavar a égua?

O vencedor sempre tem espírito esportivo.

Para revelar ser gay no futebol tem que ser macho.

Surfista só faz onda.

No automobilismo vivem fazendo planos-pilotos.

Jogador daltônico nunca leva cartão vermelho.

Goleiro é a sogra do futebol.

No esporte feminino mulheres menstruadas não fogem às regras.

Pode um iatista usar camiseta pólo e um praticante de pólo usar camiseta regata?

Futebol é uma invenção bem bolada.

O inventor do vôlei teve uma grande sacada.

Se você estiver com a pressão alta não exagere no futsal.

Jogar tênis smash comigo.

Goleiro é a sogra do futebol.

Se no futebol tem voleio deveria ter futeboleio no vôlei.

Quando apronta o filho do árbitro leva um a-pito.

Quando bebe muito o jogador de vôlei ressaca...

Dúvida: se jogador de futebol tem que ficar concentrado, um pensador tem que ficar disperso?

O homem tem três profissões-lazer no mundo: ginecologista, ator de filme pornô e comentarista de futebol.

Tem atleta que não é titular nem da esposa.

O lutador perdeu a competição porque não se a-judô.

É proibido ofender qualquer pessoa. Juiz de futebol não é uma pessoa.

E disse o recordista ao receber o troféu: pódio deixar comigo.

Fábio Roberto

Do Livro das Frases, Questões e Trocadilhos


domingo, 18 de março de 2018

CEPA

Decepar
A copa da árvore
Encorpar
A capa da culpa
Capar
A capacidade
O cepo
De mármore
Céptico
Capim capoeira
Cepa
Decepar
A decepção

Fábio Roberto

Musicado em 1996


quarta-feira, 14 de março de 2018

BOMBA

Neste mundo tão traiçoeiro e triste, ser feliz é uma tragédia.

Os dentes escarnecidos e sarcásticos das almas banguelas, retratam o que é rastejar em âmbito inferior.

Nós, otimistas e sonhadores de existências pautadas pela sensibilidade artística, acreditamos em outras vidas, alegrias, desastres, universos, dimensões, atitudes, suicídios, nascimentos, decepções...

Ou seja, sabemos que apesar das maldades em que nos envolvem e das dificuldades pelas quais passamos, um único momento verdadeiro e absoluto de amor e paixão nos motivará a ir em frente.

Toda poesia cabe numa lágrima. Cabe também em um sorriso. Não cantamos uma coisa ou outra. Somos inteiros.

E faremos essa gente podre se torturar e sangrar quando, mesmo com o coração dolorido ou o corpo machucado, soltarmos a gargalhada sincera e retumbante que ecoará em suas mentes como se fosse a contagem regressiva de uma bomba prestes a explodir.

Fábio Roberto
Do Livro de Textos e Crônicas



terça-feira, 13 de março de 2018

MALDOSO

Considerava-se Perverso. Tentava ser o pior homem da face da Terra. Nunca dormia o sono dos justos. O seu grande sonho era tornar-se o inimigo público número um.

Mas por pior que tentasse ser, não conseguia. Todos gostavam dele e desejavam conhecê-lo, compreendê-lo e ajudá-lo. Justo ele que queria ser odiado. Queria ser apontado nas ruas como marginal. Queria ver o seu nome nas páginas policiais como bandido perigoso, para que as pessoas fugissem de medo ao avistá-lo.

Maldoso, fazia cara de ruim, mas as crianças o chamavam de “tio” e iam com ele brincar. Chutava os cachorros que atravessavam o seu caminho, mas eles voltavam com o sorriso no balançar frenético do rabo. Vagabundeou, mas lhe ofereceram um ótimo emprego. Roubou e pelo roubado foi perdoado. Pecou, desejando a mulher do próximo, mas o próximo se ausentou.
Cansado, caiu na realidade e entristeceu.

Chegou a noite e foi se esquecendo em um canto, afundando em seus pensamentos. Derramou muitas lágrimas pelo seu fracasso.
Enfim, refletiu e arrependeu-se, compreendendo que não nascera para ser mau. Começaria nova vida mudando seu modo de ser, agir e pensar, agradecendo a todos que o tinham respeitado até aquele momento.

No outro dia morreu e sua alma foi arder no inferno.

Fábio Roberto

Do Livro de Textos e Crônicas

sábado, 10 de março de 2018

PREGADORES

O pregador estava velho. Sua madeira amolecida quase se desmilinguia sozinha. A presilha enferrujada praticamente já não permitia que ele se sustentasse no varal. Era um esforço hercúleo. E ficava ali abandonado, sujeito às intempéries, sem prender uma calcinha, uma cueca, uma simples meia furada.
Foi então que ele olhou pra cima e viu uma luz. A luz sempre estivera ali, mas ele nunca tinha notado. Subitamente dessa energia retumbou uma voz grave, instigante e gutural que lhe falou: cumpra a sua missão!

Imediatamente, tomado pela emoção, desprendeu-se do varal e espatifou-se no chão. Dolorido, mas tomado por uma força sobrecoisa, já que não era humano, juntou os seus restos e passou a pregar palavras.
Tornou-se o mais rico, influente e respeitado pregador que já se conheceu.

Fábio Roberto
Do Livro de Textos e Crônicas

sábado, 3 de março de 2018

FUMAÇA




Foi o tempo de fumar um último cigarro,
lentamente retirado do derradeiro maço.
O isqueiro falhou, mas não o teu charme.
Eu vou me dissolvendo, feito de barro.
Eu vou me desbastando, pelo cansaço,
mas teus olhos inda estão a chamar-me.
Você traga profundamente, eu viro fumaça
misturada com o ar e o vento a dissipa.
Meus restos descansam displicentes no cinzeiro.
Meio cigarro queimando o minuto que passa
e a minha boca o teu beijo antecipa.
O beijo que me tornaria vivo e fidalgueiro.
E súbito nos toma mais que doída saudade:
teus olhos pedem pra ficar dizendo adeus
e eu não impeço esta tua decisiva tragada.
Ah... como eu queria ter o tempo da tua idade,
desde sempre e para sempre aos olhos teus.
A solidão jaz no cinzeiro, apagada...
Fábio Roberto
Do Livro dos Poemas Cap. Musas

quinta-feira, 1 de março de 2018

POEMA APAGADO

O poema mais bonito não será escrito.
Ele não será parceiro da melhor música.
Tanto faz fosse romântico ou maldito
e fosse melodia profana ou lúdica.

Pouco importa, pois ele jamais será escrito,
declamado, lido, ouvido ou sentido.
Não nasceu, não existiu, mas morreu. Foi proscrito
pra exilar-se apagado, nobre, partido...
Letras jogadas ao chão do papel, sem a musa
a inspiração que vá procurar outras penas.
A palavra amor, som da vida, é intrusa.
E a vida é a espera de morrer, apenas.

Fábio Roberto
Do Livro dos Poemas Cap. Musas


domingo, 25 de fevereiro de 2018

Amor, Paixão e Tesão:

Quando é amor é medido pela dor da saudade e intensidade do reencontro.
Quando é paixão é medido pela dor da saudade, intensidade do reencontro e quantidade de orgasmos.

Quando é só tesão não dá tempo de medir nada. É sexo e sacanagem o tempo todo.
Quando é amor, paixão e tesão ao mesmo tempo, você está sonhando!

Faroberto
Do Livro das Frases, Questões e Trocadilhos

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

RAP DO CAPITALISTA (2012)

Grife, grana e de gravata é um tolo, chauvinista
O que fala é só bravata, fingindo de idealista
Vive de golpe e mamata, posando de moralista
Dotado de quatro patas, envergonha darwinista
Eu na vida autodidata, você um ilusionista
Siga sendo uma errata, eu prossigo um anarquista
A postura burocrata te fará ser congressista?
Manda aí tuas cascatas, não passa de um vigarista
Vestido de diplomata na corrida armamentista
Postura pobre e primata, nem te salva um exorcista
O teu corpo é uma sucata, me xinga de comunista?
Viva com merda e baratas, otário, capitalista!

Fábio Roberto
Pra II Mostra Artística da Turma Braba

domingo, 4 de fevereiro de 2018

A PRESENÇA DA MULHER

A presença da tua mulher não está no perfume que ela usa, mas no aroma que ela deixa. Não está na palavra que ela diz, mas no olhar trocado que tudo entende. Está na mão que acaricia a tua pele à distância. Está no beijo de anteontem que continua na tua boca até agora. Está no abraço que é sentido em cada momento de carência, aquele onde o frio da solidão te ataca feito uma faca no estômago.
A presença da tua mulher está na inexistência da dúvida. Ela demonstra o amor de forma tão clara que seria estúpido não crer. Está na forma dela andar ao teu lado. No mesmo ritmo, no mesmo compasso. Está no jeito que ela te olha quando está com os amigos dela. Se ela te olha admirada, se ela tem orgulho da sua companhia, ela está inteira com você. Se ela fala de você tão naturalmente na tua presença, que parece que te conhece há vidas, ela te ama de verdade.
A presença da tua mulher é real quando ela não te esconde de nada. Por que os outros, quem são os outros para ela? A tua mulher está presente quando não sai do teu pensamento nem o balançar dos cabelos dela. Nem a forma como ela se despe pra você. Ou a expressão de êxtase que ela faz quando você a explora com mão de moleque ou a invade com a paixão mais enlouquecida.
Está no sono que ela tem depois de te amar intensamente. Se ela adormece linda, totalmente nua e tranquila, ela confia, ela está com você.
A tua mulher está presente quando a ausência dela é tão doída, que você prefere ter qualquer dor a não tê-la perto. Certamente essa mulher te deu um presente inesquecível: um amor pra sempre.
Pra sempre será pouco tempo na presença dessa mulher.


sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

ZUMBIDO (texto para o clipe)

O Zumbido que me enlouquece é a voz da solidão que sinto neste planeta desconhecido. Dói na alma a angústia de viver aqui, sem poder melhorar os destinos, impotente frente à realidade cruel que não se transforma.
A beleza do que admiro em cada paisagem da natureza ou gesto caridoso de humanidade, não torna existir mais suportável. Pouco há que suavize esta provação.
As palavras e as melodias que recebo tornam-se a esquizofrenia de um ser atormentado, que tenta escapar por instantes da prisão cantando a agonia ao universo.
Vez ou outra uma Musa surge inspirando obras que descrevem amor e paixão, emocionando o infinito. Mas isso dura o tempo de um sonho, como se fosse um relâmpago no céu da eternidade.
O que resta ao acordar é o vazio e buscar novamente algo que me complete, provoque, envolva, motive, entorpeça, anestesie, drogue, inspire, apaixone...
Não sei se eu sou Um Açoite ou Uma Espada. Talvez eu seja Um Grito Pichado No Muro. Um Zumbido. Que Zumbe e Zumbe e Zumbe...
Fábio Roberto